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segunda-feira, maio 14, 2012

Sob as barbas de Dom Saburido,OSB.


Vocês sabem, OSB significa Ordem de São Bento, o Glorioso. E as barbas são de Dom Saburido, comentado no blog recentemente,  (aqui, aqui e aqui). Agora me chega uma notícia de Pernambuco, por meio do leitor Manoel Carlos.

Semana passada, a Universidade Católica de Pernambuco realizou uma semana de teologia sobre o Concílio Vaticano II: 50 anos, história e perspectivas. Da história nós sabemos. Das perspectivas, esperamos que não existam. Mas, enquanto isso, o pessoal de uma universidade que se diz católica, vai debatendo e vivendo o tal espírito do concílio.

Querem saber o que é viver o espírito do concílio? Bem, então pulemos os debates, pois debates acadêmicos são sempre uma perda de tempo. Passemos direto para as vivências. Vejam o anúncio: “O povo cristão do hemisfério sul do planeta celebra, entre os dias 20 e 27 de maio próximo, a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Nessa ocasião, católicos romanos, luteranos, anglicanos, presbiterianos, ortodoxos e outras denominações irmãs colocam-se em oração na busca pela unidade das comunidades cristãs, tendo como lema ‘Todos seremos transformados pela vitória de nosso Senhor Jesus Cristo’ (cf. 1 Cor 15, 51-58). No Recife, várias celebrações e reflexões estão sendo preparadas, sob coordenação geral da Associação Fraterna de Igrejas Cristãs.”

Duas observações me ocorrem. Eu achei muito charmosa e eficiente a expressão “e outras denominações irmãs”. Eficiente porque esta simples expressão convida pelos menos 30.000 denominações protestantes que existem por aí. Não sei se o povo pernambucano convive com tantos hereges assim, mas que elas existem, existem: são uma legião. A segunda observação é estes promotores da unidade dos cristãos querem, muito protestantemente usar São Paulo como um adepto do ecumenismo. É só ler a carta que o apóstolo escreveu aos efésios para desmentir esses hereges enrustidos.

Mas tem algo ainda mais grave e mais irônico. Um tal Grupo de Jornadas de Confiança e o Instituto Humanitas estão convidando para “jejum da sua eucaristia tradicional”, para “todas as quartas-feiras, entre 18h e 18h30, na Capela da Universidade” fazerem “uma celebração no estilo de Taizé, aberto a todas as denominações cristãs.” Ou seja, a Missa deixa de ser celebrada, daí o jejum da Eucaristia (palavra que eles escrevem com minúscula, muito significativamente). O mais grave é que eles falam de “eucaristia tradicional”, dando a entender que existe outra, a não tradicional, a que eles vão celebrar com os hereges. Eles atacam assim o ponto central de nossa Fé, a Presença Real.

O que é irônico é que eles cometem o que os freudianos chamam de ato falho, quando usa a palavrinha jejum. Admitem que os católicos, para se aproximarem dos hereges ecumenicamente, temos de abrir mão de Nosso Senhor Jesus Cristo, temos de nos afastar do Sacramento maior de nossa Fé. O que os católicos modernistas de Pernambuco estão admitindo, quer queiram, quer não, é que aproximar de protestante, sem o intuito de convertê-los à verdadeira Fé, é abrir mão de Cristo. E quem abre mão de Cristo, vai para o Inferno.

Em resumo, a Universidade Católica de Pernambuco, abrindo o diálogo com os hereges nos ensina (como é da natureza de uma universidade) o que todos os santos, todos os papas, todo o Depósito da Fé nos ensinaram até o Concílio Vaticano II: extra ecclesiam nulla salus.

sexta-feira, maio 04, 2012

O Sr. Robério é um personagem de Dickens


O Sr. Robério é o leitor do Fratres que prometeu postar o comentário que ele fizera lá, neste modesto blog, mas não o fez. Mesmo assim, eu o respondi daqui. Ele, agora, responde à minha resposta, por meio de outro longo texto, como comentário ao post acima referido.

Este senhor vive no mundo do Concílio Vaticano II. É daqueles que comemorarão com muita alegria tudo que o Concílio trouxe para a Igreja, nestes 50 anos de tragédia. Toda a modernização, todo o diálogo com o mundo, todas as mudanças litúrgicas, toda a relativização religiosa, todas as cantorias, etc. Ele está satisfeito com tudo. Ele lembra um personagem de Charles Dickens, o Sr. Podsnap. Dickens usa o personagem para uma ácida crítica à classe média inglesa da era vitoriana. Dele o autor diz: “O Sr. Podsnap era um sujeito que ia muito bem, e era tido em alta estima, na opinião do Sr. Podsnap./ Estava muito satisfeito consigo mesmo e não entendia porque as outras pessoas não sentiam o mesmo./ Considerava-se um brilhante exemplo social por se sentir tão satisfeito com a maioria das coisas e consigo mesmo./ O Sr. Podsnap estabeleceu que qualquer coisa que esquecesse, passaria a não mais existir.”

O Sr. Robério voluntariamente esquece que os bispos de hoje defendem heresias aos magotes, e então sai alegremente afirmando que os bispos devem ser obedecidos porque são sucessores dos apóstolos, etc., etc.

O bispo de Sidney está agora mesmo a defender muitas, mas muitas heresias. Um catecismo da Igreja, recentemente publicado, o YOUCAT, com prefácio do Papa Bento XVI, contém afirmações contrárias à Tradição da Igreja, contrárias ao Depósito da Fé, contrárias ao Catecismo Romano, mandado publicar pelo Concílio de Trento. Há hoje na Igreja, a Igreja do Concílio Vaticano II, padres que defendem o aborto em suas homilias, apenas para citar o mais recente exemplo publicado aqui no blog. Mas, esqueçamos isso, pois o mundo e a Igreja vão muito bem.

O Sr. Robério reclama também que eu usei um termo tendencioso para me referir a ele: modernista. O Sr. Robério, vocês sabem, é um homem moderno, da Igreja de hoje, e assim ele mal sabe que o modernismo é um termo definido muito precisamente, de forma magistral, com fundamentos teológicos, filosóficos e doutrinais pelo Papa São Pio X, numa encíclica inteiramente de acordo com toda a Tradição da Igreja, portanto, ensinamento infalível: Pascendi Dominici Gregis. Há nesta encíclica a descrição de todos os erros, hoje alegremente cometidos em quase todas as paróquias de quase todas as dioceses de quase todo o mundo. Mas ela é algo do passado, algo ultrapassado. Não é algo para homens como o Sr. Robério, um homem do seu tempo. Ele conhece apenas os documentos do CVII, desconhecendo o quanto eles estão em desacordo com o ensinamento da Igreja de sempre e do Concílio de Trento e de muitos outros. Ele desconhece, suponho, que o CVII não é concílio infalível, mas pastoral, seja isso o que for.

Ele também decididamente não quer aprender que quando um bispo defende ideias heréticas, não o devemos seguir. Ele não compreende que a desobediência é, as vezes, um dever. Ele finge ter muito interesse por documentos da Igreja, mas é muito seletivo em sua leitura ou conhecimento. Cita coisas em latim, cita o CDC, cita alguns santos, mas não outros. Ele pratica o catolicismo self-service, escolhe apenas o que gosta. Eu não posso negar que assim as coisas pareçam muito boas mesmo.

