quarta-feira, setembro 04, 2019

Diário de um velho professor

Certa vez, fui abordado por um aluno da universidade com uma dúvida. Estava saindo de meu gabinete para ir não sei onde. Pensei que a dúvida se referia a alguma disciplina que lecionava então. Fitei o rosto do aluno para associá-lo às disciplinas que lecionava no momento. O rosto me era familiar, sabia-o aluno do curso. Com certa pressa pedi-lhe que me acompanhasse no corredor e me formulasse sua dúvida. 

Ele, candidamente, me perguntou: professor, o que é livre-arbítrio? Como eu lecionasse engenharia, parei imediatamente de caminhar e me encostei na parede e me pus a pensar a razão da pergunta. Concluí, numa fração de segundo, que ele certamente conhecia a outra faceta daquele velho professor; talvez fosse leitor do blog católico que eu mantinha. Respondi-lhe simplesmente o seguinte: livre-arbítrio é a liberdade que Deus nos deu de não acreditar n'Ele, de recusá-l'O. 

Essa resposta nasceu sem considerações teológicas e filosóficas; nasceu, por assim dizer, de meu coração. Não procurei apoio dos Padres da Igreja, nem em, por exemplo, Santo Tomás de Aquino. E confesso que até hoje não procurei.

Sei que o conceito tem repercussões em muitas áreas do conhecimento, mas não consigo me desvencilhar da idéia de que a liberdade de refutarmos Deus é o que nos dá dignidade de aceitá-l'O. Faz-nos suportar, segundo Bernanos, “assustadora presença do divino” em nossas vidas. 

Não aceitarmos o livre-arbítrio como graça de Deus é cair no erro de tantos, como o de Lutero. É nos colocar impotentemente diante de um deus perverso, que tanto pode nos levar ao bem quanto ao mal. Negar o livre-arbítrio é uma posição anti-metafíca. É a negação do ser. 

Toda a nossa salvação, toda a bem-aventurança que nos aguarda, depende de um sim da nossa vontade. Este sim é o sim às graças de Nosso Senhor, mas é um sim à Sua Cruz. Se não fôssemos livres para dizer este sim, não haveria nele nenhum mérito e ele não mereceria nenhuma recompensa.





sexta-feira, agosto 16, 2019

Et sine dolore non vivitur in amore!


Na sua extraordinária biografia de Santa Margarida Maria Alacoque (Histoire de la bienheureuse Marguerite-Marie : et des origines de la devotion au coeur de Jésus), Revmo. Pe. Émile Bougaud, Bispo de Laval, descrevendo as várias formas em que o Sacratíssimo Coração de Jesus aparecia à Santa Margarida, ele observa que muitas vezes o Sagrado Coração aparecia rodeado de uma corôa de espinhos ou traspassado por flechas. Depois de citar uma passagem da Imitação de Cristo (Et sine dolore non vivitur in amore!, E sem dor não há amor.), ele acrescentar uma bela e profunda página de meditação sobre nossa condição de queda, "nessa triste terra". O trecho encerra um grande mistério de nossa Santa Religião. Esclarece também o que vemos na vida dos santos: um sofrimento atroz, às vezes auto-imposto, convivendo com uma alegria contagiante. Ei-lo.

Coisa admirável! Há no coração dois pólos: aquele pelo qual desfrutamos e aquele pelo qual sofremos. Desses dois pólos, um é feito para durar para sempre, que levaremos conosco para a eternidade; é aquele pelo qual desfrutamos. Mas quem nele acreditaria? Aqui embaixo, sobre esta triste terra, raramente o usamos. Ele é perigoso; não é nem grande nem fecundo. Se vós aspireis à glória, ao gênio, à santidade, deixais de lado esse pólo do coração, esse pólo divino, esse pólo celeste, pelo qual se desfruta. Sua hora ainda não chegou. Ele não realiza aqui embaixo senão coisas vulgares. A corôa de louros sempre repousou sobre frontes mortificadas, e a auréola de santidade nunca circundou senão corações crucificados. Que belas são então essas visões do Coração ferido, do Coração perfurado, de um Coração coroado e sangrando!

terça-feira, março 19, 2019

São José, rogai por nós!

