terça-feira, maio 01, 2007

Ratzinger defende Bento XVI

Nota: Entro atrasadíssimo na discussão do suposto elogio a Marx, feito por Bento XVI. Primeiro, porque muita gente muito mais competente que eu já opinou sobre o assunto. Segundo, porque quase tudo já foi dito. Contudo, ninguém deixou o Cardeal Ratzinger falar a favor do papa, pelo menos que eu tenha visto. É o que eu pretendo fazer agora: deixar um defender o outro.

Ratizinger, de quebra, faz uma firme crítica à teologia da libertação. Aquela professada por D. Pedro Casaldaliga, a quem o Prof. Aquino dura e corretamente criticou, recentemente.

O excerto abaixo foi extraído do livro do Cardeal Ratzinger intitulado “Introdução ao Cristianismo”, escrito na década de 1960 e reeditado já em 2000. Tenho uma edição das Edições Loyola que contém um prefácio especial do cardeal para recolocar a obra no contexto do século XXI. É deste prefácio que extraio o trecho abaixo. Os negritos são meus.


Durante mais de uma década, a teologia da libertação parecia indicar a nova direção na qual a fé haveria de tornar-se novamente formadora do mundo porque se unia de uma nova maneira com as descobertas e injunções do momento histórico. Não se pode negar que havia na América Latina em grau assustador problemas como a opressão, dominação injusta, concentração de propriedade e poder nas mãos de poucos e exploração dos pobres, nem havia como negar a necessidade de ação. E como se tratasse de países com maioria católica não podia haver dúvidas de que a Igreja tinha responsabilidades a cumprir e que a fé precisava comprovar a sua eficácia como elemento de justiça. Mas de que maneira? Pareceu então ser Marx o grande guia. Cabia agora a ele o papel que, no século XIII, tinha sido de Aristóteles; a sua filosofia pré-cristã (e portanto “pagã”) precisou ser batizada para que a fé e a razão pudessem encontrar a sua relação correta. Mas quem aceita Marx (em qualquer uma das variantes neomarxistas) como o representante de uma razão universal não adota simplesmente uma filosofia, uma visão da origem e do sentido da existência, assume sobretudo uma prática. Porque essa “filosofia” é essencialmente uma “práxis” que cria verdade, em vez de pressupô-la. Quem faz de Marx o filósofo da teologia aceita a primazia dos elementos político e econômico que passam a ser as verdadeiras forças da salvação (e quando mal empregados, as forças da desgraça): nessa perspectiva, a salvação do ser humano é realizada pela política e pela economia que determinam a face do futuro. A supremacia da práxis e da política significa sobretudo que Deus não é visto como “prático”. A “realidade” a ser considerada era somente a realidade material dos dados históricos que precisava ser compreendida e refundida com os recursos adequados, entre os quais era indispensável também a violência. Nessa perspectiva, falar de Deus não fazia parte nem da prática nem da realidade. Era um discurso que devia ser adiado, pelo menos, até que o mais importante estivesse realizado. O que ficou foi a figura de Jesus, só que este já não era visto com o Cristo e sim como a personificação dos sofredores e oprimidos e com a voz deles que clama por mudança, pela grande modificação. O que havia de novo em tudo isso era o programa de mudar o mundo que, em Marx, não é concebido apenas como ateísta, mas também como anti-religioso, e que agora era recheado de paixão religiosa e assentado em bases religiosas: numa nova leitura da Bíblia (sobretudo do Antigo Testamento) e numa liturgia que era celebrada como antecipação simbólica da revolução e com preparação para ela.

É preciso admiti-lo: com essa síntese estranha, o cristianismo voltara a se mostrar à opinião pública mundial com uma mensagem que “marcou época”. Não surpreende que os países socialistas recebessem o movimento com simpatia. O que causa maior estranheza é que a teologia da libertação tenha-se transformado na coqueluche da opinião pública mesmo nos países “capitalistas”, a ponto de qualquer objeção ser encarada como um verdadeiro atentado contra o humanitarismo e a humanidade, naturalmente com a ressalva de que ninguém queria ver aplicadas as instruções práticas em sua própria esfera, em que se imaginava já ter atingido uma ordem social justa. É inegável que nas diversas teologias de libertação havia também um grande número de percepções dignas de consideração. Mas todos esses projetos tiveram que renunciar à sua imagem de síntese histórica entre o cristianismo e o mundo no momento em que desmoronou a fé na política como força salvítica. É verdade que o ser humano é um “ser político”, como disse Aristóteles, só que ele não pode ser reduzido à política e à economia. Vejo o problema verdadeiro e mais profundo das teologias da libertação na ausência de fato da idéia de Deus, o que acabou afetando naturalmente de modo decisivo também a figura de Cristo (fato ao qual já aludimos anteriormente). Não que se tenha negado a existência de Deus – de modo algum. Ele apenas era dispensável na “realidade” que exigia toda a atenção. Carecia de função.

6 comentários:

Pedro disse...

Caro Antonio,

Cada vez me surpreendo mais com o Orkut, no qual entrei há pouco tempo. Depois de ver as piadas de Leilah, a comunidade 'Tirem da Reta Já- protegendo a integridade do traseiro pátrio', de me inteirar nos assuntos dos 'Olavetes de Chevette' e de acessar o estupendo tópico 'O que é o Céu', da comunidade Flor de Obsessão...estou maravilhado. Encontrei lá o David, que pelo jeito é um companheiro seu na tradução de textos importantes. Não sei se o conhecia, mas dê uma olhada no seu blog.

O Direitista disse...

Caro Antonio,

vc indica algum material para leitura sobre a teologia da libertação na Igreja Católica no Brasil? Especialmente sobre sua influência ainda hoje?

Algumas coisas se tornaram tão óbvias para mim que já não sei mais argumentar com quem me diz que a teologia da libertação foi morta e enterrada pelos últimos dois papas...

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro disse...

direitista,

Leia esse livro. Leia todo. Nele está explicada cuidadosamente a invasão e a infiltração da Nova Teologia (origem da TL) nas Ordens e na Igreja, através, principalmente, do Concílio Vaticano II.

Antonio Emilio Angueth de Araujo disse...

Caro Filipe,

Sobre a Teologia da Libertação você pode consultar alguns livros, para entender como ela se tornou teologia e qual é a libertação que ela oferece.

Aqui vão os links:

A nova teologia

Do liberalismo à apostasia

Carta aberta aos católicos perplexos

No site da Montfort, você pode fazer uma procura por Teologia da Libertação que você achará muito material bom.

A Teologia da Libertação está intimamente relacionada ao Concílio Vaticano II e ao modernismo denunciado pelo Papa e Santo Pio X em sua encíclica Pascendi.

Um abraço. Antônio Emílio.

O Direitista disse...

Obrigado pelas indicações...