Finalmente, ele acha que tudo isso são ideias minhas e por isso ele afirma taxativamente discordar de mim. Ora, o Sr. Robério é o homo vaticanae secundus por excelência. É a personificação mais acabada do modernismo. Não esqueçamos nunca que o Sr. Robério é da diocese de Dom Hélder Câmara, o bispo vermelho, a quem Nelson Rodrigues gostava de entrevistar (aqui e aqui). Mas, Dom Hélder era bispo da Igreja e, segundo o Sr. Robério, deveríamos segui-lo. Se alguém lembrar, durante a discussão, dos ensinamentos de Cristo, ah!, o Sr. Robério dirá que isto é coisa antiga, que devemos viver o tempo presente, que devemos obedecer aos Saburidos da vida. Infelizmente, non possumus.

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

CUBA - BRASIL: YOANI, COMPASIÓN Y PILATOS

Por Armando Valladares
Miami (FL), 05 de febrero de 2012, 03:10 PM

Nota do blog: Lembremo-nos bem, todos nós católicos, antes de lermos o que vai abaixo, que o Concílio Vaticano II se negou a condenar o comunismo, por um acordo entre Paulo VI e autoridades soviéticas, que ficou conhecido com acordo de Metz. Lembremo-nos também que quem colocou o PT no governo do Brasil foi a CNB do B, com a tal da teologia da libertação, tão espertamente usada pelos comunistas petistas. Depois de lembrarmos tudo isso, rezemos para que Nossa Senhora nos livre do flagelo do comunismo. Rezemos também pelas almas dos padres conciliares e do papa, que tomaram tão catastrófica decisão. Rezemos pelos cubanos.


Este artículo puede difundirse y publicarse por cualquier medio, libremente, especialmente en el Brasil. Si fuera posible, comunique su publicación y/o su valiosa opinión a armandovalladares2013@gmail.com. Agradezco enormemente a los millares de blogueros y twitteros cubanos y del mundo entero que están difundiendo en Internet mis artículos, contribuyendo decisivamente a traspasar las murallas de censura y de silencio

Desde el punto de vista de los derechos humanos,  el viaje a Cuba de la presidenta del Brasil, Sra. Dilma Rousseff, constituyó un desastre inimaginable para el pueblo cubano y para sus esperanzas de libertad. En ese sentido, el referido viaje presidencial podrá ser inscrito en el libro negro de las vergüenzas de nuestro tiempo y de nuestro continente. Con su silencio total sobre la violación sistemática de los derechos de Dios y de los hombres en la isla-cárcel desde hace más de cincuenta años, la presidenta de la mayor potencia de América Latina y una de las mayores potencias del mundo dio implícitamente luz verde para que el régimen continúe persiguiendo impunemente a los opositores, matándolos de sed en las prisiones, reprimiendo a las Damas de Blanco y manteniendo prisioneros, sin poder salir y entrar libremente, a 11 millones de cubanos. También en ese sentido, la Sra. Rousseff, una ex guerrillera que nunca se arrepintió públicamente de su pasado, se transformó, a partir de su reciente viaje a La Habana, en corresponsable por los atropellos y crímenes que cometa en adelante el régimen comunista, alentado en sus salvajerías por tan gigantesco aval recibido.

segunda-feira, novembro 28, 2011

50 anos de Vaticano II: Dom Mayer nos ajuda a entender a confusão.

Muitos, mais jovens, talvez nunca tenham ouvido um bispo de verdade, um bispo falando “sim sim não não” (Mt.5,37), um bispo que fosse um digno sucessor dos apóstolos, um bispo que não dissesse por exemplo: “A gente não pode dizer que só se salvam aqueles que são católicos”. Ou, se quiserem mais um exemplo, este do Arcebispo de Belo Horizonte, vejam este artigo. Pode haver coisa mais dúbia, mais “talvez talvez”? Uma frase apenas: “Ser bom é ser honesto. É alavancar projetos que produzem vida e fecundam a cidadania com valores, que não se reduzem às posses.”

Bem, esta é a fala atual de nossos bispos; quando não pastosa, francamente herética. Não assim com Dom Antônio Castro Mayer, bispo de Campos e um grande homem de Deus. Nas décadas de 1970 e 1980, o pastor procurou ensinar suas ovelhas tudo sobre a crise conciliar e sobre a sua dimensão. Ensinar de modo simples, de modo claro, de modo preciso; estes os objetivos de Dom Mayer. Abaixo transcrevo um de seus textos em que ele explica a relação do Papa com a Igreja. Faço isso em conexão com recentes discussões no blog a respeito do assunto.

Insisto com os leitores que a crise é grande, complexa e de difícil compreensão, pois envolve discussões doutrinárias e teológicas de peso. Já comentei uma lista de livros que dá ao leitor a correta compreensão da crise. Aos pouquinhos, vou publicando alguns artigos de Dom Mayer para clarear a confusão na cabeça de muitos.

Note, sobre o artigo que vai abaixo, que ele é anterior ao famigerado Encontro de Assis de 1986, que tanto escândalo provocou na Igreja, mas menciona o já então evidente “interconfessionalismo” de João Paulo II.

______________________
Papa-Igreja
Monitor Campista, 22/07/1984
O Pensamento de Dom Antônio Castro Mayer: textos selecionados (1972-1989)
Editora Permanência, 2010.
***

Os aforismos são uma espécie de comprimidos. Concentram numa frase curta todo um corpo de doutrina. Mas, por seu próprio laconismo, podem dar margem a concepções errôneas. Em Eclesiologia, é conhecido o adágio ubi Petrus ibi Ecclesia – onde Pedro, aí a Igreja – que se completa com outro, ubi Papa, Petrus – onde o Papa, aí Pedro. Estas duas simples expressões compendiam a Revelação sobre a Igreja de Deus, constante das palavras proferidas por Jesus Cristo, em Cesaréia de Felipe: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” acrescidas destas outras ditas pelo Salvador, ao se despedir dos apóstolos: “Eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos” (Mt. 28, 30).

Nem sempre se atenta para o significado preciso dos termos Pedro e Papa. Esta negligência pode levar a conclusões absurdas. Se, sem atenuante alguma, identifica-se a pessoa física de Pedro com a rocha, sobre a qual Jesus edificou a sua Igreja, de maneira que sempre onde se tivesse a pessoa física do Príncipe dos Apóstolos aí estivesse a Igreja, chegar-se-ia à conclusão que, já no seu nascedouro, a Igreja teria apostatado de sua pedra angular, Cristo Jesus. Pois foi, conforme narra São Marcos (14, 71), o que fez São Pedro, amedrontado pela porteira do Sinédrio quando ali compareceu o Divino Mestre, preso diante de Anás e Caifás. E São Pedro apostatou de maneira solene: com juramentos e anátemas!

A conclusão semelhante se chega, se se admite, de modo absoluto, que onde está o Papa, aí está Pedro, aí está a Igreja. A grande prerrogativa do Papa, como chefe da Igreja, é a infalibilidade. Ora, a infalibilidade não torna o Papa impecável, e ela está sujeita a umas condições que, uma vez não verificadas, deixam o Sumo Pontífice sujeito aos azares da fragilidade humana; de maneira que, mesmo agindo como Papa, pode enganar-se e levar outros ao erro. Cita-se, neste ponto, a atitude de São Pedro, repreendido publicamente por São Paulo, porque Antioquia, então, era a sede primacial da Igreja (daí é que ela passou para Roma). Mais concludente é o exemplo de Honório I, Papa de 625 a 638, que foi censurado pelo Terceiro Concílio de Constantinopla (DS. 552) e pelo Papa São Leão II porque “(...) permitiu, por uma profana traição, que se maculasse a imaculada Fé desta Igreja apostólica” (DS. 563 [grifo nosso]).