Escrevi, no passado, três posts sobre São José. Deixo aqui os links para os interessados.

http://angueth.blogspot.com/2010/06/sao-jose-rogai-por-nos.html

http://angueth.blogspot.com/2011/03/vida-de-sao-jose.html

http://angueth.blogspot.com/2009/03/19-de-marco-dia-de-sao-jose.html

quarta-feira, janeiro 23, 2019

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte VII

Para ler a parte I, clique aqui. Para ler a parte II, clique aqui. Para ler a parte III, clique aqui. Para ler a parte IV, clique aqui. Para ler a parte V, clique aqui. Para ler a parte VI, clique aqui.


VII – Do antigo Magistério ao novo e a unidade das heresias

32. Na Suma Teológica, a dispersão do um no múltiplo, no que concerne à verdade, é bem delimitado e reconhecido: “Por onde devemos dizer, que o objeto da infidelidade é a verdade primeira, como aquilo de que ela se afasta; mas o seu objeto formal, como aquilo para o que se converte; é a ciência falsa que ela segue, e por este lado se lhe diversificam as espécies. Portanto, assim como a caridade é uma só, a que se une ao sumo bem; mas diversos os vícios a ela opostos não só por buscarem bens temporais diversos, afastando-se do sumo bem, mas, além disso, por causa das relações diversas desordenadas, para com Deus; assim também é a fé uma virtude só, por unir-se à verdade primeira única, ao passo que as espécies de infidelidade são muitas, por seguirem os infiéis opiniões falsas diversas” (S. Th IIa IIae Q.10, Art. 5, ad.1).

33. Mas hoje, aqueles que negam os artigos da fé professados nas manhãs de domingo não se acusam mais em confissão! Ontem havia os arianos, os donatistas, os sabelianos; em seguida os luteranos, os calvinistas, os valdenses. Hoje, os hereges permanecem católicos (como os católicos) porque não há mais o temor da contradição, o pudor de distinguir as coisas católicas das não católicas. A contradição é uma coisa profunda; é mesmo a coisa mais profunda do ser. O princípio da contradição é um dos primeiros princípios, e é a coisa mais profunda do ser, pois está na relação mais estreita com o ser. Se o ser é profundo, pois é o primeiro princípio, sua contradição, sua oposição é igualmente profunda. Quando estamos em tal ordem de reflexão, estamos em níveis profundos; não podemos ir mais fundo. Assim, dever-se-ia prestar atenção à contradição, dever-se-ia teme-la, se horrorizar. Hoje em dia, a contradição não aterroriza; vamos ao seu encontro, acolhemo-la, abraçamo-la. Tudo é o seu contrário e os não-católicos são também católicos.

34. Santo Agostinho distingue três conceitos no ato da fé: “credere Deo, credere Deum, credere in Deum”. Em relação a esses três aspectos do ato da fé cristã, como se situam, hoje, os teólogos que controlam a opinião geral? Parece-me que o conceito que se desvanece é aquele de Deus como coisa crida, credere Deum, isto é, que Deus, como matéria de fé, se dissolve. Ao contrário, mesmo os teólogos modernos sustentam o crer em Deus, isto é, confiar-se, por um movimento do espírito, à vontade de Deus. Portanto, aqui o aspecto confiante da fé sobrevive, conceito este mais próximo da ideia que os luteranos têm da fé “crendo nos aproximamos de Deus”, como diz Santo Tomás de Aquino na Suma (S. Th. II-II, Q.2, a.2) “da fé se encarrega a caridade”[1]. Mas se não creio Deus, não posso crer em Deus. De fato, se não creio na existência de Deus, tal qual anunciado no símbolo Niceo-Constantinopolitano, como poderia crer na força de sua Autoridade?

