sexta-feira, agosto 14, 2015

Assunção segundo Corção: é rima e é solução

O dogma da Assunção

A 15 de agosto, como todo o povo católico sabe, a Igreja comemora a Assunção de Nossa Senhora. Esta festividade litúrgica se situa, no ano eclesiástico, na grande planície que fica entre as grandes festas do Cristo e do Espírito Santo. De Pentecostes até natal há uma espécie de campo juncado de santos mortos que um dia ressuscitarão e terão um corpo de glória. Ora, o que a Igreja ensina cantando, neste dia 15 de agosto, é que a Mãe de Deus, por favor especial, pelo fato de ter sido escolhida para a consumação do mistério da encarnação, e pelo fato de ter sido isenta do pecado original, mereceu entrar na glória, de corpo e alma, antes do grande dia em que todos os santos verão Deus com sua carne e seus ossos, como reclamava o paciente e impaciente Jô.

Desde 1o. de novembro de 1950, a crença na Assunção da Virgem Santíssima está incorporada à dogmática católica. Embora tenha sido sempre um hábito difundido, uma convicção digamos assim oficiosa da tradição católica, foi naquela data que o Papa Pio XII definiu o dogma da Assunção, e proclamou que a crença na subida de Maria aos céus, em corpo e alma, tem fundamento na revelação e portanto na fé divina. O Papa absteve-se de determinar o modo, as circunstâncias, os pormenores de tão misterioso e importante acontecimento, limitando-se a proclamar o dogma da Assunção no seu aspecto central e principal. A Sagrada Congregação dos Ritos, na mesma data, deu ao dogma, à verdade teológica que constitui o enunciado do dogma, uma roupagem de sinais litúrgicos, de referência escriturísticas, de imagens que formam o atual texto da festa máxima que glorifica a Rainha dos Céus e da Terra. A Mulher glorificada pelo Apocalipse, a Filha do Rei vestida de ouro do salmo 44, a Mãe que com seu Filho será inimiga vitoriosa do Demônio segundo o Gênesis, a cantora do Magnificat, todas essas imagens que se aplicam semelhantemente à Virgem Santíssima e à Igreja, esposa de Cristo, procuram tornar visível, na luz da fé, (que é um começo, um lampejo da luz da Glória), esse mistério que passa a medida de nossa inteligência natural.

O mundo descrente, diante da proclamação do dogma, que foi um dos mais belos atos do grande Papa Pio XII, mostrou-se escandalizado e houve até manifestações grosseiras de homens tidos por muito inteligentes. Parecia-lhes que a Igreja, com essa proclamação que se lhes afigurava inteiramente inoportuna, lançava um desafio às modernas luzes da moderníssima cultura.

E agora permitam-me dizer uma coisa. Eu acho que eles tiveram razão de se escandalizarem. Realmente, para o mundo que anda entretido com as coisas da hora que passa, com as idéias em voga, com os problemas efêmeros, respeitáveis uns, menos respeitáveis outros, para o mundo que só é mundo, que só cuida do que não permanecerá, que só pensa em fumaça, que só ama o que é inconsistente e frágil – para esse mundo a palavra da Igreja, interpretação e tradução da palavra de Deus, deve ter uma estranha dureza. Todos os dogmas são duros; mesmo o dogma que é pão teve para os ouvidos descrentes dureza de pedra. “Essas são palavras duras...” murmuraram os fariseus no dia em que Jesus lhes ensinou que Ele era comida, que Ele era pão.

E nós mesmos, em nossa imperfeitíssima fé, freqüentemente achamos esquisita a palavra de Deus e freqüentemente temos medo de encarar de frente um de nossos artigos de fé. E é por isso que a Igreja nos incita a estudarmos a doutrina revelada e a meditarmos sobre as suas conclusões. A teologia, sob certo ponto de vista, é uma especialidade para os doutos; mas, tomada no sentido mais amplo, deve ser estudada por todos; e o estudo do dogma é gerador de piedade, isto é, tonificador da alma; é fortificante espiritual e, sobretudo, integrador intelectual. Que quer dizer isto? Que sentido vital terá essa palavra? Como devemos fazer para pensarmos no dogma da Assunção, com as luzes da fé, mas também com as luzes naturais da razão, e não apenas com a inclinação afetiva que é boa, mas que só é boa quando estiver submetida à razão e à fé? Se o leitor tiver um pouquinho de paciência, já lhe darei um resumo da idéia contida naquela expressão.

O estudo teológico da sagrada doutrina é diferente do estudo do puro catecismo por ser mais desenvolvido e mais orgânico. Enquanto o catecismo nos dá uma lista, por assim dizer, de artigos de fé, a teologia nos ensina a ligar, a tomar como conexos os ditos artigos, a contemplar o grande corpo luminoso da dogmática conjunta e global. E quem estudar a doutrina com tal orientação verá uma coisa maravilhosa: os artigos que pareciam estranhos e dificilmente aceitáveis enquanto vistos isolados, destacados, tornam-se luminosos, claros, belos, invencíveis, inevitáveis, inegáveis, quando são vistos no grande conjunto, no grande corpo que é uma das formas do próprio Corpo de Deus.

É certo que mesmo assim não temos ainda, no que concerne aos mistérios de Deus, a luz plena que só teremos no dia da Glória. Por enquanto vivemos de fé, do lumen Christi, que tem algo de noturno, e vemos tudo em sinais e enigmas; depois, no céu, teremos o lumen gloriae, que é o fulgor do próprio Deus desvendado e visto face a face. Antes disso, estamos um pouco no escuro, no deserto, no mundo cuja figura passará. Mas aqui mesmo, na caminhada e na obscuridade, já teremos uma estrela de Belém, com luz mais viva, se estudarmos e meditarmos nas verdades religiosas, e se pouco a pouco conseguirmos descobrir os lineamentos, os contornos, do grande conjunto doutrinal. Então teremos uma estranha, uma curiosa sensação: antes do estudo e da meditação, cada artigo de fé era esquisito em seu isolamento, cada palavra do catecismo era uma palavra disciplinar e dura; depois do estudo, o conjunto se impõe de tal forma, com tal força, com tal remuneração para as aflições do espírito, que agora o que nos parece esquisito, estranhíssimo, bizarro, é o fato de existirem pessoas que não crêem em Cristo Jesus, nos seus mistérios, na sua Igreja, nos seus dogmas, na Assunção da Maria Virgem.