Estas reflexões, tenha-as o fiel presentes, especialmente nos dias que correm, em que o Concílio Vaticano II teria aberto uma “nova etapa” para a Igreja, do conúbio amigável com a heresia! Servem também para elidir as acusações, fruto da ignorância ou má fé, ou de ambas, contra os que rejeitam o interconfessionalismo de João Paulo II, porque crêem no dogma da Fé: fora da Igreja não há salvação (Conc. Latrão IV, DS. 802).

sexta-feira, agosto 12, 2011

Crônicas de Gustavo Corção em pleno século XXI! Quem diria!?

Surpresa agradabilíssima ver um livro de crônicas do grande Corção publicado em pleno 2010 (Coleção Melhores Crônicas: Gustavo Corção, Editora Global). A seleção das crônicas e o prefácio da edição foram feitos por Luiz Paulo Horta, que desde 2008, leio em sua biografia no final do livro, é membro da ABL. 

No livro, (re)encontramos crônicas que são verdadeiras aulas de catecismo e doutrina católica: Advento, A Primazia do Espiritual, Quaresma, As Duas Vontades, Ressuscitou!, Precisa-se de uma Catarina de Sena, Rue du Bac, A Civilização do Prazer, Quinta-Feira Santa, Marcos de Eternidade, De Profundis, Credo in unum Deum, Morte e Mortificação, E Nós nos Gloriamos na Cruz. Há algumas crônicas que poderíamos classificar como chestertonianas, como Vênus e Natal Interior. Há crônicas de muito lirismo, algumas de crítica literária e musical; há algumas extraídas do grande livro de Corção, O Desconcerto do Mundo, que Manuel Bandeira saudou como digno de Prêmio Nobel, como o texto Machado de Assis e o Eclesiastes (aqui e aqui).

O livro ganharia muito se o Sr. Horta o tivesse acrescido de informações bibliográficas e de um pequeno estudo crítico do Corção cronista. A maioria das crônicas vem sem data e local da publicação original, o que dificulta, para o leitor recente de Corção, a apreensão das circunstâncias sob as quais o cronista escrevia. 

No prefácio, o Sr. Horta não consegue esconder sua admiração pelo grande lutador católico e pelo grande escritor, mesmo que esta admiração venha mitigada por críticas às suas posições políticas pós-64 e às sua posições teológico-doutrinais pós-CVII. Já o título do prefácio revela, talvez, o elevado lugar que o Sr. Horta reserva para Corção; Sinal de Contradição. 

Mas é exatamente no pequeno texto do prefácio, que o selecionador, e prefaciador, se mostra em confusão, ou mesmo em contradição. Não sei se o Sr. Horta é católico, mas suponho que sim. Sendo católico e um intelectual, membro da mais alta academia literária do país, ele nos surpreende por sua ingenuidade, na melhor das hipóteses, e aparente desconhecimento da gravíssima crise atual da Igreja, que já era anunciada e profundamente sentida por Corção. Ele diz, por exemplo: “João XXIII queria o aggiornamento da Igreja, uma Igreja que prestasse mais atenção aos ventos da modernidade, que se inserisse na vida de todos os dias. E isso de fato aconteceu; já não conseguimos pensar a Igreja sem o Vaticano II, com a sua valorização dos leigos, a reforma da liturgia que acabou com a missa em latim, e assim por diante.” Alguém que conhece minimamente o pensamento de Corção, não consegue deixar de imaginar o que ele diria acerca de tal comentário. O Sr. Horta subscreve certamente as idéias modernistas, condenadas pelo Papa São Pio X como a síntese de todas as heresias. Se ele não consegue pensar a Igreja sem o Vaticano II, é porque ele não consegue pensar a Igreja de forma nenhuma, pois há uma notícia que tem de ser dada ao prefaciador: a Igreja começou uns dois milênios antes desse concílio. Ora, dizer que o concílio “acabou com a missa em latim”, sem dizer, no mínimo, algo sobre o Summorum Pontificum, em pleno ano de 2010, é, desculpem-me a expressão, de lascar! Suponho também que a valorização dos leigos seja o aparecimento dos famigerados ministros da Eucaristia, da Comunhão da mão e de pé, das leituras feitas por leigos e leigas, etc. Isto não tem nada de catolicismo verdadeiro, é preciso dizer. 

O Sr. Horta continua: “No nosso cenário brasileiro, Alceu Amoroso Lima empunhou decididamente a bandeira dos ‘otimistas’, E, desde então, é difícil achar quem ainda sustente a tese de que o Vaticano II foi uma ameaça aos alicerces da Igreja.” É de se perguntar como um “imortal” pode ser tão ... (estou procurando uma palavra mais cordial) ... tão ... vá lá! desconhecedor de uma Fé que ele parece professar? Onde vive o Sr. Horta? Que paróquia freqüenta? Meu Deus! Será que ele já ouviu falar de Michael Davies, de Romano Amério, do cardeal Ottaviani, de Gherardini? Será que ele tem acompanhado as declarações atuais, ao menos, do episcopado brasileiro? (Vejam aqui e aqui, por exemplo.) Não sabe ele que mesmo Roma admite haver muitos, muitos bispos hereges? (Vejam aqui). Não terá o Sr. Horta lido Nelson Rodrigues, outro grande cronistas brasileiro, sobre Alceu Amoroso Lima, D. Hélder Câmara e os padres de passeata, que poucos anos depois do concílio já surgiam no cenário eclesiástico? Será que o Sr. Horta nunca leu Mt 7, 15-20? De um simples leigo católico pode-se desculpar um desconhecimento deste; não de uma intelectual, membro da Academia Brasileira de Letras. 

De qualquer forma, o livro com as crônicas de Corção vale pela lembrança do grande católico, do grande escritor e do grande chestertoniano brasileiro. O Sr. Horta e a Editora Global prestam, neste sentido, um serviço à memória do grande cronista e aos seus leitores, já antigos e os mais recentes.

sexta-feira, julho 15, 2011

Chesterton e o Concílio Vaticano II

Leio e, até certo ponto, me divirto com uma afirmação de Andrew Greeley – na Introdução à nova edição de Gilbert Keith Chesterton, de Maise Ward, Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 2006 – que diz: “G.K.C. teria amado as energias repletas de esperança geradas pelo Vaticano II, embora tivesse se chocado pelo irrefletido entusiasmo de alguns daqueles cuja imaturidade foi liberada por excessivos goles do inebriante vinho da mudança.” De certo, o Sr. Greely pensa que os problemas do Vaticano II estão na excessiva sede com que se foi ao pote. Aparentemente, não há problemas com o pote em si.

Concedo que Chesterton inicialmente pudesse ter ficado um pouco aturdido. Conheço três exemplos de proeminentes católicos que não conseguiram de pronto ter a dimensão do desastre. Michael Davies conta no Pope John’s Council, que ainda em 1972, “eu, como Dr. Von Hildebrand, mantinha a opinião de que os documentos do Concílio eram impecáveis e que o caos atual era o resultado de eles estarem sendo negados ou ignorados”. Davies candidamente admite que só depois de ter lido O Reno se lança no Tibre, isto em 1973, é que “um claro padrão começou a emergir” em sua mente. Ou seja, depois de quase 10 anos de promulgado o Concílio dois grandes católicos ainda estavam iludidos sobre o Concílio.