35. A decadência da Autoridade superior, na qual entretanto todos devem crer, tem conduzido ao deslocamento da autoridade didática da Igreja que, da Hierarquia do Magistério, é transferida à massa dos teólogos. É a dissolução da Autoridade, pois crendo-a a fé é especificada, já que o motivo da fé é “crer no que Deus disse”. De fato, se duvidamos da existência providencial da Autoridade, não poderemos crer que as Sagradas Escrituras nela se originam. E, de fato, hoje em dia as Sagradas Escrituras são lidas como um gênero literário, análogas àquelas das tradições islâmicas, hinduístas, judias, que não são mais que tradições humanas. Deus não são delas a causa; no máximo, seu fruto, sua consequência. Todos os teólogos creem o que eles creem unicamente em relação ao que suas argumentações ou suas opiniões autorizam a crer: aí está toda sua autoridade. Não é mais a autoridade sobrenatural que se revela e que leva a crer além da razão, mas uma autoridade argumentativa, ponderada, cientificamente demonstrável.

36. Uma questão na Suma de Santo Tomás (S. Th. IIa IIae, q.5, a.3) pergunta se um herege, que nega um artigo da fé, pode ter uma fé esclarecida sobre os outros artigos. A resposta é negativa, pois os artigos da fé são cridos, pois que revelados por Deus e o homem não pode discernir um artigo do outro e não pode rejeitar um e aceitar os outros, pois se ele assim procede, ele já renegou o princípio da fé: todos os artigos da fé são cridos, “pois que revelados”. Se se exclui um, pretende-se que este não é revelado e o princípio geral da fé, que não está em nós, mas fora de nós, é lesado. Santo Tomás ensina constantemente que a causa formal da fé é precisamente a veracidade de Deus.

37. Hoje o homem deseja crer somente naquilo que compreende: a fé lança aqui suas raízes nos homens e os arrebata para onde eles devem estar, em Deus, em Jesus Cristo, no Verbo revelador, como lembra o Apóstolo: “Se te vanglorias, fica sabendo que não és tu que sustenta a raiz, mas a raiz a ti” (Rom. 11, 18). Geralmente a significação do ato de fé é negligenciado. “Crer” parece ser uma atitude psicológica arbitrária. De fato, “crer” supõe a imolação do princípio supremo do homem: não poderíamos fazer maior sacrifício. Sacrificar os sentidos é certamente meritório, mas sacrificar a inteligência, que é a parte mais elevada do homem, isto é uma ação quase inacreditável: somente se pode realiza-la por força da graça.

38. A arrogância da razão privada se manifesta na pretensão de escolher: “Nesta coisa eu não creio, pois ela não parece nem razoável nem possível, naquela outra, ao contrário, eu creio porque a considero razoável e possível”. O herege se explica, como cada palavra, pela etimologia. “Heresia” é uma palavra de origem grega, airùmai, que significa “eu tomo”. A heresia é uma “eleição” das coisas a crer. Essa eleição se faz sobre a base do critério individual, enquanto que os artigos da fé são todos cridos porque revelados, e isto é tudo!

39. O papel da teologia é de esclarecer e de bem articular o que nós cremos. Por exemplo, se cremos na Imaculada Conceição, a teologia deve explicar o conceito de “concepção”, ela deve, assim, trazer uma variedade de esclarecimentos sobre todas as partes do dogma para que ele seja revelado na sua totalidade e na sua profundidade. Ao contrário, os teólogos novidadeiros, aqueles da nova evangelização, se fundamentam no princípio de que o que cremos deve ser inteligível, deve ser racional, e para procurar esse elemento de inteligibilidade, eles negam a substância da fé. De fato, pretender compreender alguma coisa sobre o dogma da Imaculada Conceição é uma heresia. Compreender alguma coisa, que é de si sobre-inteligível, não é possível. Se você pretende compreendê-la, se pretende resolvê-la, você é um herege: você nega a ordem sobrenatural, nega a ordem da fé.