O dogma da Assunção, na verdade, não tem nada de especialmente repugnante ao bom senso, como andaram dizendo. Para começo de argumentação devo dizer que devia repugnar ao bom senso a idéia mesquinha que pretende reduzir toda a Realidade aos fenômenos sensíveis e à rotina dos dias que passam diante de nossa observação. E o resto? E as origens de tudo? E o fim de tudo? Será sensato não pensar nessas coisas? Não creio que alguém se possa gabar de ter na vida a famosa atitude do avestruz. Além disso, o dogma da Assunção não é tão bizarro, tão novo, tão incôngruo como parece a quem só tem notícia da doutrina católica por alguns boatos esparsos. Não. O dogma da Assunção se prende teologicamente ao dogma do pecado original, e ainda mais diretamente, ao dogma da encarnação. A descida de Deus à humana condição pôs no mundo da Carne um princípio de levitação divina com todas as suas numerosas conseqüências. Uma delas é a própria Ascensão do Senhor. Outra, que vem com a super-lógica dos divinos mistérios, é a Assunção de Maria. Prende-se a Assunção a Pentecostes, à vida da Igreja com sua coroa de sacramentos, que são por assim dizer estilhaços da divina explosão, ou que são o Cristo socializado; e prende-se à estrutura psíquica sobrenatural da piedade individual, pela qual imitamos Maria sendo gruta para o Cristo que nasce em nós, e sendo um corpo que sobe de claridade em claridade, como dizia o apóstolo. Prende-se à Liturgia, que é uma espécie de assunção, todos os dias e horas realizadas na missa e no ofício divino. E finalmente se prende a Assunção de Maria ao grande dogma da Ressurreição da Carne. Maria é uma antecipação, e todos nós sabemos que nas coisas eternas uma antecipação no tempo não traz modificação profunda. Se já era crença nossa a ressurreição da carne, porque se admira alguém do fato de proclamarmos uma ressurreição da carne? No fundo, a esperança do mundo descrente, do mundo que só é mundo, a esperança dos desesperados é que nossa religião seja apenas um hábito de falar e de gesticular. E um hábito de falar palavras vazias e inconseqüentes. Enquanto falamos na ressurreição em termos vagos, e ainda não verificados, o mundo nos deixa falar com complacência. Mas quando o dogma recentemente definido e proclamado, ou melhor, quando o dogma que já existia implícito, adormecido como a bela do bosque no castelo das verdades de Deus, se torna explícito, concreto, referindo-se a um fato ocorrido com uma pessoa... então o mundo se irrita, ou descobre espantado que não eram tão inconseqüentes e tão estéreis e tão estéreis como pensavam os outros artigos já conhecidos.

Assunção de Maria e ressurreição dos mortos são verdade articuladas como a mão no pulso e no braço, e ambas se prendem à encarnação como o braço se prende no tronco, e todas se nutrem do mesmo sangue e do mesmo sacratíssimo coração de Jesus. Quando se diz que a Igreja é Una, Santa, Católica, também se diz que é Una, Santa, Católica, a doutrina composta de muitos artigos de Fé. A divisão deles, a tendência e o perigo do despedaçamento, vem de nossa fraqueza mental, de nossa condição carnal. Por causa da natureza humana ser o que é, temos de aprender a doutrina ponto por ponto, andando, caminhando, somando, colecionando; mas só aprendemos bem e só começamos a tirar forças do dogma, quando começamos a aprender a grande lição da unidade. E então, maravilhosamente, a inteligência se alegra com a proclamação de um dogma que vem completar, que vem tornar explícito o que já estava implícito. E então a alma agradece a Deus que a engrandeceu, como engrandeceu Maria. O Magnificat torna-se nosso, oração nossa; e a Assunção de Maria torna-se nossa, assunção nossa. Já no Cristo tínhamos no céu a nossa pobre e amada carne. Agora temo-la de um modo que, por ser menos divino, se torna mais próximo de nós, resultando em nos tornar por isso mais divinos.

Assumpta est Maria in caelum. Os anjos alegram-se e bendizem o Senhor. E o salmo cantado nas Vésperas acrescenta: “Iremos atrás de ti levados pela recendência de teus aromas...”

Além disso, o dogma da Assunção, com toda a sua aparente incongruência, responde aos instintos mais profundos gravados em nossa natureza. Deus não nos fez para a morte e para a corrupção. Não só o espírito, mas a própria carne humana grita por vida eterna e clama contra a morte. Maria é a mulher vitoriosa. É a mãe que se debruça em nosso sonho de angústia, em nossas insônias de desespero, e nos diz, como quando éramos pequeninos e tínhamos medo do escuro: “Sou eu...” repetindo a palavra de seu Filho naquela noite em que os discípulos se assustaram quando o viram chegar por sobre as águas. Maria repete Jesus. “Minha mãe e meus irmãos são aqueles que guardam as minhas palavras” disse Jesus aos discípulos e ao povo que queria reduzir a maternidade de Maria ao nível das coisas naturais, e, por conseguinte, queria esquecer a transcendência de sua divina missão. Mas é a própria Maria quem melhor guarda as palavras de seu Filho. Repete Jesus nas palavras de verdade, nas palavras de misericórdia. E repete Jesus na subida aos céus.

Alegremo-nos, porque o nosso mais profundo susto, o nosso mais terrível medo, o nosso mais angustiado anseio é atendido por esse sinal maravilhoso que apareceu no céu: Signum magnum apparuit in coelo. Uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos pés, e na cabeça uma coroa de doze estrelas. Cantai um cântico novo.

Cantemos. Alegremo-nos. A humanidade geme sob a ameaça da morte. Nem sempre se fala nisso. Na maior parte das vezes a gente acha melhor desconversar, fingir que ela não existe, esquecer. De repente ela aparece e rouba uma pessoa amada, e então a gente grita, como Jó, que não quer morrer, que quer ver Deus estando em sua carne e seus ossos; ou chora como o bom pai que quer ver de novo, belo, jovem, resplandecente, o filho que um dia lhe trouxeram frio e despedaçado...

Lembrai-vos, ó piedosíssima Virgem Maria, dos que a morte e a frágil vida separaram, consolai os aflitos, intercedei pelos que sofrem injustiças, abrigai os pecadores. Rainha assunta ao céu, rogai, rogai por nós!

Roguemos também à Santa Mãe de Deus que interceda pela sorte do mundo e pela sorte de nosso infortunado país. Roguemos que a Misericórdia Suplicante obtenha de Deus a confusão de seus inimigos e a purificação de nossos costumes, de nossas instituições, e de nossos homens públicos. Há muito sofrimento nestas terras maltratadas, Santa Mãe de Deus; rogai por nós, vossos olhos misericordiosos a nós volvei, e depois deste desterro mostrai-nos Jesus, bendito fruto do vosso ventre, ó clemente, ó piedosa, ó doce Virgem Maria. Rogai por nós, Santa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo.

(revista A ORDEM, out. 1960)

Fonte: Permanência

quinta-feira, julho 16, 2015

Primeiro Congresso Monfort de Minas Gerais: OS CATÓLICOS E O FALSO DILEMA ENTRE DIREITA E ESQUERDA.

