quarta-feira, junho 10, 2009

Festa do Sacratíssimo Corpo de Deus: Omnes in Christo unum

Meu Missal Quotidiano Tridentino ensina o seguinte desta extraordinária festa.

A festividade do Corpo de Deus é a solene comemoração da instituição do Santíssimo Sacramento do Altar. Agradecemos e louvamos neste dia o amor de Jesus pelo dom inefável da Eucaristia. Propriamente é a Quinta-feira Santa o dia da instituição, mas a lembrança da Paixão e Morte do Salvador não permite expansões de alegria. A Santa Missa, composta pelo insigne teólogo e poeta, Santo Tomás de Aquino, é uma explicação das palavras da Seqüência – Panis vivus et vitalis – Pão vivo que dá a vida. Dela fazem parte os trechos mais importantes da Sagrada Escritura sobre a Eucaristia (Epístola e Evangelho). No Intróito, agradecemos pelo alimento do céu, a Eucaristia. Ela é para nós ‘flor de trigo’ e ‘mel do rochedo’, isto é, o Cristo, a lembrança de sua Paixão e de seu amor (Oratio). Celebrando a santa Missa, anunciamos a morte do Cristo. E sob este aspecto, a Eucaristia é um verdadeiro Sacrifício (Epístola) e alimento sobrenatural (Graduale, Evangelho), símbolo da união e paz entre os fiéis (Secreta), e penhor da união com Deus (Communio). ‘Omnes in Christo unum’, Todos somos um só (Corpo Místico) em Jesus Cristo ”.

Pois é, esta santa Missa foi composta por Santo Tomás de Aquino que “é acusado de ter tornado o estado de beatitude demasiado intelectual, concebendo-o com a satisfação do amor da verdade em vez de, especialmente, como a verdade do amor” como diz Chesterton na fenomenal biografia do santo. Assim, este santo demasiadamente intelectual compôs da Missa de Corpus Chrsti, cuja Sequentia é uma poesia nada intelectual. Vejamos o que Chesterton, na biografia citada, fala deste fato.

Toda santidade é segredo; e sua sagrada poesia era na verdade uma secreção, tal como a pérola numa ostra hermeticamente fechada. Tomás pode ter escrito mais poesia do que sabemos, mas parte dela veio a público graças à circunstância particular de lhe terem pedido para compor o ofício para a festa de Corpus Christi: um festival estabelecido primeiramente após a controvérsia para a qual ele contribuíra nos papéis que deixara no altar.[1] Isso certamente revela um lado inteiramente distinto de seu gênio, e sem dúvida era genial. Tomás costumava ser um escritor de prosa eminentemente prático, alguns diriam até um escritor de prosa bastante prosaico. Ele sustentava controvérsias voltado apenas para duas qualidades: a clareza e a cortesia. E as mantinha porque elas eram qualidades inteiramente práticas que afetavam as probabilidades da conversão. Mas o compositor do serviço de Corpus Christi não era somente aquilo que mesmo os bárbaros ou obtusos chamariam de poeta – era o que os mais tediosos chamariam de artista. Sua dupla função lembra antes a dupla atividade de alguma grande artesão da Renascença como Michelângelo ou Leonardo da Vinci, que trabalhavam na parede exterior, planejando e construindo as fortificações da cidade, e depois se retiravam para a câmara interior a fim de esculpir ou modelar algum cálice ou caixinha como um relicário. O ofício de Corpus Christi é como algum antigo instrumento musical, estranha e cuidadosamente repleto de muitas pedras e metais coloridos. O autor reuniu alguns textos remotos sobre pastorear e fruir como se colhem ervas raras: há um notável falta do estridente e óbvio na harmonia; e o todo é tocado com dois fortes versos em latim. O padre John O’Connor traduziu-os como uma competência quase milaculosa; mas um bom tradutor será o primeiro a concordar que nenhuma tradução é boa, ou, de qualquer maneira, boa o suficiente. Como vamos encontrar oito palavras inglesas curtas que de fato representem ‘Sumit unus, sumunt Mille; quantum isti, tantum ille’?[2] Como alguém de fato poderá traduzir o som do ‘Pange Lingua’, quando já a primeira sílaba ressoa como o toque de címbalos?

Vamos então à Sequetia, para conhecermos o aquinate poeta. Note que mesmo o aquinate poeta é sempre o grande mestre de sempre, nos ensinado as coisas mais elevadas. Apresento aqui a tradução de meu Missal.