[1] Não encontrei esta expressão na questão referida. (N. do T.)


sábado, janeiro 19, 2019

Evento do ISPA hoje, com minha participação.


EVENTO INAUGURAL GRATUÍTO DA SEDE DO ISPA!

O Instituto São Pedro de Alcântara te convida a participar do evento inaugural da sua sede física que ocorrerá no dia 19/01. Neste local daremos formações, cursos, palestras voltadas à Doutrina Social da Igreja (DSI) e outros temas.

Compareça e seja parte desse importante movimento de resgate do genuíno catolicismo no Brasil.

ENTRADA FRANCA. Basta preencher o link abaixo que você estará automaticamente cadastrado para o evento.

https://goo.gl/forms/Ou2YIVOBW3zgEO8J2

Viva Cristo Rei!

terça-feira, novembro 27, 2018

Espiritismo: blog entrevista Chesterton


Nota: O senhor Gilbert Keith Chesterton está muito ocupado no momento e não pode conceder uma entrevista ao blog pessoalmente. Vali-me da prestimosa ajuda da senhora Francis, esposa do eminente escritor inglês, que passou-lhe as perguntas. Ele telegrafou diretamente ao responsável pelo blog com suas respostas luminosas. Agradeço de público o auxílio da senhora Francis pela já conhecida atenção com todos que, por um motivo ou outro, procuram orientações do gênio inglês. Lembro-me com carinho e saudade dos deliciosos chás por ela preparados em outras oportunidades em que me encontrei com o casal em sua residência. Vamos à entrevista.

Blog do Angueth – Penso que para começar, devo perguntar-lhe se o senhor considera o espiritismo uma farsa, uma fraude.

Chesterton – Não, em absoluto. Minha posição é de uma forte objeção ao espiritismo, não porque ele seja fraudulento, mas porque ele é genuíno.

Blog do Angueth Senhor Chesterton, não sei se o senhor sabe, mas o espiritismo é muito popular no Brasil. Aqui a situação é, talvez, um pouco diferente, pois há um sincretismo do espiritismo, digamos, inglês, com os cultos africanos. Um famoso escritor brasileiro, Lima Barreto, muito ligado, por sua origem, aos extratos mais pobres da sociedade, fez, recentemente uma observação, sobre a qual gostaria de colher suas observações. Diz nosso escritor: “O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com a divindade; mas o médium, o feiticeiro, o macumbeiro, se não a recebem em seus transes, recebem, entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria.”

Chesterton – A marca especial do mundo moderno não é que ele seja cético, mas que ele é dogmático sem saber. Ele diz, escarnecendo dos antigos devotos, que eles acreditavam sem saber porque acreditavam. Mas os modernos acreditam sem saber no que acreditam – e sem nem mesmo saber que eles realmente acreditam. Eles sempre têm um dogma inconsciente; e um dogma inconsciente é a definição de um preconceito. Os espíritas agem segundo um dogma, que não podem declarar dogmaticamente e, portanto, somente o assumem dogmaticamente. O que o espírita assume é praticamente o seguinte: não somente a existência de espíritos, mas a inexistência de espíritos maus. Em termos populares, os espíritas são otimistas em relação ao mundo espiritual. A objeção real ao espiritismo é quase idêntica à sua afirmação. A objeção é que ele coloca um homem sobre o controle de forças espirituais, ou que ele o coloca em contato com o desconhecido. Ele supõe a rendição espiritual do médium, o que é dúbio, mesmo que a influência seja boa, e chocante, se ela for má. Ora, não é certamente auto-evidente, por tudo que sabemos, que ela não possa ser má.