Segue a programação do primeiro Congresso Montfort em Belo Horizonte, conforme:
 
 
TEMA:
 
“OS CATÓLICOS E O FALSO DILEMA ENTRE DIREITA E ESQUERDA”
 
 
Data e horário:
Dia 1º de agosto de 2015 (sábado)
Início às 9 horas da manhã e término com a Santa Missa que começa às 17 horas.
 
Local:
Colégio Santa Maria – Unidade Nova Suíça.
Rua Lindolfo de Azevedo, 345 – Nova Suíça – Belo Horizonte. (ônibus 9202, 4150, 8203, S21) *
Referência: 4 quarteirões atrás do Cefet da Av. Amazonas
O estacionamento interno está liberado para os participantes do evento.
 
 
 
PROGRAMAÇÃO:
 
1.ª AULA: 9:00 às 10:30
DIREITA E ESQUERDA: DUAS FACES DA MESMA MOEDA
Palestrante: Prof. Dr. Antonio Emílio Angueth de Araújo
 
CAFÉ: 10:30 às 10:45
 
2.ª AULA: 10:45 às 12:15
A IMPORTÂNCIA DA QUESTÃO DOUTRINAL NA LUTA DA REVOLUÇÃO CONTRA A IGREJA CATÓLICA
Palestrante: Prof. Dr. Alberto Zucchi
 
 
ALMOÇO – 12:15 – 13:45 (Restaurante “self service” ao lado do colégio)
 
 
3.ª AULA: 13:45 às 15:15
LIBERALISMO COMO AGENTE DESAGREGADOR DA SOCIEDADE CIVIL E DA IGREJA
Palestrante: Subdiácono Thiago Bonifácio, IBP
 
CAFÉ: 15:15 às 15:30
 
4ª. AULA: 15:30 às 17:00
A ILUSÃO DA REVOLUÇÃO DE 64
Palestrante: Prof. Marcelo Andrade
 
 
Ao final do Congresso, às 17:00h, será celebrada a Santa Missa na Capela do Colégio.
 
 
 
INSCRIÇÃO:
 
Enviar e-mail para: cartas@montfort.org.br ou respostacatolica1@gmail.com, com o título CONGRESSO MONTFORT MINAS GERAIS, contendo as seguintes informações:
 
  1. Nome Completo
  2. E-mail
  3. Cidade / UF
  4. Telefone para contato
  5. Se fizer parte do clero ou ordem religiosa, informar qual sua Diocese e a qual Ordem/Congregação pertence.
 
 
Será enviado e-mail de retorno confirmando a inscrição.
 
O valor da inscrição é de R$20,00. Nesta taxa estão incluídos o material do Congresso além dos dois ‘coffee-breaks’.
 
O almoço não está incluso no valor da inscrição. Será indicado um restaurante bem próximo ao local do Congresso.
 
Clérigos e Religiosos são isentos de taxa de inscrição.
 

domingo, maio 03, 2015

Libido Dominandi: o projeto de dominação do homem por meio da luxúria.

Muito se beneficiarão aqueles que, ao lerem o livro de Mons. Delassus, que indiquei no blog, lerem concomitante ou sequencialmente o livro de E. Michael Jones, Libido Dominandi: Sexual liberation and Political Control. O blog já fez algumas alusões a este livro (aqui, aqui, aqui e aqui).

Abaixo, traduzo alguns trechos da introdução do livro. Observo, mais uma vez, que este livro fundamental ainda não encontrou tradução para o português, em nosso pobre país.

(...) Não é segredo que a luxúria é também uma forma de vício. Minha questão aqui é que o sistema atual sabe disso e explora a situação em seu próprio benefício. Em outras palavras, “liberdade” sexual é realmente uma forma de controle social. O que queremos realmente dizer é que isto é um sistema gnóstico de duas verdades. A verdade exotérica, aquela propagada pelo sistema por meio da propaganda, da educação sexual, dos filmes de Hollywood e do sistema universitário – a verdade, em outras palavras, para consumo geral – é que a liberação sexual é liberdade. A verdade esotérica, aquela que permeia as operações manuais do sistema – em outras palavras, as pessoas que se beneficiam da “liberdade” – é o exato oposto, isto é, que a liberação sexual é uma forma de controle, um modo de manter o sistema no poder pela exploração das paixões do ingênuo, que se identifica com suas paixões, como se elas fossem ele mesmo, e com o sistema que lhe possibilita identificar-se como tais paixões. Às pessoas que sucumbem a suas paixões desordenadas são disponibilizadas, então, racionalizações do tipo que infestam páginas pornográficas da Internet e que são, com isso, transformadas numa poderosa força política por aqueles que são os mais especializados em manipular o fluxo de imagens e racionalizações.

(...) A revolução sexual não foi um levante social; não foi um coalescer de “partículas de revolta e iluminação”; ela foi, ao contrário, uma decisão da classe dirigente da França, Rússia, Alemanha e dos EUA, em vários momentos, durante os últimos 200 anos, no sentido de tolerar o comportamento sexual fora do casamento como uma forma de insurreição e, então, como uma forma de controle político.

(...) O que se segue é a história de uma ideia. A ideia de que a liberação sexual poderia ser usada como uma forma de controle não é uma nova ideia. Ela é o centro da história de Sansão e Dalila. A ideia de que o pecado é uma forma de escravidão é central nos escritos de São Paulo. Santo Agostinho, em sua magnum opus em defesa do cristianismo contra as acusações dos pagãos (de que o cristianismo teria contribuído para a queda de Roma), dividia o mundo em duas cidades, a Cidade de Deus, que amava Deus ao ponto da extinção de si mesma, e a Cidade do Homem, que amava a si mesma ao ponto da extinção de Deus. Agostinho descreve a Cidade do Homem como “ansiando por dominar o mundo”, mas ao mesmo tempo se via “ela própria dominada por seu domínio”. Libido Dominandi, paixão por domínio, então, é um projeto paradoxal, praticado invariavelmente por pessoas que são, elas mesmas, escravos das mesmas paixões que incitam nos outros para dominá-los.

A dicotomia que Agostinho descreve é eterna; existirá enquanto o homem existir. Os revolucionários do Iluminismo não criaram nenhum novo mundo, nem criaram um novo homem para habitar esse admirável novo mundo. O que fizeram foi adotar a visão de mundo de Agostinho e, então, reverter seus valores. “O estado do homem moral é aquele de tranquilidade e paz, o estado do homem imoral é aquele de perpétuo desassossego”. O autor dessa afirmação não foi Santo Agostinho (embora ele teria concordado incondicionalmente com ela); o autor foi Marques de Sade. Menciono isso para mostrar que ambos, Agostinho e Sade, compartilhavam a mesma antropologia e a mesma psicologia racional, se quiserem. Onde diferiam era nos valores que atribuíam às verdades dessas ciências. Para Agostinho, o movimento era mau; para Sade, o revolucionário, o movimento perpétuo causado pelas paixões incontroladas era bom porque perpetuava “a necessária insurreição em que o republicano deve sempre manter o governo do qual é membro.”