O terceiro exemplo é Gustavo Corção, que em Dois Amores, Duas Cidades, de 1967, diz: “Não creio, sinceramente, que o principal desse Concílio foi a renovação que trouxe, e que a Igreja sempre procura de tempos em tempos; creio antes que a magnífica, a principal mensagem do Concílio foi a da continuidade, da afirmação da identidade da Igreja consigo mesma, ou da maior consciência dessa identidade que resiste a todos os solavancos do século.”

Davies, von Hildebrand e Corção se recuperaram do torpor inicial e viram a verdadeira face do Concílio e o desastre que ele semeou na Igreja. Numa carta a Michael Davies, em 1976, von Hildebrand, por exemplo, já com as idéias no lugar diz: “Enfatizo sempre em minhas conferências e artigos que felizmente nenhuma palavra do Concílio – a menos que seja uma repetição de definições de fide anteriores – nos obriga de fide. Não precisamos aprovar – ao contrário, devemos desaprovar.”

Assim também Chesterton, se vivo fosse, talvez se enganasse inicialmente também. Mas depois ...

Fico pensando qual teria sido a reação de Chesterton, um tomista de quatro costados, com a atitude quase anti-metafísica e humanista do Concílio. Fico pensando o que o grande escritor inglês teria a dizer sobre as seguintes palavras:

“... A Igreja do Concílio [Vaticano II] se ocupou bastante do homem, do homem tal qual ele se apresenta em nossa época, o homem vivo, o homem todo ocupado consigo mesmo, o homem que se faz centro de tudo aquilo que o interessa, mas que ousa ser o princípio e a razão última de toda a realidade... O humanismo laico e profano, enfim, apareceu na sua terrível estatura, e, em certo sentido, desafiou o Concílio. A religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus. Que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isso poderia ter acontecido, mas isso não aconteceu. A antiga história do samaritano foi o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma imensa simpatia o [o Concílio] investiu inteiramente. A descoberta das necessidades humanas absorveu a atenção deste Concílio. Reconhecei-lhe ao menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que haveis renunciado à transcendência das coisas supremas, que saibais reconhecer o nosso novo humanismo: também nós, Nós, mais que qualquer outro, nós temos o culto do homem.” (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965).

Fico pensando o que Chesterton diria e penso que sei o que ele teria dito exatamente; teria dito o que disse em seu ensaio Será o humanismo uma religião?, do livro “A Coisa”, que ele escreveu depois de sua conversão. Aqui ele diz: a questão “é se o que ele (Norman Foerster) chama de humanismo pode satisfazer a humanidade. (...) Temo que respondê-la seriamente deva significar respondê-la pessoalmente. A questão é realmente se o humanismo pode desempenhar todas as funções da religião; e não posso evitar considerá-la em relação à minha própria religião. (...) Todavia, minha primeira obrigação é responder à questão a mim colocada; e eu a devo responder negativamente.”

O que dizer da reação do escritor ao ato de devolução, aos turcos, das bandeiras gloriosamente conquistadas por combatentes católicos em Lepanto, sob a proteção de Nossa Senhora, invocada na oração do Rosário pelo grande Papa São Pio V. Lepanto, não por coincidência, é o título de um poema de Chesterton, que Belloc considerava um dos mais belos jamais escritos.

Entretenho ainda o pensamento do grande escritor tendo a notícia acerca da Teologia da Libertação, filha dileta do Vaticano II. Diriam a ele que hordas de bispos e padres consideravam Cristo um Marx avant la lettre; que finalmente havia um sistema político-econômico-religioso que implementava todas as virtudes pregadas por Cristo: era o comunismo tornado doutrina religiosa. Como ficaria o pequeno coração do imenso Chesterton? Como ele ficaria ao saber do famigerado acordo de Metz, em que Papa Paulo VI se comprometeu a não condenar o comunismo para que a União Soviética permitisse a presença, no Concílio, de uns poucos ortodoxos russos?

Lamento informar, mas não concordo nem um pouco com o Sr. Greely. Penso que Chesterton deploraria os acontecimentos, as energias e grande parte dos documentos do Vaticano II. Penso que ele escreveria um livro da espécie que Michael Davies escreveu: Apologia Pro Marcel Lefebvre. Penso que ele faria a mesma comparação que Michael Davies faz, no prefácio de seu Saint Athanasius: Defender of the Faith, entre Dom Lefebvre e Santo Atanásio: “Ambos, o santo e o arcebispo, agiram do lado de fora das estruturas hierárquicas normais a fim de sustentar o que afirmavam ser a tradição católica verdadeira, ambos encontraram apoio em fiéis leigos remanescentes, ambos fossem repudiados por quase todos os seus companheiros bispos, e ambos sofressem a agonia de terem sido excomungados pelo papa de seus dias.”

Penso que ele concordaria com a análise de von Hildebrand sobre o Concílio. Penso que ele concordaria com Marcel de Corte em seu “A Inteligência em Perigo de Morte”: “Jamais se poderão medir as conseqüências para a Igreja e a humanidade dessa catástrofe provocada por uma gangue de Padres conciliares que tinham uma inteligência sem bússola.”

Penso que ele concordaria com Gustavo Corção: “Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra.”

Lembro, para finalizar, uma frase de Chesterton que mostra um aspecto às vezes oculto da crise da Igreja: “Muitos são os convertidos que chegaram a um estágio em que nenhuma palavra vinda de protestantes ou pagãos pode contê-los mais. Somente a palavra de um católico pode afastá-los do catolicismo. Uma única palavra estúpida vinda desde dentro pode causar mais dano do que centenas de milhares vindas desde fora.”

Não, Chesterton não cerraria fileiras com os modernistas!

sábado, julho 02, 2011

Chesterton e a Nova Teologia

Stanford Nutting (brincadeira fonética com "stand for nothing", ou seja, "apoiador de coisa nenhuma") compele Chesterton a falar sobre a Nova Teologia, aquela que nos impingiram depois do Concílio Vaticano II. Chesterton não deixa por menos: desaprova todas as novas teologias que pululam por aí!

Este vídeo faz parte de um projeto do Blog do Angueth.


quinta-feira, junho 30, 2011

50 anos de Vaticano II: os livros que temos e os que ainda nos faltam.

Depois de 50 anos de crise, muita gente já escreveu sobre ela. Grandes livros já foram traduzidos para o português e estão à nossa disposição. Da Editora Permanência, temos O Reno se lança no Tibre e Do liberalismo à Apostasia: a Tragédia Conciliar. Temos um estudo inicial, do Cardeal Alfredo Ottaviani, sobre a Missa Nova. Temos, da Editora Sétimo Selo, A Candeia Debaixo do Alqueire, que se encontra esgotado. Temos ainda o impressionante O Derradeiro Combate do Demônio,  do Padre John Kramer.

Mas nos faltam, em vernáculo, alguns importantes livros, que as editoras brasileiras bem poderiam pensar em editar até 2012, nos 50 anos de Vaticano II. 

Refiro-me primeiramente ao magistral Iota Unum, de Romano Amério. Esta obra de Amerio é fundamental para o entendimento dos frutos do Concílio. Está tudo lá, muito bem explicado, com os fundamentos filosóficos, teológicos e doutrinários de todas as mudanças ocorridas na Igreja depois do Concílio. Não há livro mais necessário para o entendimento da crise que este.