Sião, louva o Salvador,
Louva o teu guia e pastor,
Nos teus hinos, nos teus cantos.

Tanto podes, tanto ouses.
Em louvá-lo não repouses:
Sempre excede o teu louvor.

Louva o tema especial:
O pão vivo, o pão vital,
Que hoje te é proposto.

O qual da ceia na mesa,
Foi dado, temos certeza,
À turba dos doze irmãos.

Seja pleno, seja forte,
Sonoro no seu transporte,
O eterno louvor da mente.

É hoje a solene festa,
Que nos recorda o que atesta
A sagrada instituição.

Na mesa do Novo Rei,
A Páscoa da nova lei
Põe um fim à fase antiga.

A sombra foge à verdade.
A velhice, à novidade,
A luz elimina a noite.

O que o Cristo faz na ceia,
Manda à turba que O rodeia
Fazê-lo em sua memória.

Herdeiros da tradição,
A hóstia da salvação,
Pão e vinho, consagramos.

Dado é um dogma ao Cristão:
Em carne se muda o pão.
O vinho se muda em sangue.

Aquilo que tu não vês,
Pela fé, que o afirma, crês,
Superando a natureza.

Sob espécies diferentes,
Sinais apenas, latentes
Se ocultam coisas exímias.

Alimento verdadeiro,
Permanece o Cristo inteiro,
Quer no vinho, quer no pão.

Não o parte que celebra,
Não o rompe quem o quebra,
Mas inteiro é recebido.

Um come. Mil comem dele.
Quanto estes, tanto ele.
Nem comido se consome.

Comungam, justo e perverso,
Mas seu destino é diverso,
Pois recebem vida e morte.

Morte do mau; do bom a vida;
Vê como a mesma comida
Produz efeitos contrários:

Se é partido o sacramento,
Não vaciles um momento:
Tanto está no fragmento,
Como no todo encerrado.

O corpo não é partido;
Só o símbolo é rompido.
Mas não é diminuído,
Nem se muda o que contém.

Eis o pão que os Anjos comem,
Transformado em pão do homem;
Os filhos o consomem:
Não seja lançado aos cães.

Em tipos prefigurado,
Foi em Issac imolado;
No Cordeiro aos pais foi dado
E, no deserto, em maná.

Bom Pastor, pão de verdade
Piedade, Jesus, piedade
Guardai-nos na caridade,
Transportai-vos à cidade,
Onde os vivos Vos contemplam.

Vós que a tudo sustentas,
Que aos homens apascentais,
Fazei a nós comensais,
Co-herdeiros imortais,
Dos santos concidadãos.

Amem. Aleluia.

Para terminar, no Evangelho (Jo 6, 56-59), Jesus nos diz: “Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue, permanece em mim e eu nele.”

Que Deus nos dê um bom dia de Corpus Christi.

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[1] Na mesma biografia lemos: “Quando de sua estada em Paris, os outros doutores da Sorbonne apresentaram-lhe um problema sobre a natureza da mudança mística nos elementos do Sagrado Sacramento, e ele escreveu, à sua maneira habitual, um texto muito cuidadoso e elaboradamente lúcido sobre sua própria solução. Não é preciso dizer que Tomás sentiu como extrema simplicidade a pesada responsabilidade e gravidade de semelhante decisão judicial; e, não sem naturalidade, parece ter se preocupado com isso mais do que costumava se preocupar com seu trabalho. Ele buscou orientação numa oração e numa intercessão que se prolongaram por um tempo maior do que o costumeiro; e finalmente, com um daqueles poucos mas notáveis gestos corporais que marcam as reviravoltas de sua vida, depositou sua tese aos pés do crucifixo no altar e a deixou ali, como se esperasse um julgamento. E, voltando-se, desceu os degraus do altar e mergulhou outra vez em oração; mas os outros frades, dizem, estavam observando, e ainda bem que o fizeram. Porque declararam depois que a figura de Cristo descera da cruz diante de seus olhos mortais e, de pé sobre o texto, disse: ‘Tomás, você escreveu bem quanto ao sacramento de meu corpo’. Dizem que foi depois dessa visão que aconteceu o incidente de suas milagrosa elevação no ar.”

[2] Meu Missal traduz assim: “Um come, mil comem dele; quanto estes, tanto ele”.

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