O mesmo pode ser dito sobre a liberdade. O que um chama liberdade, ou outro chama servidão. Mas a dicotomia das duas cidades – uma rebaixando a si mesma por causa do amor a Deus, a outra rebaixando Deus por causa de seu amor a si e a seus desejos – é algo sobre o que ambas concordariam.


O que segue é a história de um projeto nascido da inversão das verdades cristãs pelo Iluminismo. “Mesmo aqueles se que armaram contra Vós”, escreve Agostinho, dirigindo-se ao Todo Poderoso na Confissões, “não fazem outra coisa que não copiá-Lo de modo perverso”. O mesmo poderia ser dito do Iluminismo, que começou como um movimento para liberar o homem e quase do dia para a noite se tornou um projeto para controla-lo. Este livro é a história dessa transformação. (...) A melhor forma de controlar o homem é fazê-lo sem que ele perceba que está sendo controlado, e a melhor forma de fazer isso é através da sistemática manipulação de suas paixões, porque o homem tende a se identificar com suas paixões como se dele fossem. (...) Foi necessário o gênio do mal desta nossa época para aperfeiçoar um sistema de exploração financeira e política baseada na intuição que São Paulo e Santo Agostinho tiveram a respeito do que chamavam de “escravidão do pecado”. Este livro descreve a sistemática construção de uma visão de mundo baseada nessa intuição.

sexta-feira, maio 01, 2015

Como a Maçonaria planejou, no século XIX, destruir a Igreja.

Transcrevo abaixo um trecho do extraordinário livro de Mons. Henri Delassus (que ainda estou lendo) A Conjuração Anti-Cristã, escrito em 1910 e agora editado pela Editoria Castela. Ainda comentarei este livro no blog.

Frente a esta conjuração, Antonio Gramsci parece um iniciante bem chinfrim. Todos que já leram sobre a infiltração comunista nos EUA sabem como o modelo das sociedades secretas foi usado amplamente. Leiam, por exemplo, Witness, de Wittaker Chambers (aqui e aqui).

O que vocês lerão é um trecho de um dos documentos da Alta Venda, grupo secretíssimo, que controlava tanto a Maçonaria quanto os Carbonários. Ninguém, nesses dois grupos auxiliares sabia da existência desse grupo superior, constituído de 40 membros, cujo controlador-mor era alguém, na época, conhecido como Nubius. O plano traçado então era destruir a Igreja com o concurso de um Papa. Vejam o que dizia o documento.

No caminho que traçamos para nossos irmãos encontram-se grandes obstáculos a vencer, dificuldades de mais de uma natureza a suplantar. Triunfaremos pela experiência e pela perspicácia; mas o objetivo é tão belo que importa abrir todas as velas ao vento para alcança-lo. Procurai o Papa cujo perfil acabamos de traçar. Estendei vossas redes no fundo das sacristias, dos seminários e dos conventos. O pescador de peixes torna-se pescador de homens; vós, vós conduzireis amigos (nossos) para junto da Cadeira Apostólica. Tereis pregado uma revolução com tiara e capa, marchando com a cruz e o estandarte, uma revolução que precisará ser apenas um pouco estimulada para pôr fogo nos quatro cantos do mundo. Que cada ato de vossa vida tenda, pois, à descoberta dessa pedra filosofal.

Em outra parte do documento se diz que bastava ter

o dedo mínimo do sucessor de Pedro comprometido com a conjuração, e esse dedo mínimo vale, para essa cruzada, todos os Urbanos II e todos os São Bernados da cristandade.

Sabendo o que sabemos sobre a crise da Igreja e os efeitos do Concílio Vaticano II, não podemos deixar de admirar o grau de profetismo, da capacidade de trabalho demoníaco e do sucesso que tais planos alcançaram em pouco menos de um século.


sexta-feira, abril 03, 2015

A Cruz de Nosso Senhor e as nossas.

Os católicos estamos, hoje, mais que em qualquer outro dia do ano, sob o peso da Cruz e das cruzes. Mas não apenas nós católicos carregamos cruzes. Todos que nasceram neste mundo carregam suas cruzes, quer estejam ou não conscientes disso. Quando Jesus foi crucificado, Ele teve dois companheiros: o bom e o mau ladrão. No Calvário, nos foi apresentado a cena da realidade da vida; todos carregamos nossas cruzes. Uns as carregam tendo a consciência plena de sua presença, de seu peso e de sua razão de ser. Estes, como o bom ladrão, admitem suas culpas, percebem que as cruzes que carregamos são muito mais leves que a de Nosso Senhor e, mais importante ainda, que a d’Ele foi carregada e sofrida por nós e por causa de nós. Estes, pedem perdão a Ele e pedem a salvação ao Pai, em nome d’Ele. Os outros, como o mau ladrão, sentem o peso de suas cruzes, reclamam do excesso de vicissitudes, procuram se desvencilhar delas, procurando os prazeres do mundo e, mais importante, imprecam contra Nosso Senhor. Criam um mundo artificial, pleno de gozo, na esperança de aliviar o peso. O peso só aumenta, à medida que aumenta a fome de prazer.

As cruzes dos católicos têm dimensões variadas. Há aquelas pessoais e intransferíveis; são as doenças, os problemas familiares, as deficiências pessoais que limitam, de uma forma ou de outra, o “sucesso” de nossas vidas, as pequenas contrariedades diárias, as coisas que, embora querendo, não conseguimos fazer, as pessoas desagradáveis que se nos são apresentadas em nossos afazeres, etc. Mas há cruzes, digamos, comunitárias, que carregamos com e para os outros. São as cruzes que nos são impostas pelo sistema social e político a que estamos sujeitos: a imoralidade e a irreligiosidade generalizada, a crueldade crescente, a escravidão da mulher que é vendida como liberdade feminina, a crise apocalítica da Igreja, a insegurança pessoal que nos amedronta a cada passo que damos, etc.

Somos responsáveis por todas essas cruzes, tanto as pessoais como as demais. Como o bom ladrão, devemos reconhecer nossas culpas por todas elas; mas, mais importante ainda, devemos pedir perdão Àquele que, sem culpa alguma, carrega a sua, pesadíssima, por nós e por causa de nós. Ele carregou todas as culpas, passadas e futuras, e nos garantiu, como ao bom ladrão, que, hoje mesmo, estaremos com Ele no reino dos céus. O nosso “hoje mesmo” ainda está por vir e não chegará enquanto vivermos. Mas é exatamente a esse “hoje mesmo” que devemos orientar nossas vidas, para que essa garantia nos alcance.