Depois temos a trilogia de Michael Davies: Cranmer’s Godly Order, Pope John’s Council e Pope Paul’s New Mass.

Esta trilogia é obra fundamental sobre a revolução litúrgica proporcionada pelo Vaticano II.  Esta trilogia ainda está em edição, pela Angelus Press.

Michael Davies, segundo depoimento de seu próprio filho, Adrian Davies, considerava esta trilogia como seu principal trabalho, dentre uma infinidade de outros. Certa vez, ano passado, entrei em contato com Adrian, por meio da Angelus Press, e ele me disse que os direitos autorais para o português estão disponíveis. Disse-me ainda que Michael Davies, se estivesse vivo, ficaria muito feliz por suas obras aparecerem em português, pelo carinho que ele tinha com Portugal. Na época, não consegui editora interessada na compra dos direitos e na tradução da trilogia.

Há ainda o grande livro de Marcel de Corte, A Inteligência em Perigo de Morte. Alguns trechos deste livro apareceram no jornal SIM SIM NÃO NÃO. Alguns textos de de Corte podem ser encontrados no sítio da Permanência. Mas é fundamental a tradução do livro!

Rezemos para que alguma editora católica brasileira se anime agora a empreender a tradução e edição destas obras indispensáveis sobre a crise da Igreja.

sexta-feira, junho 24, 2011

50 anos de Vaticano II: Roma sabe que há muitos bispos hereges.

Alguns amigos me perguntaram, depois do post sobre o Arcebispo de Maringá, se não se devia escrever algo e enviar a Roma. Eu me mostrei um pouco desanimado e sugeri que rezássemos à Santíssima Virgem. 

Agora, D. Fellay confirma que Roma sabe que há bispos e padres hereges; e aos borbotões. Ele diz, em artigo do Fratres: “E eis as palavras que ouvimos da boca do Secretário da Congregação para a Fé [Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ]: ‘O senhor sabe, são os padres, os bispos, as Universidades Católicas que estão repletos de heresias!’ Aí está o que nos disse, em junho de 2009, o Secretário da Congregação para a [Doutrina da] Fé!Notem a expressão: repletos de heresias! 

Um leitor me enviou, em comentário já publicado, um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=Lf40OrusE-U&t=2m23s) de Dom Anuar Battisti, de Maringá, em que ele nega deslavadamente o dogma Extra Ecclesiam nulla sallus. 

E a CNBB vai comemorar 50 anos de abertura do Concílio Vaticano II. Será temerário dizer, 50 anos de heresia?

quinta-feira, junho 23, 2011

50 anos de Vaticano II: Bispo nega o dogma Extra Ecclesiam nulla sallus.

Ainda com as palavras da maravilhosa Sequentia da Missa de Corpus Christi nos meus ouvidos (Lauda, Sion, Salvatorem, ... Laudis thema specialis/Panis vivus et vitalis/Hódie proponitur ...), composta por Santo Tomás de Aquino, fico sabendo, por minha amiga Ana Maria (que já noticiou em seu blog), que Dom Luiz Bergozini, em palestra no dia 20 próximo passado, negou o dogma EXTRA ECCLESIAM NULLA SALLUS, promulgado pelo IV Concílio de Latrão, em 1215.

Por volta dos 16 min. da palestra o bispo afirma: “A gente não pode dizer que só se salvam aqueles que são católicos”.

Como já fez com Dom Anuar, este blog vai ajudar Dom Bergozini e lembrar-lhe as determinações do IV Concílio de Latrão, em relação ao dogma por ele “esquecido”.

Diz o texto do Concílio, primeiro em latim e depois em português:
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Una vero est fidelium universalis Ecclesia, extra quam nullus omnino salvatur, in qua idem ipse sacerdos est sacrificium Iesus Christus, cuius corpus et sanguis in sacramento altaris sub speciebus panis et vini veraciter continentur, transubstantiatis pane in corpus, et vino in sanguinem potestate divina: ut ad perficiendum mysterium unitatis accipiamus ipsi de suo, quod accepit ipse de nostro.

Ora, existe uma Igreja universal dos fiéis, fora da qual absolutamente ninguém se salva, e na qual o mesmo Jesus Cristo é sacerdote e sacrifício, cujo corpo e sangue são contidos verdadeiramente no sacramento do altar, sob as espécies do pão e do vinho, pois que, pelo poder divino, o pão é transubstanciado no corpo e o vinho no sangue; de modo que, para realizar plenamente o mistério da unidade, nós recebemos dele o que ele recebeu de nós.
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Portanto, o texto do Concílio coloca magistralmente em relevo a estreitíssima ligação entre o dogma da salvação e o sacramento da Eucaristia. Vejam onde tocam as afirmações do bispo Bergozini, vejam a gravidade de suas palavras.

Que Nossa Senhora olhe por todos nós!

domingo, junho 05, 2011

50 anos de Vaticano II: uma visão bem humorada da teologia conciliar

Já disse aqui que vou me preparar para os 50 anos do Vaticano II, lembrando seus frutos, que são, segundo o Nosso Senhor, o modo de discernir o bem e o mal. Hoje, temos um vídeo bem humorado, mas tristemente verdadeiro sobre a teologia conciliar e até da liturgira conciliar.

Uma nota prévia ao vídeo: note que a editora que publica o compêndio teológico pós-moderno é a Agnatius, em contraposição à editora Ignatius, que publica obras católicas de peso e que é também mencionada. Note também a referência a um compositor, Marty Haugen, de músicas litúrgicas pastosas, características da Missa Nova.


sexta-feira, maio 13, 2011

50 anos de Vaticano II: contribuições de um católico perplexo

Nota do blog: Tenho mostrado, neste blog, minha perplexidade com a situação da Igreja pós-conciliar. Com ela a tira-colo, escrevi um pequeno livro. Com ela, novamente, tomo conhecimento da comemoração dos 50 anos do Concílio Vaticano II (isto é, do início dos trabalhos conciliares, em 11 de outubro de 1962) que está sendo preparada para o ano que vem (os milenaristas de sempre bem podem ter razão agora; em 2012, talvez o mundo acabe!). Decido, também com ela, participar, não da comemoração, mas da lembrança, terrível lembrança, dos 50 anos pós-conciliares. Vez ou outra, vou escrever algo sobre estes anos aqui no blog. Começo hoje, dia 13 de maio (A 13 de maio, na Cova da Iria, no céu aparece a Virgem Maria!), data expressiva e irremediavelmente ligada ao Vaticano II, pois, segundo as mais abalizadas opiniões, Nossa Senhora teria ordenado não convocar o Concílio e nem alterar a Missa de Sempre. Começo com as impressões de Nelson Rodrigues que, já disse aqui, é mais católico que a CNBB. O trecho que vai abaixo é da crônica de 5/4/1968 (o Concílio tinha pouco mais de 2 aninhos, pois promulgado em 8 de dezembro de 1965, e já mostrava todo o seu “potencial”), intitulada “Os Dráculas”. Os negritos são todos meus.

