Na edição de janeiro de 2014 (n. 372) do Courrier de Rome, Pe. Jean-Michel
Gleize, professor de eclesiologia do Seminário da FSSPX em Econe, publicou um
estudo intitulado: “João Paulo II: um novo santo para a Igreja?” Depois de
lembrar que a canonização é infalível, ele pergunta: “As novas canonizações
exigem obediência dos fiéis católicos?” e então “João Paulo II pode ser
canonizado?”, citando as afirmações do papa polonês aos luteranos, anglicanos,
ortodoxos, judeus, muçulmanos, além de suas observações sobre a liberdade
religiosa.
A seguir, o epílogo do Pe. Gleize
Se João Paulo II é um santo, sua teologia deve ser
impecável, até o mais mínimo detalhe. De fato, a virtude da fé em níveis
heroicos implica uma perfeita docilidade a todo o espírito do Magisterium, e não somente à letra dos
ensinamentos do Magisterium infalível
e ao mais baixo denominador comum dos dogmas obrigatórios.
Se João Paulo II é verdadeiramente um santo, os fiéis
católicos devem reconhecer que a Igreja católica e as comunidades ortodoxas são
igrejas irmãs, corresponsáveis por resguardar a única Igreja de Deus.[1]
Devemos, portanto, reprovar o exemplo de Josaphat Kuncewicz, arcebispo de
Polotsk (1580-1623). Convertido da Igreja Ortodoxa, ele publicou uma Defesa da
unidade da Igreja em 1617, na qual reprova a sua antiga Igreja por romper a
unidade da Igreja de Deus, excitando o ódio desses cismáticos que o
martirizaram.
Se João Paulo II é verdadeiramente um santo, os fiéis católicos
devem reconhecer os anglicanos como irmãos e irmãs em Cristo e expressar esse
reconhecimento rezando em conjunto.[2]
Devemos também condenar o exemplo de Edmund Campion (1540-1581) que recusou-se
a rezar com um ministro anglicano, na ocasião de seu martírio.
Se João Paulo II é verdadeiramente um santo, os fiéis
católicos devem defender que o que divide católicos e protestantes – isto é, a
realidade do sagrado e propiciatório Sacrifício da Missa, a realidade da
mediação universal da Santíssima Virgem Maria, a realidade do primado da
jurisdição do Bispo de Roma – é mínimo em comparação com o que os une.[3]
Devemos, portanto, condenar o exemplo do capuchinho Fidelis de Sigmaringa (1578
– 1622) que foi martirizado por reformadores protestantes, a quem ele foi
enviado como um missionário e para quem ele escreveu um Disputatio contra ministros protestantes, sobre a questão do Santo
Sacrifício da Missa.
Se João Paulo II é realmente um santo, os fiéis católicos
devem reconhecer o valor do testemunho religioso do povo judeu.[4] Devemos então condenar o exemplo de Pedro de Arbues (1440 – 1485), Grande
Inquisidor de Aragão, que foi martirizado por judeus por ódio à fé católica.
Se João Paulo II é realmente um santo, os fiéis católicos
devem reconhecer que depois da ressurreição final, Deus estará satisfeito com
os muçulmanos e eles estarão satisfeitos com Ele.[5] Devemos então condenar o exemplo do capuchinho José de Leonessa (1556 – 1612)
que trabalhou incansavelmente em Constantinopla entre cristãos reduzidos à
escravidão pelos seguidores do Islã. Seu zelo lhe fez ser arrastado perante o
sultão por insultar a religião muçulmana, e lhe custou ser dependurado num
cavalete por uma corrente presa a ganchos em uma das mãos e a um dos pés. Os
fiéis católicos devem deplorar também o exemplo de São Pedro Mavimenus, que
morreu em 715 depois de ser torturado por três dias, por ter insultado Maomé e
o Islã.
Se João Paulo II é santo, os fiéis católicos devem
reconhecer que chefes de estado não deve se arrogarem o direito de impedir a
profissão pública de uma falsa religião.[6] Devemos portanto condenar o exemplo do rei francês, Luiz IX, que limitava a
prática das religiões não cristãs ao máximo possível.