Blog do Angueth – Sabemos que na Inglaterra o grande apóstolo do espiritismo é Sir Arthur Conan Doyle, o grande criador de Sherlock Holmes. Sua influência é extraordinária na popularização do espiritismo. Sabemos também que ele faz uma distinção entre um espiritismo superior, o que ele professa, e um inferior, aquele dos fenômenos materiais mais grosseiros que acontecem em sessões espíritas: mesas e objetos se movendo. Sendo o senhor um grande admirador de histórias de detetives, tendo mesmo escrito as extraordinárias aventuras do Pe. Brown, o que o senhor tem a dizer-nos sobre Sir Doyle.

Chesterton – O sucesso literário merecido de Sir Arthur Conan Doyle o faz, de fato, o grande apóstolo do espiritismo. Explico minha discordância de suas ideias. Ele concorda com os protestos contra os truques grotescos e mesmo degradantes das sessões espíritas. Ele diz que mesas e cadeiras dançantes pertencem ao “plano inferior”; que este não é seu interesse principal; que ele deseja aproximar-se do espiritismo reverentemente, de considera-lo uma religião que pode nos fornecer respostas aos grandes mistérios da vida e da morte. Penso que essa distinção é muito valiosa quando completamente invertida. Uma cadeira ou mesa que voa parece-me uma coisa genuinamente interessante. Tomemos, por exemplo, qualquer mente racional de cem anos atrás, digamos aquela de Voltaire ou Gibbon, que teria considerado uma mesa voadora não tanto meramente sobrenatural, mas simplesmente impossível. Se é possível, algo sempre considerado uma lei da natureza é quebrado. O materialismo, com todas as suas leis mecânicas da natureza está acabado. Em resumo, uma mesa dançante não pode ser considerada um incidente comum; e se ela ocorre (como parece ocorrer), é um incidente muito importante. Sou completamente incapaz de ver que uma mesa dançante, ou uma religião numa mesa dançante, seja mais convincente do que uma religião de uma mesa mais repousante e possivelmente mais útil. As coisas que reverencio, no céu e na terra, são certas virtudes ou valores; e uma mesa não indica que ela possua essas virtudes simplesmente por levantar suas pernas. A isto o espírita responderá que ele não me pede para reverenciar a mesa, mas as revelações que vêm da mesa. E, ignorante como sou de tais revelações, sei o suficiente delas para não reverenciá-las, ou mesmo respeitá-las.

Blog do Angueth – Sei que há duas objeções que são colocadas às suas posições sobre o espiritismo. A primeira é que o senhor admitidamente nunca participou de uma sessão espírita e, portanto, não tem autoridade de emitir opiniões a respeito. Esta é, inclusive, a posição do próprio Sir Arthur Conan Doyle. A segunda objeção, derivada a primeira, é a de que o senhor ignora o valor da comunicação entre este mundo e o outro. Como o senhor responderia a essas duas objeções?

Chesterton – Quanto à primeira objeção, é verdade que nunca participei de uma sessão espírita, mas há muitas coisas que não presenciei, sobre as quais não tenho a mais mínima intenção de parar de falar. Recuso-me de parar de falar sobre o Cerco de Tróia. Recuso-me a ficar mudo em relação à Revolução Francesa. Não me silenciarei sobre o assassinato de Júlio César. Se ninguém tem o direito de julgar o espiritismo exceto um homem que já participou de uma sessão espírita, os resultados, logicamente falando, são muito sérios: quase pareceria que ninguém tivesse nenhum direito de julgar o cristianismo se não participasse se sua primeira reunião em Pentecostes. O que seria temerário. Considero-me capaz de formar minha opinião sobre o espiritismo sem ter visto espíritos, da mesma forma que formo minha opinião sobre a Guerra Japonesa sem tê-la visto, ou minha opinião sobre os milionários americanos sem (graças a Deus) ter visto um milionário americano. Bem-aventurados aqueles que não viram e acreditaram: uma passagem que alguns têm considerado uma profecia do moderno jornalismo. Respondo à segunda objeção, dizendo que eu não ignoro o valor da comunicação entre este mundo e o outro. Digo apenas que um princípio diferente liga a investigação nesse campo espiritual, em relação à investigação de qualquer outro campo. Se um homem põe uma isca no anzol para pegar um peixe, o peixe virá, mesmo se ele declara não acreditar em peixes. Se um homem faz uma arapuca para passarinhos, passarinhos serão pegos, mesmo se ele considera supersticioso acreditar em passarinhos. Mas um homem não pode colocar iscas para almas. Um homem não pode construir arapucas para capturar deuses. Todos a escolas de sábios sempre concordaram que essa última captura depende, de algum modo, da fé de quem captura. Então, a coisa se resume a isto: se você não tem fé nos espíritos, seu apelo é em vão; se você tem, você precisa disto? Se você não acredita, você não pode apelar. Se você acredita, você não apelará.