Que Nossa Senhora de Fátima nos proteja neste furacão conciliar!
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Quero crer que certas épocas são doentes mentais. Por exemplo: – a nossa. Ainda anteontem, falei da idéia inusitada de D. Hélder. O nosso querido arcebispo propõe uma missa cômica (se duvidarem, leiam a última edição dominical de O Jornal). Por trás de suas palavras, sentimos o tédio cruel de uma missa que se repete, com uma monotonia já irrespirável, há 2 mil anos. E ele sugere que se substitua o órgão, o violino, a harpa, o címbalo, pelo reco-reco, o tamborim e a cuíca. 

Por aí se vê que ele, como o dr. Alceu,[1] é um progressista. Não sei se o leitor entendeu todo o alcance da sugestão.[2] D. Hélder propõe, se bem o entendi, que se enfie o sobrenatural na gafieira ou por outra: – que se faça da catedral uma gafieira gótica. Parece ao arcebispo de Olinda que se pode louvar a Deus, igualmente ou até com vantagem, com a cuíca, o pandeiro, o reco-reco e o tamborim

A missa, como a conhecemos, nos últimos vinte séculos, é triste, é depressiva, é neurótica. E quem sabe se a Virgem, se Jesus, se os santos não hão de preferir, por fundo musical, o samba? Seria uma boa maneira de espanar o pó que 2 mil anos depositaram em certas representações católicas. 

Mas falei de épocas que parecem doentes mentais. Só em nossos dias um arcebispo poderia irromper num jornal, na televisão ou rádio e lançar a idéia da missa cômica. Estamos pertinho da Semana Santa. É o caso de, na Sexta-Feira da Paixão, cada um levar seu reco-reco, sua cuíca, seu tamborim e seu pandeiro. Nada de lúgubres e mórbidas procissões. E chorar por que, se tristezas não pagam dívidas? Mas, como eu ia dizendo: – se em qualquer outra época, de razoável sanidade, alguém sugerisse tal coisa, seria um escândalo inominável. Em sua indignação, os fiéis dariam arrancos triunfais de cachorro atropelado. Hoje, não. 

Hoje, achamos perfeitamente normal que se instale a vida eterna numa gafieira. Daqui a pouco, um outro há de propor que, dentro das igrejas, garçons passem bandejas de salgadinhos, mães-bentas, caldo de cana, grapete e chica-bon.[3] Mas volto à minha observação anterior: – d. Hélder não espantou ninguém. Não houve escândalo, ninguém arrancou os cabelos etc. etc. 

Essa impotência para o espanto dá que pensar. Eis o que me pergunto: – e por que, meu Deus, por quê? Vejo católicos justificando a guerrilha, achando a guerrilha uma atividade nobilíssima. E o dr. Alceu só não a recomenda para o Brasil, porque, diz ele, os nossos camponeses não são politizados. Eu me lembro de que, antes da esquerda católica, não tínhamos dráculas neste país. 

E já os temos. Amaldiçoados? Não. Abençoados. Sim, abençoados, absolvidos por respeitáveis homens de fé. (...) 

Não quero ser enfático. Mas me parece estar havendo, no Brasil, uma degringolada de valores. Vimos d. Hélder propor a missa cômica; e ninguém se espantou. Vimos o dr. Alceu declarar que, por causa de um passarinho, pode-se matar um homem. Uma coisa está ligada à outra e ambas se explicam. Se d. Hélder pode propor a gafieira gótica, e se o dr. Alceu absolve um monstruosíssimo assassinato (se bem que hipotético), tudo é permitido e vale tudo.[4]    


[1] Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Atayde. (Nota do blog.)
[2] Nós, depois de 50 anos, não só entendemos o que D. Hélder estava propondo, como sabemos no que deu sua proposta! (Nota do blog.)
[4] Esta é a versão rodriguiana do Lex orandi, lex credendi. (Nota do blog.)

sábado, novembro 13, 2010

Mais um fruto do Concílio Vaticano II

Outro dia, publiquei um post, Frutos do Concílio Vaticano II, sobre um padre herege vociferando contra a Tradição da Igreja. As eleições no Brasil mostraram muito bem o quanto a heresia já penetrou no conjunto de padres e bispos brasileiros, de forma que talvez possamos concordar com Chesterton quando ele diz: “No passado, o herege se orgulhava de não ser herege. (...) O homem orgulhava-se de ser ortodoxo, orgulhava-se de estar certo. (...) Mas umas poucas frases modernas o fizeram vangloriar-se disso. Ele diz, com um sorriso consciente, “Acho que sou muito herético”, e olha para os lados à procura de aplauso. A palavra “heresia” não somente significa não estar errado; praticamente significa ser inteligente e corajoso.” É claro que a eleição só deixou a situação mais clara para quem não acompanha mais de perto a crise da Igreja depois do CVII.

Agora, um leitor, de nome Ricardo, me envia um comentário, com várias perguntas, no post A Igreja primitiva, uma vez mais. Ele começa o comentário com essas afirmações: “Angueth, sou católico-romano, mas faço uma pergunta aos leitores do blog: em que podemos basear essa exclusividade da Igreja Católica Romana? Muitos talvez pensem que, por eu estar fazendo este questionamento, não sou mais católico-romano. Pode ser, mas a pergunta continua: qual o fundamento desse exclusivismo?

Muitas coisas ocorrem a quem lê tais afirmativas. Primeiramente, ele admite que talvez não seja católico – “pode ser, mas a pergunta continua”. De outro lado, vemos que está disposto a deixar de ser católico por não saber responder a si mesmo a razão de a Igreja ser verdadeira e seus inimigos, falsos. Um católico assim é de fato um ser muito estranho.

Mas como condenar nosso pobre leitor, que é um fruto maduro do CVII? Como condenar seu protestantismo que já aparece bem nítido, quando tudo isso era previsível já logo depois do Concílio? De fato, os cardeais Ottaviani e Bacci escreveram ao Papa Paulo VI, dizendo sobre a nova liturgia (Novus Ordo): “Quiseram passar uma esponja em toda a teologia da Missa. Terminou como algo muito próximo da teologia protestante que destruiu o sacrifício da Missa”. Vários eminentes teólogos e observadores protestantes comemoravam o Concílio como uma capitulação da Igreja ao protestantismo, como o fim da era tridentina, como a negação do Concílio de Trento. Michael Davies cita vários destes depoimentos em seu livro “Pope John’s Council”. Por exemplo, Oscar Cullman, importante teólogo suíço, declarou: “As esperanças dos protestantes com relação ao Vaticano II não só foram cumpridas, mas as realizações do Concílio foram muito além do que se acreditava possível”.

Quem frequenta as missas modernas e principalmente lê o folheto O DOMINGO, tem uma grande chance de se tornar protestante, ou algo parecido ao leitor Ricardo. Sugiro a todos que lêem meus comentários a este famigerado folheto nos links aqui do lado direto. Daí vem a segunda forte impressão das frases inicias do comentário do Ricardo: o que ele pensará da Sagrada Comunhão? Como ele a recebe, todas as vezes que ele comunga? Será que ele relativiza a Eucaristia da mesma forma que ele relativiza a verdade? É muito possível que sim. Mas, de novo, como condená-lo? Como condená-lo, quando os próprios padres não respeitam a Presença Real na Hóstia Consagrada? Como condená-lo, se todos recebem a Comunhão na mão?