O caráter cíclico do calendário litúrgico nos oferece, todo ano, o espetáculo do Calvário, tanto para os católicos como para os demais. Todo ano, temos a oportunidade de, junto com o bom ladrão, reconhecer a divindade e a realeza d’Aquele flagelado, coroado com espinhos, escarrado pelos soldados e cruelmente crucificado. Temos também, como o mau ladrão, a oportunidade de desconhecer Nosso Senhor, de fazer um churrasquinho e beber uma cervejinha nesse feriado. Temos a oportunidade de viajar para descansar, ter um pouco de prazer. Temos a oportunidade de simplesmente desconhecer aquele momento, o mais crucial desde a Criação, em que Jesus exala o último suspiro, às três horas da tarde.

Que todos nós escolhamos a atitude do bom ladrão; neste mundo não aspiramos mais que isso, sermos o bom ladrão!

sexta-feira, março 27, 2015

Mais uma do tal "liberal yankee"!

Digam-me qual Bispo moderno da CNB do B afirma o que este indivíduo, rotulado de "liberal yankee" e outros adjetivos mais degradantes por alguns leitores do blog. Ou qual Bispo moderno pode afirmar, ou mesmo imaginar, de minimamente semelhante ao que o filósofo afirma? Abaixo transcrevo algumas notas de Olavo de Carvalho, muito esclarecedores para os católicos. Para ler a íntegra, clique aqui.

O Bem não é um universal abstrato. O Bem é uma Pessoa, é Deus. Só se assimila o Bem por contato pessoal e impregnação no amor divino. O resto é filosofice uspiana.
*
Todo aquele que não se apresenta diariamente diante do Trono do Altíssimo, com o coroção trêmulo de vergonha não só pelos seus próprios pecados mas pelos de todos os seus irmãos, consciente de que, em face da perfeição e da onissapiência divinas, CADA UM dos seus atos foi errado, mesmo aqueles que sua vaidade considerou os melhores, e sentindo até o fundo da alma que o Perdão é o ÚNICO bem valioso a ser ambicionado, -- esse NUNCA saberá o que é sinceridade, nem muito menos honestidade.
*
Eu não teria a cara-de-pau de pedir a destituição de um governante se não rezasse diariamente pela salvação da sua alma.
*
Quem compreendeu o meu post que começa com "Todo aquele que não se apresenta diariamente..." compreenderá também que a "absoluta terrestrialização do pensamento" proposta por Antonio Gramsci, assim como toda política baseada nela, será sempre uma GARANTIA INFALÍVEL de destruição da consciência moral de um povo, portanto um convite irresistível à criminalidade. As ligações entre o Foro de São Paulo e a corrupção petista não só uma questão de alianças e conveniências, mas têm uma raiz muito mais profunda na corrupção espiritual gramsciana. O PT já era corrupto antes de começar a roubar, antes mesmo de nascer, no tempo em que a putada uspiana sonhava com um "partido operário".

quarta-feira, março 25, 2015

Que raios de "liberal yankee" é este que desanca o capitlalismo?

Pois é, um leitor, recentemente, chamou Olavo de Carvalho de "liberal yankee" num comentário no blog. É um jargão comum de desqualificação das pessoas aqui neste nosso sofrido país. Quem pensa só por meio de slogans fica muito confortável em rotular quem quer que seja, sem se dar ao trabalho cuidadoso e penoso de analisar o pensamento das pessoas. 

Hoje li um artigo recentíssimo do tal "liberal yankee" em que ele desanca o capitalismo, mostrando o que ele se tornou na maior nação dita capitalista do mundo: os EUA. Sugiro ao leitor e aos leitores uma atenta leitura do artigo. Duas conclusões são possíveis: ou o "liberal yankee" surtou ou o jargão foi muito mal usado, como sói acontecer com os jargões.


domingo, março 22, 2015

Leitor não entende as citações tão ecléticas do blog. Blog responde.

Um leitor, de nome Sérgio, escreve ao blog o que se segue.

Prezado Prof. Angueth,
Gostaria de entender como o senhor consegue citar e recomendar ao mesmo tempo, pessoas de opiniões tão dispares e divergentes, vejamos:
- Cita e recomenda Dom Sarda e a leitura de seu livro "O liberalismo é Pecado" e ao mesmo tempo cita Olavo de Carvalho, um liberal ao estilo Yanke, tanto em política quanto em economia...
- Cita o professor Orlando Fedeli, o qual demonstrou a gnose guenoniana do referido Olavo...
- Cita Chesterton e Belloc que combateram o liberalismo com o distribuitismo, mas nada fala sobre essa corrente...
- Recomenda o padre Villa, mas sem as devidas ressalvas como o fato dele ser favorável a missa nova e nunca tê-la criticado, afora o sensacionalismo de alguns de seus livros e/ou de seus colaboradores vide: "A Mitra satânica de Bento XVI"...
- Elogia o padre Vieira, mas esquece que ele era sebastianista, um milenarista...
- E outros casos mais...
Obrigado.

Vou mencionar alguns dos “outros casos mais”. Cito Pascal, que teve fortíssimas simpatias jansenistas. Como não citar o autor de tais pensamentos:
- É preciso amar só a Deus e odiar só a si mesmo;
- Não somente nós não conhecemos a Deus senão por Jesus Cristo, mas não nos conhecemos a nós mesmos senão por Jesus Cristo; não conhecemos a vida, a morte senão por Jesus Cristo. Fora de Jesus Cristo não sabemos o que é nem nossa vida, nem nossa morte, nem Deus, nem nós mesmos;
- Quereis chegar à Fé e não sabeis o caminho. Quereis sarar da infidelidade e pedis os remédios para isso, aprendei daqueles que estiveram atados como vós e que apostam agora todo o seu bem. São pessoas que conhecem aquele caminho que gostaríeis de seguir e que foram curadas de um mal de que quereis sarar; segui a maneira pela qual eles começaram. Foi fazendo tudo como se acreditassem, tomando água benta, mandando rezar missas, etc.

Cito também C.S. Lewis, o cristão anglicano. Conheço muitas pessoas que se converteram ao catolicismo lendo este extraordinário anglicano.

Cito Nelson Rodrigues, um católico assumido, mas também autor de, por exemplo, “Bonitinha, mas Ordinária”. Esse católico foi o único grande intelectual brasileiro a reconhecer o valor essencial de Gustavo Corção, enquanto muitos outros católicos procuravam desacreditá-lo. Ele percebeu como poucos, o grande cataclismo que atingiu a Igreja no pós-Concílio Vaticano II. Quem lia suas crônicas podia acompanhar a surpreendente degradação interna da Igreja.