Obs: Para quem desejar ler outras entrevistas de Chesterton, favor acessar o marcador BLOG ENTREVISTA CHESTERTON

quinta-feira, novembro 22, 2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte VI

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VI – O novo “magistério” pastoral levou à dissolução da crença do povo cristão

28. É-nos possível, com trinta anos de distância,[1] verificar até que ponto o movimento triunfou, uma vez que o povo cristão de hoje crê nos artigos da fé segundo o modo disseminado por esses teólogos. Como isso foi também mencionado em meu último ensaio (Zibaldone), enumerei uma série de dogmas da fé que não são mais cridos pelo povo cristão, justamente porque são rejeitados pela teologia moderna, o que faz com que não se creia mais hoje nos dogmas de acordo com a fórmula de Nicéia. O que crê hoje o povo cristão a respeito do inferno? Crê o que os teólogos debatem no Avvenire[2] ou o que as imponentes emissões da Radio Maria[3] endossam calorosamente. Eles creem que o inferno não existe, ou que se existe, é uma forma de punição que se atenua com o tempo e que, talvez, mesmo Judas não esteja lá, pois no último momento de sua vida sua alma pôde se arrepender. Assim, o inferno está provavelmente vazio – mas São Gregório Magno, numa de suas homilias, dá por certo a danação de Herodes Agrippa (At. 12, 23). “Mas, no mesmo instante, o Anjo do Senhor o atingiu, pois que ele não rendeu glória a Deus e, comido pelos vermes, expirou.

29. O que creem hoje os cristãos sobre o Gênesis? Creem que é um relato simbólico; hoje, todos os cristãos estão de acordo sobre este ponto, destruindo assim um decreto da Pontifícia Comissão Bíblica de 1906, que confirma com autoridade o caráter histórico do relato sagrado do Pentateuco. O que pensam hoje os cristãos da Eucaristia? Que a Eucaristia não é a Presença Real e individual do Corpo de Jesus Cristo, mas a presença real do povo cristão, pois a nova teoria constrói o silogismo seguinte sobre essas semelhanças: no sacramento da Eucaristia o Senhor está presente, mas o Senhor que está presente é misticamente o povo cristão, então, o povo cristão está presente na Eucaristia; a opinião comum hoje admite que a Eucaristia é o sacramento da presença do Senhor, mas o Senhor que está presente é o próprio povo cristão.

30. O que creem hoje os cristãos sobre a predestinação? Aqui nos é necessário assinalar a deformação completa do conceito de predestinação, pois que os teólogos modernos que falam ainda a compreendem como uma previsão das coisas do homem, não como a determinação das coisas do homem por parte de Deus. Esta é uma grave falsificação, pois a predestinação se ocupa de nosso fim último e nosso fim último é a coisa mais importante que há. Se se falsifica o fim último do homem, que resta do homem?