A situação terrível em que se encontra o leitor Ricardo é a da maioria dos católicos de hoje. É a situação terrível da crise monumental da Igreja. Neste ambiente, de que adianta dizer ao Ricardo que a Igreja é o único verdadeiro depósito da Fé, em contraposição com as mais de 30.000 denominações protestantes espalhadas pelo mundo? De que adianta dizer-lhe que a Presença Real, assim como todos os outros Sacramentos, está SOMENTE, na Santa Igreja Católica? Os católicos já não têm capacidade de acreditar, não na Igreja, não no Poder das Chaves, mas que existe verdade. Pois a mais poderosa arma contra o catolicismo não é a destruição da Fé em si, mas a destruição da Razão. Com a destruição da Razão, que foi promovida pelo Racionalismo, filho da Reforma, destruiu-se, na mente de todos, o conceito de Verdade. Sem este conceito, não há como ascender do imanente ao transcendente, da matéria ao espírito, do natural ao sobrenatural. O homem é assim desligado de sua essência transcendente e então, só então, todas as religiões podem ser comparáveis.

Quem tem a razão destruída pelo racionalismo não percebe as mínimas contradições lógicas das várias doutrinas e é incapaz de contemplar com admiração a extraordinária coesão lógica do edifício da Igreja Católica Apostólica Romana. Por exemplo, o leitor cita, de passagem, a doutrina da “sola scriptura”. Esta doutrina é logicamente auto-contraditória. Alguém que afirme que só acredita doutrinariamente no que está literalmente dito na Bíblia e em nada mais, desconhecendo como ilegítimo tudo o que a Tradição da Igreja declara, não percebe que para fazer isto sem contradição, seria preciso que a doutrina da “sola scriptura” estivesse expressa literalmente na Bíblia, o que não é verdade. Ou seja, ele acredita, em termos doutrinários, em algo externo à Bíblia, o que contraria sua afirmação inicial. Não é surpresa que o racionalismo trouxe uma era de misticismo irracional sem precedentes. Todas as mais loucas crenças orientais e também ocidentais invadiram nossa civilização, depois do ataque do racionalismo.

A confusão mental que se instalou transparece claramente no comentário do leitor, que depois de fazer uma quase declaração protestante, critica, ao final de seu comentário, os modernistas e liberais católicos, não percebendo que o modernismo (se é que ele está falando de modernismo na concepção de São Pio X) entrou na Igreja justamente por meio daqueles que subscreviam a heresia protestante, via doutrina do liberalismo. Ele não percebe que é MODERNISTA, até a medula.

Que dizer ao leitor, exceto sugerir-lhe que reze a Nossa Senhora para que ela lhe ilumine com a Graça da Santíssima Trindade, que cuide para que sua Razão não seja tragada pelo liberalismo protestante, que cuide para que sua Fé não seja destruída pelos padres modernistas e pela Missa Nova, para que ele perceba que antes de doutrina, antes de teoria, o catolicismo é uma PRESENÇA, que se atualiza em cada HÓSTIA SAGRADA e que garante que a Igreja Católica é a ÚNICA verdadeira, por onde, através dos Sacramentos, flui a graça de Deus?

segunda-feira, outubro 18, 2010

Frutos do Concílio Vaticano II

Nota do blog – vai abaixo um texto que embrulha o estômago. Foi postado, como comentário no FratresInUnum, por Cândido. Quem poderia imaginar, há quatro décadas, que teríamos um porta-voz do demônio como pároco da Santa Igreja Católica, usando de tanta loquacidade abjeta. Finalmente vemos à luz do dia o resultado da ambigüidade do texto conciliar, do espírito do concílio e, finalmente, da apropriação da Igreja por hordas de padres e bispos hereges. Termos de ler um padre usar a expressão efeminada “Que tiririquice!” é demais. Proponho a todos os católicos que conseguirem chegar ao final do texto, que façamos uma penitência para desagravar o Coração Imaculado de Maria e o Sagrado Coração de Jesus de tantas ofensas.

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ABORTANDO A ELEIÇÃO

* Por Padre Otto Dana, via Blog do Luís Nassif

Brasileiros e brasileiras! O capeta está solto! Empunhemos nossos terços e Bíblias e até Alcorões, se os houver! Herodes brande a espada afiada contra as criancinhas do Brasil! Ergamos a fogueira! Queimemos os hereges! O aborto e os gays estão espreitando pela janela!

Gente do céu! Que tiririquice! Que babaquice mais que medieval. Que onda inquisitorial graçando em pleno século XXI. A caça às bruxas. O extermínio dos veados. Cruz, credo! Xô Satanás! Estamos apenas tentando eleger um Presidente para o Brasil. Estamos discutindo propostas e projetos para uma boa administração do Brasil. Aborto, gueisismo, pílula, camisinha não é prioridade do momento.

O processo eleitoral corria tranquilo, dentro dos princípios democráticos: discute-aqui- denucia-ali, promete-isso, condena-aquilo, tudo numa boa. De repente a serenidade é detonada por uma horda de aiatolás, talibãs, mulás, numa gritaria ensurdecedora contra os que ameaçam o poder do Altíssimo.

Alguns vestidos de batina (ainda!), outros de mitra e báculo, outros de terno e gravata ostentando Bíblias, todos ecumenicamente de dedo em riste acusador: “ela é a favor do aborto, ele apóia o casamento homem-com-homem, mulher-com-mulher, os dois defendem a distribuição de camisinhas até para as crianças da escola.

Deus do céu! Que atraso! Que tiririquice! Pra começar, arbitrar sobre aborto e formas de casamento é da competência do Congresso Nacional e não do Presidente da República, que apenas sanciona ou veta a disposição do Congresso. Além do mais, aborto e casamento gay nem estão em pauta de discussão, hoje.

Mais importante e pertinente agora é ouvir dos candidatos suas propostas e projetos concretos quanto à saúde, educação de qualidade, distribuição de renda, segurança da população, criação de empregos, formas de apropriação ou não do Estado, relações diplomáticas e econômicas com outros países, transporte, saneamento básico, liberdade de imprensa, desenvolvimento do país, programas sociais, etc., etc.

E mais: estamos num país democrático, regido por uma Constituição Civil e não pelas tábuas da lei de Moisés. É um país democrático e laico e não teocrático, apesar de supostamente religioso. Sua capital é Brasília e não o Vaticano, nem a Canção Nova, nem a sede da Assembléia de Deus, nem a CNBB.

Tentar manipular a consciência do eleitor, ameaçando-o com a ira de Deus é injuriar o próprio Deus que nos criou livres. O dia em que o povo tiver que consultar um aiatolá de plantão tipo Pastor Silas Malafaia, ou um Padre José Augusto (Canção Nova) para votar, é melhor rasgar o título de eleitor e o estatuto da maioridade civil. O que vem se praticando em meios religiosos no momento, é o aborto da eleição, da democracia, da Constituição e do bom senso. Xô Satanás!

* Padre Otto Dana é Pároco da Igreja Sant´Ana em Rio Claro – São Paulo (Diocese de Piracicaba – SP). Seu e-mail é otto.dana@gmail.com

sexta-feira, julho 16, 2010

Os Frutos do Concílio Vaticano II, segundo Monsenhor Gherardini

 

Nota: Monsenhor Gherardini escreveu no ano passado um livro sobre o CVII. Abaixo vemos um resumo dele, o melhor que eu conheço, sobre os frutos do CVII, através dos quais Nosso Senhor nos ensinou a avaliar a “árvore”. Gherardini contrapõe o que é a Tradição e o que está sendo praticado hoje na Igreja. É bom que se diga que Gherardini não faz parte da FSSPX.