Cito Santo Afonso Maria de Ligório que, para escrever Glórias de Maria, se valeu de alguns dos evangelhos apócrifos para relatar alguns acontecimentos da vida de Nossa Mãe.

Cito Santo Agostinho, que foi platônico, e em cuja obra muitos agostinianos posteriores encontraram argumentos para desacreditar Santo Tomás e depois para lançar a Reforma, que cindiu toda a cristandade.

Cito Santo Tomás que, em sua época, foi enormemente pressionado a abandonar aquele perigoso pagão que ele insistia em ler e citar, mas não só. Ele ousou até a entende-lo e a ensiná-lo para nós. Trata-se obviamente do grande Aristóteles, a quem Santo Tomás chamava de O Filósofo, como chamava São Paulo de O Apóstolo; e, horrores dos horrores, chamava Averróis, sim o árabe, de O Comentador de Aristóteles. O que pensaria o leitor Sérgio do nosso Santo Tomás, o Doutor Comum, se vivesse em sua época?

Sobre Olavo de Carvalho e minhas opiniões sobre ele, sugiro a leitura de Olavo de Carvalho e eu. Sobre o prof. Orlando, sugiro a leitura de Orlando Fedeli e eu. Quando da morte do prof. Orlando, que outro intelectual brasileiro, senão exatamente Olavo de Carvalho, fez uma pequena homenagem ao morto ilustre? Sim, a morte do prof. Orlando foi também comentada e sentida por Sidney Silveira.

Com relação a Pe. Villa, não faço nenhuma ressalva porque não a tenho. Se você tiver, você mesmo, Sérgio, faça-a onde você quiser. Apresente argumentos que provem que os símbolos da Mitra de Bento XVI não são como diz Pe. Villa, mas não tente desacreditar seu trabalho simplesmente chamando-o de sensacionalista. Lembro, como se isso fosse necessário, que ser favorável à Missa Nova não é pecado! Eu não sou, não assisto a Missa Nova, pela graça de Deus, mas não digo que quem a assista está em pecado!

Bem, de Chesterton e Belloc e suas ideias econômicas, leiam (leitores e leitor) meu artigo na última Chesterton Review em português intitulado Três Alqueires e uma Vaca. Não preciso dizer que já traduzi alguns livros de Chesterton que estão repletos de suas ideias econômicas. Começarei a traduzir, no mês que vem, um livro de Belloc sobre economia.

Bem, agora vem Pe. Vieira. Ai, meu Deus! Sérgio nos lembra que Pe. Vieira foi sebastianista. E daí, Sérgio? Você quer dizer que o Sermão da Quarta-feira de Cinzas está eivado de sebastianismo? Você quer dizer que os trinta sermões que ele fez sobre o Rosário são inadequados, deveriam ser proibidos, por causa do seu sebastianismo? O que você quer dizer?

Desafio você a me apontar a gnose dos artigos que cito de Olavo de Carvalho, o sebastianismo dos sermões que cito de Pe. Vieira, o anglicanismo dos trechos que cito e traduzo de C.S. Lewis e a pornografia no que cito de Nelson Rodrigues.

Aponto, para terminar, sua profunda ignorância do que pensa Olavo de Carvalho, chamando-o de liberal yankee. É típico nos críticos tupiniquins de Olavo demonstrar ignorância logo no começo de seus arremedos de argumento. Vá estudar um pouco mais a obra dele, depois tente algo além de papo-de-boteco sobre esse pensador.


Sugiro que você edite um Index Librorum Prohibitorum para orientar católicos ignorantes como este blogueiro.

terça-feira, março 17, 2015

Nossa Senhora e as universidades

Recebo, do Dr. Ricardo Dip, um comentário que tenho de compartilhar com todos os leitores. O comentário já foi publicado no post Leitor pergunta e o blog responde: como ser um estudante católico na universidade de hoje? Segue o comentário.

Queria contar algo. Conto como ouvi. Mas ouvi de José Pedro Galvão de Sousa, o que não é pouco. E ele o ouvira de um dos partícipes do que segue, a quem conferia prudente crédito intelectual e moral.

Disse um sacerdote espanhol que, perguntando a Nossa Senhora qual meio tinham os pais para prevenir a perda da Fé dos filhos na Universidade, ensinou-lhe a Mãe Santíssima que deveriam os pais rezar diariamente o Terço com a intenção expressa de atar seus filhos ao Imaculado Coração. E que, nesse caso, não perderiam os filhos a Fé ao frequentar a Universidade.

Aí está. Nossa Senhora está preocupada com nossas universidades, como qualquer boa mãe se preocuparia com seus filhos correndo perigo de qualquer tipo. Note que o conselho da Mãe de Deus é muito simples e é bastante característico dela. Aliás, este foi o conselho que ela deu aos Papas por meio dos pastorezinhos de Fátima: refira tudo ao meu Coração Imaculado. É como se ela nos dissesse: faça isso e deixe o resto comigo! Foi o que ela disse nas Bodas de Caná: faça tudo o que Ele disser. Ela está a nos dizer: faça tudo o que Ele quer que vocês façam. Ele quer que tudo se refira ao meu Coração Imaculado!

Agradeço a Dr. Ricardo por essa extraordinária revelação de Nossa Mãe aos que são escravos da intelectualidade moderna.

Ad Iesum per Mariam.

quinta-feira, março 12, 2015

Leitor pergunta e o blog responde: como ser um estudante católico na universidade de hoje?

Defino-me como Católico Romano e Conservador-liberal, adotando o Liberalismo apenas em seu caráter estritamente econômico.

Gostaria de saber do senhor, como fazer para um jovem aluno nos dias de hoje exercer sua personalidade e suas convicções dentro de uma Faculdade? Estudo Direito e, tendo em vista o caráter Modernista, Positivista, Marxista, Relativista, enfim, dessas ideologias, como fazer para sair vivo e não ser amordaçado, marginalizado e até martirizado num ambiente desses?

Caro leitor, vou responder à pergunta que você me fez, mas antes respondo à que você não me fez. Você se define como católico conservador-liberal e diz adotar o liberalismo apenas em sua vertente econômica. Concedo que esta seria a melhor posição se a Igreja não tivesse uma Doutrina Social antiga e consistente sobre isso. Eu mesmo, um dia, adotei essa posição. Mas descobri que adotar o liberalismo em sua vertente econômica é aceitar os princípios básicos do liberalismo e isso, como já disse, é, no mínimo, pecado, como afirma Dom Sarda em seu livro Liberalismo é Pecado. Se você quiser ler algo mais moderno, leia o livro de Christopher Ferrara, The Church and the Libertarian: A Defense of the Catholic Church's Teaching on Man, Economy, and State. Leia também as Encíclicas de Leão XIII: Libertas e Rerum Novarum. De Pio XI, leia Quadragesimo Anno.

