domingo, fevereiro 20, 2011

SANTO AFONSO SOBRE A VOCAÇÃO SACERDOTAL

Nota: O trecho que vai abaixo está contido no capítulo XI [Quem ama Jesus Cristo procura desprender-se de todas as criaturas] do livro A PRÁTICA DO AMOR A JESUS CRISTO, 18ª edição, Editora Santuário. É um trecho muito oportuno, dado o que vemos acontecer com o clero, no Brasil e no mundo.

Note-se ainda que, assim como corre grande perigo de condenar-se quem não segue o chamado de Deus só para satisfazer os pais, também corre grande risco que se ordena padre sem vocação, só para agradar seus parentes. São três os principais sinais para se conhecer a verdadeira vocação sacerdotal: a ciência competente, a reta intenção de buscar só a Deus, e a boa conduta de vida.

O Concílio de Trento, falando especialmente da boa conduta, mandou aos bispos que não promovam às ordens sacras a não ser os já aprovados na virtude e bons costumes. Isso já tinha sido estabelecido por antigas prescrições canônicas. Isso se entende principalmente da constatação externa que o bispo deve fazer a respeito da boa conduta de quem vai ser ordenado. Mas, não se põe em dúvida que o Concílio exige e pede tanto a probidade exterior como a interior. Sem a interior, a probidade exterior não passa de um puro engano e fingimento. Por isso admoesta o Concílio: “Saibam os bispos que ninguém deve ser promovido às ordens sacras sem ser digno, e sem que seu procedimento esteja de acordo com a probidade de vida.” Com a mesma intenção de ter provas completas sobre aquele que vai ser ordenado, o Concílio estabeleceu ainda intervalos entre os diversos graus das ordens “para que aumente neles, juntamente com a idade, a maturidade da vida e a abundância do saber.”

Santidade da vida

Quem é ordenado, é destinado ao ministério de servir a Jesus Cristo na Eucaristia: por isso – diz Santo Tomás – a santidade do sacerdote deve ser maior do que a do religioso. Acrescenta ainda que as “ordens sacras” preexigem santidade. A palavra “preexigem” supõe que o jovem deve ser santo já antes de ser ordenado. Indica, então, o santo a diferença entre a vocação religiosa e a vocação de quem recebe as ordens sacras. Na vida religiosa se purificam os vícios, mas querendo alguém receber as ordens sacras, é preciso que se encontre já purificado por meio de uma vida santa. Explicando esse mesmo pensamento, diz ainda Santo Tomás: “Como os que recebem as ordens sacras são colocados acima do povo, assim devem eles estar acima pelo mérito da santidade.” O santo exige essa santidade de vida antes da ordenação, porque a julga necessária não só para que se possa exercer dignamente as ordens sacras, mas também para que se possa contar dignamente entre os ministros de Cristo. Finalmente conclui: “Na ordenação lhes é concedida maior abundância de graça para que, por meio dela, possam tornar-se idôneos para as coisas maiores.”

Notemos a expressão “para coisas maiores”. Santo Tomás declara que a graça do sacramento, que depois se confere, não será inútil, mas dará ao ordenado maiores auxílios para que se torne capaz de conquistar maiores méritos. Mas exprime que no ordenando se requer a graça precedente, suficiente para torná-lo digno de ser contado entre os membros do povo de Cristo.

Boa conduta

Sobre esse assunto, escrevi [Sto. Afonso, Teologia Morale, I. 6, c. 2, ex num. 63] uma longa exposição provando que se alguém recebe uma ordem sacra sem a experiência de uma vida exemplar, não pode se isentar de uma grave culpa. Isso porque abraça um estado de vida sem a vocação de Deus. Não se pode dizer chamado por Deus quem se ordena sem estar livre de todo o vício habitual, especialmente contra a castidade. Embora possa receber o sacramento da Penitência, por estar preparado através do arrependimento, em tal estado ainda não está capacitado para receber as ordens sacras. Além disso, é necessária já antes a boa conduta, comprovada com a experiência há mais tempo.

Não pode, igualmente, se isentar de pecado mortal quem, por grande presunção, assume os sagrados ministérios sem a devida vocação. Grande perigo de condenação corre em semelhante caso, ao se expor assim. “Quem conscientemente, sem ter em conta a vocação de Deus” – como o faz um habituando a qualquer vício – “entra como intruso no sacerdócio, coloca-se em evidente perigo de condenação.”

Falando sobre o sacramento da ordem, Soto afirma: “Embora a boa conduta não seja da essência do sacramento, ela é absolutamente necessária por preceito divino ... Tal idoneidade de costumes não se identifica com a disposição geral exigida na recepção de qualquer sacramento para que a graça não encontre obstáculo. O homem que abraça o sacerdócio não só recebe a graça, mas abraça um estado de vida mais sublime. Exige-se, pois, dele a honestidade de vida e o brilho das virtudes.” O mesmo afirmaram Tomás Sanchez, P. Holsman, e os Salmanticenses.

O que acabo de escrever não é opinião de algum doutor particular, mas opinião comum: todos se fundamentam na doutrina exposta por Santo Tomás.

Um comentário:

Felipe disse...

Caríssimo Professor, Salve Maria!

Antes de mais nada, estimo melhoras do probleminha que o senhor teve recentemente. Saiba que, mesmo sem me manifestar na ocasião, aqui em casa não deixamos de rezar pelo restabelecimento do senhor.

Escrevo para trazer à sua atenção um texto teológico muito profundamente estudado (pasmem, no site Montfort, a meu parecer geralmente desastrado quando se aventura para além do feijão com arroz da apologética, campo porém em que faz grande bem!), sobre exatamente esta questão, que talvez o senhor desconheça:

O verdadeiro significado da vocação sacerdotal

Com efeito, desde Santo Afonso, a Teologia e, com ela, o Sagrado Magistério precisaram bastante essa questão da vocação, e convém levar em conta esses desenvolvimentos, sobretudo sob São Pio X, quando o Padre Lahitton escreveu o tratado definitivo sobre o tema.

Noto, ainda, que esse texto que estou recomendando talvez seja um tanto desnecessariamente polêmico (porém jamais impreciso) nalguns pontos, mas, por razões didáticas, é sempre conveniente frisar bem as diferenças, sim? Claro que, num segundo momento, após entender bem a questão, convém também (coisa que, é pena, o autor monfortiano não faz) voltar aos autores clássicos para conciliá-los com a doutrina posteriormente melhor desenvolvida e mostrar assim como suas expressões talvez possam ser suscetíveis de serem entendidas benevolenter.

Assim, por exemplo, nota-se que "vocação" é usada em sentido lato no texto transcrito pelo senhor, de Santo Afonso, para significar aquilo que, com maior precisão, a teologia posterior chama de mera "idoneidade" ao sacerdócio.

De todo o modo, ninguém duvida, nem Santo Afonso nem qualquer autor sério (ao menos não antes da segunda metade do século XX...), que vocação em sentido estrito é tão-só e exclusivamente o chamado feito por um bispo regularmente pertencente à Sagrada Hierarquia da Igreja.

Enfim, espero que essas apressadas observações e, sobretudo, essa indicação de leitura sejam úteis ao senhor e seus leitores, para esclarecer bem esse ponto de doutrina católica atualmente tão obscurecido mesmo entre bons católicos tradicionais.

Um forte abraço,
Em JMJ,
Felipe Coelho