31. Acabamos, então, de ver que a prática que se iniciou depois do Concílio se impôs, virando do avesso as opiniões gerais da cristandade. Depois de trinta anos, podemos apenas constatar o sucesso desta tendência. A fé católica despedaçou-se em mil opiniões sobre os Novissimi (as últimas coisas),[4] em mil opiniões sobre a virgindade de Maria, em mil opiniões sobre a Presença Real na Eucaristia, sobre os sacramentos, sobre a Igreja, sobre o primado de Pedro e mesmo, sobre a Trindade. Não há nenhum artigo do Credo, o Símbolo da fé que professamos a cada domingo na Missa, que não tenha sido despedaçado em uma miríade de opiniões professadas, apesar de e contra a firmeza absoluta dos seus artigos. Assim, o cristão perde a fé porque perde a unidade: não há fé se ela não é UNA. Essa dispersão de opiniões significa a dissolução da fé.




[1] Este ensaio de Romano Amerio foi escrito em 1996. (N. do T.)
[2] Jornal diário fundado em 1968 para difundir as ideias do modernista do Concílio Vaticano II. (N. do T.)
[3] Conjunto internacional de rádios católicas, fundado em 1982. Também modernista até a medula. (N. do T.)

terça-feira, novembro 13, 2018

O deslocamento da função magisterial depois do Concílio Vaticano II, por Romano Amerio - Parte V

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V – O deslocamento do Magistério leva à dissolução da unidade da fé na multiplicidade de opiniões

21. O princípio da autoridade do Soberano Pontífice resulta de que sua palavra é vicarial da Palavra divina, ela exprime a lei moral decorrente da Encarnação do Verbo. As verdades que vibram nas Encíclicas de João Paulo II são as verdades centrais. E acima de todas essas verdades há a verdade fundamental do cristianismo: isto é, que Deus se revela hic et nunc, aqui e não lá, agora e não antes. Contudo, hoje em dia, esta verdade primordial é colocada em dúvida, como lemos na Carta Apostólica Tertio Millennio Adveniente; em seus parágrafos se desenvolve a doutrina que afirma que “o cristianismo é a resposta à aspiração que se eleva de todas as religiões: do budismo, do hinduísmo, do islamismo”. Mas o cristianismo não é uma resposta a essas religiões, (“Não entregues senhor – disse a rainha Ester – o teu cetro àqueles [deuses] que não são nada, para que não escarneçam de nossa ruína”, Est 14,11) porque o cristianismo e a Palavra divina revelada somente ao povo eleito, num tempo determinado, num lugar determinado, como canta o salmo 147,20: “Non fecit taliter omni nationi [Não fez assim a todas as nações]”.

22. Deus, potência absoluta, pode salvar todo homem sem batismo, mas por potência ordenada,[1] não o pode, pois a salvação sem batismo não faz parte do sistema, da economia desejada por Deus. A salvação dos não batizados é excepcional, é extra-sistemática, pois ela não pertence ao sistema que é centrado em Cristo e na concepção trinitária de Deus. Mas quando se diz: o homem se salva sem a graça, sem o batismo, apenas pela virtude de suas obras de homem religioso, bom, piedoso, justo, entra-se no sistema pelagiano. O sistema pelagiano tem merecido bastante atenção da parte dos teólogos modernos, porque o mundo se impregna do espírito pelagiano.

23. A fase final da síntese mostra que a decadência da autoridade do Magistério episcopal, abandonando a autoridade aos teólogos, gira em torno de uma autoridade individual, em torno do desenvolvimento que o Papa dá a suas opiniões privadas, em detrimento da Doutrina universal e da Tradição. Mas há uma outra coisa ainda mais aflitiva; há uma segunda realidade, mais universal, mais impalpável; causada pela demissão do Magistério episcopal, que se estende ao mundo inteiro ante à arrogância de opiniões teológicas as mais disparatadas, as mais variadas e as mais ricas.