Bem, agora vamos à pergunta que você me fez. Ser um estudante católico na universidade de hoje é uma das coisas mais difíceis. Aliás, ser um estudante sério no Brasil já é uma tarefa hercúlea, em qualquer situação. Leia, por exemplo, A tragédia do estudante sério no Brasil, de Olavo de Carvalho, e você terá uma ideia da coisa.

Você terá de passar por um processo de desintoxicação de ideias erradas que lhe foram impostas pela incultura atual. Esse processo é doloroso e te transformará num cara esquisitão, solitário. Poucos colegas se aproximarão e os amigos minguarão. Seus familiares também reagirão de modo, às vezes, não muito amistoso. Prepare-se então, pelo menos inicialmente, para uma vida de eremita.
Depois disso, você terá de ter uma vida de estudos muito mais rígida que seus colegas, terá de estudar 24 horas por dia, 7 dias por semana, pela vida inteira. Esse não é só um objetivo, mas um projeto de vida, uma espécie de vocação. Qualquer coisa menos que isso, te levará de volta à incultura geral, pois seguir o curso do rio é muito fácil, seguir a manada de imbecis é uma coisa muito confortável, se você não tiver a companhia de verdadeiros intelectuais, de todas as épocas, de todos os matizes.
Espero que a resposta não te desestimule e que você consiga boiar no mar de lama, relativamente imune à sujeira geral.

Um último conselho: não queira exercer sua personalidade e convicções na universidade, por que ela não merece. Procure apenas não se enlamear e se te perguntarem o que você pensa, fale a verdade, como todo católico é obrigado a fazer. Com o tempo alguns se aproximarão e te ouvirão. A estes, dê seu testemunho.


Que Deus e a Mãe d’Ele te iluminem.

quarta-feira, março 11, 2015

Sobre o Pe. Luigi Villa

Alguns leitores me perguntam sobre o Pe. Luigi Villa, preocupados com os trabalhos do padre italiano sobre os Papas conciliares, principalmente Paulo VI e João Paulo II, já comentados no blog. Ofereço aqui um depoimento de uma pessoa muito mais abalizada que este modesto blogueiro: Alicia von Hildebrand, esposa do grande filósofo católico Dietrich von Hildebrand. Leiam seu depoimento aqui.

terça-feira, março 10, 2015

Os católicos não somos nem de direita nem de esquerda

Nestes dias tumultuados no Brasil, muita coisa está se passando sob as denominações de direita e esquerda, como se elas diferenciassem as pessoas substancialmente. Não diferenciam! A confusão que o Concílio Vaticano II introduziu na Igreja faz as pessoas pensarem que todo o católico deve ser de direita, ou de esquerda, segundo uns e outros. Há quem afirme até que o liberalismo é algo de direita, opondo-se ao marxismo que seria de esquerda. Há muitos que tentam nos provar que liberalismo é algo aceitável dentro do catolicismo. Não é, e o Papa Leão XIII já provou isso em pelo menos duas Encíclicas; Libertas e Rerum Novarum. Ademais, Dom Sarda y Salvani já mostrou, com todas as letras que "Liberalismo é Pecado"!

Mas quero compartilhar com os leitores um texto muito elucidativo do Prof. Orlando Fedeli: Direitas e Esquerdas. Prof. Orlando explica direitinho toda a coisa e porque direitistas e esquerdistas são irmãos siameses. Não somos nem de direita nem de esquerda, somos católicos!


sábado, fevereiro 28, 2015

A primeira frase da Metafísica e a humildade cristã: meditação quaresmal.

Diz a primeira frase da Metafísica de Aristóteles: todos os homens têm, por natureza, o desejo de conhecer. Santo Tomás de Aquino explica, em seu Comentário à Metafísica, esta primeira frase de Aristóteles.

   Há três razões para isso. A primeira é que cada coisa naturalmente deseja sua própria perfeição. Assim, a matéria deseja a forma, como todas as coisas imperfeitas desejam sua perfeição. Portanto, como o intelecto, pelo qual o homem é o que é, considerado em si mesmo é todas as coisas potencialmente, transforma-se realmente nelas somente por meio do conhecimento. Então, cada homem deseja o conhecimento tão como a matéria deseja a forma.
   A segunda razão é que cada coisa tem uma inclinação natural à desempenhar sua própria operação, como algo quente se inclina naturalmente a aquecer, e algo pesado a ser movido para baixo. Ora, a operação própria do homem como homem é compreender, e por isso ele difere de todas as outras coisas.
   A terceira razão é que é desejável por todas as coisas estarem unidas às suas fontes. (...) Ora, é somente por seu intelecto que o homem se torna unido às substâncias separadas, que são a fonte do intelecto humano e com as quais o intelecto humano se relaciona como algo imperfeito a algo perfeito. É por essa razão, também, que a felicidade última do homem consiste nessa união.

Mas já dizia São Paulo (1 Cor 8,1): “a ciência infla de orgulho”. Então, como lutar contra o orgulho, que é o dever de todo cristão, se possuímos esse desejo natural de conhecer? A resposta está na Imitação de Cristo, e é a única resposta que nos afasta de uma das três concupiscências, a concupiscência dos olhos. No capítulo “Do humilde pensar de si mesmo”, de Kempis nos ensina:

1.      Todo homem tem desejo natural de saber; mas que aproveitará a ciência, sem o temo de Deus? Melhor é, por certo, o humilde camponês que serve a Deus, do que o filósofo soberbo que observa o curso dos astros, mas se descuida de si mesmo. Aquele que se conhece bem despreza-se e não se compraz em humanos louvores. Se eu soubesse quanto há no mundo, porém me faltasse a caridade, de que me serviria perante Deus, que me há de julgar segundo minhas obras?
2.      Renuncia ao desordenado desejo de saber, porque nele há muita distração e ilusão. Os letrados gostam de ser vistos e tidos como sábios. Muitas coisas há cujo conhecimento pouco ou nada aproveita à alma. E mui insensato é quem de outras coisas se ocupa e não das que tocam à sua salvação. As muitas palavras não satisfazem à alma, mas uma palavra boa refrigera o espírito e uma consciência pura inspira grande confiança em Deus.



Temos o desejo natural de saber para nos aproximarmos de Deus. Se o operar desse desejo, pela desordem do Pecado Original, nos afasta d’Ele, que nos aproveita a ciência? Essa é uma boa meditação quaresmal.

terça-feira, fevereiro 24, 2015

Somos pó: resposta a uma leitora.

A leitora Moniza pergunta:

Caro Prof. Angueth,
"Quanto tenho vivido? Como vivi? Quan­to posso viver? Como é bem que viva?"
Estou um pouco confusa sobre os quatro pontos que o Padre Antônio Vieira pede que levemos em consideração todos os dias poderia me explicar o significado de cada uma dessas perguntas? Como devo pensar e meditar cada uma delas?