Contudo, Josaphat Kuncewicz foi canonizado em 1867 por Pio
IX, e Pio XI dedicou-lhe uma encíclica; a Igreja celebra sua festa em 14 de
novembro. Edmund Campion foi canonizado por Paulo VI em 1970, e a Igreja o
honra no dia 1 de dezembro. Fidelis de Sigmaringa foi canonizado em 1746 e
Clemente XIV o proclamou “protomártir da Propaganda” (da Fé); sua festa, no
calendário da Igreja, é no dia 24 de abril. Pedro de Arbues foi canonizado por
Pio IX, em 1867. José de Leonessa foi canonizado em 1737 por Bento XIV e sua
festa é celebrada em 14 de fevereiro; Pio IX o proclamou patrono das missões da
Turquia. Finalmente, São Pedro Mavimenus, é celebrado pela Igreja no dia 21 de
fevereiro. Quanto ao Rei São Luis, seu exemplo muito conhecido é uma
demonstração ideal dos ensinamentos de São Pio X, também canonizado. Se João
Paulo II é realmente um santo, todos esses santos se enganaram grandemente e
deram à Igreja não um exemplo de autêntica santidade, mas um escândalo de
intolerância e fanatismo. É impossível evitar este dilema.
A única forma de evita-lo é tirar uma dupla conclusão: Karol
Wojtyla não pode ser canonizado e o ato que proclamaria sua santidade perante e
Igreja só poderia ser uma falsa canonização.
FONTE: Distrito
americano da FSSPX
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[1] A Igreja Católica e as comunidades ortodoxas “reconhecem uma à outra
como Igrejas Irmãs, corresponsáveis por resguardar a única Igreja de Deus, em
fidelidade ao plano divino, e num modo completamente especial em relação à
unidade.” João Paulo II, Declaração Conjunta assinada no Vaticano pelo Papa
João Paulo II e o Patriarca Bartolomeu I, 29 de junho de 1995 (DC no. 2121, p.
734-735).
O Papa e o líder dos anglicanos agradecem a Deus “que em muitas partes do mundo
anglicanos e católicos, juntos num só batismo, reconheçam uns aos outros como
irmãos e irmãs em Cristo e expressem isso por meio de orações conjuntas, ação e
testemunho comuns.” Declaração Conjunta de João Paulo II e o Arcebispo de
Cantuária, representando a Comunhão Anglicana, assinada em 5 de dezembro de
1996. (DC no. 2152, pp. 88–89).
“O espaço espiritual compartilhado supera muitas barreiras confessionais que
ainda nos separam, no limiar do terceiro milênio. Apesar das divisões, somos
capazes de nos apresentar num caminho de crescente união em oração perante
Cristo, percebemos cada vez mais quão pequeno é o que nos divide em comparação
com o que nos une.” João Paulo II ao discursar perante o Dr. Christian Krause,
presidente da Federação Luterana Mundial, 9 de dezembro de 1999 (DC no. 2219,
p. 109).
“Sim, com minha voz, a Igreja Católica (...) reconhece o valor do testemunho do
vosso povo.” João Paulo II, em discurso à comunidade judaica de Alsácia, 9 de
outubro de 1998 (DC no. 1971, p. 1027).
“Acredito que nós, cristãos e muçulmanos, devemos reconhecer com alegria os
valores religiosos que temos em comum e agradecer a Deus. (...) Cremos que Deus
será um juiz misericordioso no final dos tempos e esperamos que, depois da
ressurreição, Ele esteja satisfeito conosco, e nós com Ele.” João Paulo II, em
discurso por ocasião do encontro com jovens no estádio de Casablanca, 18 de
agosto de 1985 (DC no. 1903, p. 945).
“O Estado não pode reivindicar autoridade, direta ou indireta, sobre as convicções
religiosas de uma pessoa. Não pode se arrogar o direito de impor ou de impedir
a profissão ou a prática pública de religião por uma pessoa ou comunidade.”
João Paulo II, mensagem na celebração do Dia Mundial da Paz, 8 de dezembro de
1987 (DC no. 1953, p. 2)