24. Opiniões disparatadas, pois chamamos disparatadas o que difere, em alguma coisa, do essencial. Variadas, porque chama-se variada o que difere, em alguma coisa, do acidental. Duas coisas disparatadas são duas coisas de gênero diferente; duas coisas variadas são duas coisas que podem pertencer a um mesmo gênero. O mesmo se aplica às opiniões teológicas que pululam nesses últimos trinta anos, no mundo católico pós-conciliar. Elas diferem da doutrina una e santa porque, quando são do mesmo gênero, elas se distanciam segundo os acidentes. Elas, mais frequentemente, não são do mesmo gênero; isto é, elas não têm a mesma raiz sobrenatural que faz a doutrina católica um unicum. Em terceiro lugar, finalmente, eu digo; opiniões teológicas ricas, no sentido em que os mesmos teólogos falam de riqueza do pensamento teológico quando muitas outras mentalidades se misturam à mentalidade de nossa fé; a mentalidade de fés estrangeiras tais como: protestante, hebraica, budista, islâmica, animista.

25. Fazendo convergir os olhares para essa trilogia de opiniões variadas, disparatadas e ricas, num certo sentido, podemos dizer que hoje a doutrina da fé não é mais uma única. A unidade da Igreja deveria ser essencialmente teórica, doutrinal, pois se trata de coisas do intelecto, se trata da atividade teórica, não de uma unidade de gabinetes ou de indumentária. Ademais, o Santo Padre sustenta que existe uma unidade moral nas diversas religiões, todas ordenadas à salvação, de forma que todas as religiões e todas as culturas são “idealmente” uma só, sem que haja unidade doutrinal. Elas confessam assim que são doutrinariamente disparatadas: é nos detalhes que se encontram as diferenças teóricas.

26. Unidade da fé: cada um entre nós deve ter a certeza a priori de pensar que tudo o que pensam os outros cristãos do mundo, e tudo que pensaram através de todos os séculos, é idêntico ao que se crê. Devo ter a certeza a priori de crer tudo o que crê outro cristão sem verificar o que este outro cristão professa. No meu Iota Unum, falando da infalibilidade, eu disse também que cada cristão, quando anuncia uma verdade da fé, é infalível. Por exemplo: o Santo Padre anunciou infalivelmente que a Virgem Maria é isenta do pecado original, então quando repito o anúncio do Soberano Pontífice, sou infalível, não posso, pois, temer enganar-me. Esta doutrina põe em evidência a univocidade da doutrina da fé: “univocidade” por causa de tantas vozes, de milhões de vozes, de uma miríade de homens, que professam e sempre professaram a única doutrina do Verbo engendrado pelo pensamento do Pai. “Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito, que está no seio do Pai, ele mesmo é que o deu a conhecer.” (Jo 1, 18)

27. A fé que é, por natureza, una e unívoca, se tornou hoje aquela dos carismáticos, que não é aquela dos neocatecúmenos, que não é aquela do cardeal Ratzinger, que não é aquela do cardeal Martini e que não é aquela do Papa. E cada um vai ao rádio, à televisão, escreve nas revistas e livros e dá testemunho de sua fé “particular”. Todos esses testemunhos, todas essas manifestações de fé, têm em comum certa relação com a fé católica; essas são as opiniões em torno da fé católica e dissidentes da fé católica. Podemos ainda dizer que esses teólogos são católicos?
     


[1] (...) dizemos que Deus pode, por potência abso­luta, tudo o que é atribuído ao seu poder, em si mesmo considerado. E isto abrange tudo o que tem natureza de ser, como vimos4. Dizemos, porém, que Deus pode, por potência ordenada o que a esta é atribuído, enquanto executora da ordem da vontade justa. Por onde, devemos con­cluir, que, pela potência absoluta, Deus pode fazer coisas diversas das que previu e preordenou que haveria de fazer. Não é possível, porém, faça coisas diversas das que previu e predeterminou que haveria de fazer. Pois, o seu próprio fazer está sujeito à presciência e à preordenação; não porém o seu poder, que lhe é natural. Por onde, Deus faz o que quer; po­rém, o que pode não é porque o queira, mas, porque está na sua natureza. (Sto. Tomás de Aquino, Suma Teológica, I Parte, Q. 25, Art. 5, Respondeo, 1a. objeção) (N. do T.)