Cara Moniza,
Salve Maria!

Quem sou eu para comentar Pe. Vieira! Preciso lê-lo todo ainda, principalmente seus 30 sermões sobre o Rosário, dos quais li só o primeiro.

Mas essas quatro perguntas fundamentam o que se chama o "exame de consciência" que todo católico deve fazer todos os dias da vida, além da meditação da própria morte. Aliás, este sermão nada mais é que uma grande meditação sobre nossa própria morte. As quatro perguntas podem ser resumidas numa só: o que tenho feito de minha vida e o que terei para mostrar quando, morto, passar pelo Julgamento Particular, na presença do Altíssimo, cara a cara com Ele. Temor e tremor, estes são os sentimentos de quem vive à espera de tão momentoso encontro.

Como diz Bernanos: "Mas qual é o peso de nossas chances, para nós que aceitamos, de uma vez por todas, a assustadora presença do divino em cada instante de nossas pobres vidas?"

Essa é a situação precária que todo católico vive. Com a virtude da Esperança sempre presente, mas com a presença das três concupiscências a nos desviar sempre de nosso maior objetivo. Somos pó e tudo que há de bom em nós vem de Deus. A única coisa que produzimos por nós mesmos é o pecado. Eis a precariedade de nossa situação.


Ad Iesum per Mariam.

quarta-feira, fevereiro 18, 2015

Quaresma 2015

Começa hoje a Quaresma. É o período mais importante do Ano Litúrgico, onde procuramos padecer com Nosso Senhor, e com Sua graça, Sua Paixão. A Cruz nos acompanhará até a Ressurreição.

O Ano Litúrgico é uma lição anual que a Igreja nos dá, uma espécie de Catecismo permanente a nos lembrar das Verdades fundamentais, aquelas que não devemos esquecer até nossa morte. A maior delas nos é ensinada na Quaresma: que somos pó e ao pó retornaremos. Nada melhor que hoje relembremos o sermão de Pe. Antônio Vieira, que nos fala sobre isso. Reproduzo abaixo esse extraordinário sermão, pedindo a Deus, como no Introitus da Missa de hoje:

Misereris omnium, Domine, et nihil odisti eorum quae fecisti, dissimulans peccata hominum propter paenitentiam et parcens illis: quia tu es Dominus, Deus noster.
Ps. Miserere mei, Deus, miserere mei: quoniam in te confidit anima mea. Gloria Patri.


SERMÃO DE QUARTA-FEIRA DE CINZA
(Igreja de S. Antônio dos Portugueses, Roma. Ano de 1672.)
Padre Antônio Vieira

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris.
Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I
O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.

Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar. Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento. E que duas coisas enigmáticas são estas? Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter. 

Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura. O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança. Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer. Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? 

As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó. Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. 

Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente. De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista. 

Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es

Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário? 

É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es

Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo. A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó. O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional. O pó vive? Não. Pois como é pó o vivente? O pó sente? Não. Pois como é pó o sensitivo? 

O pó entende e discorre? Não. Pois como é pó o racional? Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es? Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. 

Para que eu acerte a declarar esta dificultosa verdade, e todos nós saibamos aproveitar deste tão importante desengano, peçamos àquela Senhora, que só foi exceção deste pó, se digne de nos alcançar graça.
Ave Maria.

Para continuar a ler clique aqui.


sábado, fevereiro 14, 2015

Resposta ao nutricionista (será?) que não sabe ler

Aprendi com Olavo de Carvalho, entre outras muitíssimas coisas, que os debatedores idiotas mostram sua idiotice no momento em que abrem a boca. Seu conselho é: leia-os com atenção, com respeito, e depois é só seguir os seus raciocínios para descobrir as inconsistências abundantes no que escrevem, falam e gritam. Em geral, não sabem escrever, nem falar; e se gritam, bem, aí não dá para escutar.

Escrevi um post sobre a frutose, não a substância em si, mas sobre o uso de pesquisas ditas científicas para enganar e gerar políticas restritivas que geralmente atingem os tais industriais capitalistas, cujo único objetivo é destruir a humanidade, como todos sabem.

Bem, depois da história, a área mais repleta desses ideólogos travestidos de cientistas é a nutrição (inclui-se aqui a busca de substâncias maléficas à saúde e a tal de epidemiologia, que serve tão bem ao mal uso que dela fazem). Se quiserem ter uma ideia da coisa, há um estudo muito bom sobre isso aqui.

Pois é, mas um leitor me envia o seguinte comentário ao post da frutose:

Nessa vc podia ficar calado, não tem conhecimento de nutrição para falar essas coisas. Sim, a frutose aumenta a glicose no sangue, liberando insulina, e assim aumentando a massa gorda (até mais que a gordura saturada).

O “nessa vc podia ficar calado”, na verdade o correto é “nesta”, o leitor prova de imediato que não leu o que escrevi e que está usando o argumento “ad hominem”, como fazem os que não sabem e não podem discutir. O indivíduo quis dizer que como, ele pensa, não entendo nada de nutrição, eu deveria ficar calado, vendo os cientificistas nos enganarem. No post, eu não discuto a ciência da bioquímica (pois nutrição não é ciência), mas o uso indevido que dela fazem alguns. A isso o indigitado não responde e ainda por cima pretende me dar uma aula de bioquímica. Eu pergunto, o que tem isso a ver com o que eu escrevi? Significa que o comentarista apoia o estudo e suas conclusões? Afirma que é possível tirar tanta conclusão estatística com a mirrada amostragem estudada? Aviso ao bobão: de estatística eu entendo um pouquinho. Aliás, recomendo fortemente aos interessados a leitura do extraordinário livro How to lie with estatistics. Voltando ao assunto: será que o rapaz (ou garota) que não sabe ler está afirmando que devemos limitar o uso da frutose em alimentos industrializados?

Tudo isso fica como conjectura, pois o espertinho quis mesmo foi atacar minha presumível ignorância a respeito da bioquímica de alimentos, da qual nada comentei e da qual, devo dar razão a ele, não entendo nada.


São assim os militantes anti-qualquer coisa; como não têm argumentos, usam o velho esquema da erística de Schopenhauer, da qual, devo dizer novamente, conheço alguma coisinha.

quinta-feira, janeiro 22, 2015

A Queda e a Cruz: uma verdadeira aula do saudoso prof. Orlando Fedeli.

O significado da Cruz de Nosso Senhor, que todos temos de carregar, é magistralmente explicado pelo saudoso prof. Orlando, a quem devo tanto do que tenho agora. O link do texto é este.


Quanto falta o professor nos faz! Que Deus o tenha entre seus mais diletos filhos.