1. Uma formação sacerdotal que encontrou seus princípios na Tradição eclesiástica e nos valores sobrenaturais da Revelação divina, frente a uma formação sacerdotal aberta ao horizonte flutuante de uma cultura em perpétuo estado de devir.

2. Uma liturgia que certamente tem um ponto forte na Missa dita tradicional, frente a uma liturgia antropocêntrica e sociológica [a do Novus Ordo da missa], na qual o coletivo prevalece sobre o valor do individual, a oração ignora o aspecto latrêutico, a assembléia torna-se o ator principal e Deus dá lugar ao homem.

3. Uma liberdade que faz sua “libertação” depender do Decálogo, dos mandamentos da Igreja, das obrigações do dever de estado e do dever de conhecer, amar e servir a Deus, frente a uma liberdade que coloca todas as formas de culto em pé de igualdade, silencia a respeito da lei de Deus, desobriga os indivíduos e a sociedade sobre domínios éticos e religiosos e deixa a solução de todos os problemas exclusivamente à consciência.

4. Uma teologia que reúne seu conteúodo de fontes específicas (Revelação, Magistério, Patrística, Liturgia), frente a uma teologia que abre bem os seus braços, dia após dia, às emergências culturais do momento, mesmo àquelas que claramente contradizem as fontes recém mencionadas.

5. Uma soteriologia (nota do editor: estudo da obra da salvação) estreitamente unida à pessoa e à obra redentora do Verbo Encarnado, à ação do Espírito Santo, intimamente ligada à aplicação dos méritos do Redentor, à intervenção sacramental da Igreja e à cooperação dos fiéis batizados, frente a uma soteriologia que considera a unidade do gênero humano como conseqüência da Encarnação do Verbo, em quem (cf. GS 22) cada homem encontra sua própria identificação.

6. Uma eclesiologia que identifica a Igreja com o Corpo Místico de Cristo e reconhece em Sua presença sacramental o segredo vital do ser e do agir eclesial, frente a uma eclesiologia que considera a Igreja Católica como um componente, entre outros, da Igreja de Cristo, e que, nessa fantasmagórica Igreja de Cristo, adormece o espírito missionário, dialoga mas não evangeliza, e acima de tudo, renuncia o proselitismo como se fosse um pecado mortal.

7. Um Sacrifício expiatório da Missa, que celebra os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, representando sacramentalmente a redenção satisfatória, frente a uma Missa na qual o padre é apenas um presidente e todos tomam uma parte “ativa” no sacramento, graças ao fato de que a fé não é encontrada em Deus que Se revela, mas numa resposta existencial feita a Deus que nos interpela.

8. Um Magistério consciente de ter o múnus de guardar o sagrado depósito da Revelação divina com o dever de interpretá-lo e transmiti-lo às gerações futuras, frente a um Magistério Papal que, longe de se sentir a voz da Igreja docente, sujeita a própria Igreja ao colégio dos bispos, dotado dos mesmos direitos e deveres do Romano Pontífice.

9. Uma religiosidade que compreende a vocação comum ao serviço de Deus e, por amor a Ele, o serviço aos irmãos na humanidade, frente a uma religiosidade que inverte essa ordem natural, faz do homem seu centro e, se não em teoria, ao menos na prática, coloca-o em lugar de Deus.

“Do que acaba de ser dito, pode-se facilmente deduzir como a Fraternidade São Pio X compreende a Tradição. Realmente, a Tradição é exatamente o que a Fraternidade não nega ou se opõe. Diretamente ou nas entrelinhas, a Fraternidade rejeita as inovações dos documentos do Concílio e suas aplicações pós-conciliares, e permanece em oposição ao uso selvagem que tão casualmente foi feito deles.”

Leia mais aqui.

quinta-feira, janeiro 21, 2010

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II– Parte XXVIII

Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “Catequese e Ecumenismo”, n’O DOMINGO de 27/09/2009.

Este artigo é muito explícito em pontos que foram apenas anunciados nos artigos anteriores. O que o Sr. Zamagna prega é má doutrina. Não é má doutrina segundo minha opinião, que, neste caso, merece tanta atenção quanto à do próprio articulista. É má doutrina segundo a verdadeira e tradicional Doutrina Católica.

Já no início do artigo, o Sr. Zamagna, citando um grande pensador do século XX, que ele não declina o nome, diz que esse século foi o século do ateísmo e do ecumenismo. Cita na maior inocência sem se dar conta de que este é causa daquele. O ecumenismo leva à apostasia e depois ao ateísmo. Se algum indivíduo minimamente inteligente acredita que em todas as religiões há meios de salvação, logo ele se desvincula da Igreja e procura algum culto que lhe seja menos exigente. De religião em religião, passando pelas religiões orientais, que não são outra coisa senão um materialismo disfarçado, ele chega facilmente ao cientificismo rasteiro, alardeado incessantemente pela mídia, e daí ao ateísmo. Isto é a conclusão lógica do ecumenismo. Ele começa negando que a Verdade esteja somente na Igreja Católica e acaba negando que exista Verdade. Este é o caminho da grande apostasia que existe hoje na Igreja.

Na sua inocência ou inconsciência, o Sr. Zamagna declara sua esperança de que o século XXI seja o século de um “reavivamento da fé e um incremento do movimento ecumênico”. Uma coisa não leva à outra, pois se estamos falando da Fé, aquela cujo depósito se encontra única e exclusivamente com a Igreja Católica, é claro que seu reavivamento significará um decremento do “movimento ecumênico”. Feliz expressão “movimento ecumênico”! Ela desnuda exatamente o que é o ecumenismo: um movimento. Como o foi, e ainda o é, o movimento comunista, o movimento fascista, o movimento ambientalista, etc. Colocamos assim o ecumenismo com seus irmãos siameses. São movimentos políticos, ao estilo de Judas Iscariotes. São heresias, no sentido em que elas são entendidas pela tradição católica.

Chama a atenção do leitor a seguinte frase do Sr. Zamagna: “a busca da unidade entre os cristãos, certamente um movimento moderno inspirado pelo Espírito Santo ...” Meu Deus! Esses pregadores pós CVII consideram que o primeiro papa foi João XXIII. Quando é que a Igreja desistiu de converter os hereges? Quando é que a Igreja deixou de rezar pela conversão dos hereges? Quando é que pregadores do talante de São Francisco de Sales deixaram de pregar aos protestantes com o intuito de sua conversão? O que é novo, e o que não é em absoluto inspirado pelo Espírito Santo, é a idéia herética de que a união dos cristãos seja feita, não a partir da conversão à Igreja Católica, mas a partir da conversão dos católicos a uma religião comum, que contenha elementos comuns aos dois (ou três, quatro, etc.) lados. Chesterton chamava esta religião de “Religião da Irmandade Universal”, cujo fundamento seria o que ele chama de “Fé Progressista”. E com quem irmanaríamos? Quem seriam nossos irmãos nesta ampla e progressista religião? Chesterton nos diz: “O deão da Catedral de São Paulo [da Igreja Anglicana] que se permite alegremente chamar a Igreja Católica de uma corporação traidora e sangrenta; o Sr. H.G. Wells que se permite comparar a Santíssima Trindade a uma dança indigna; o Bispo de Birmingham [bispo da Igreja Anglicana] que se permite comparar o Santíssimo Sacramento a uma bárbara festa de sangue.”

Diz ainda, perigosamente, o Sr. Zamagna: “A Igreja sempre nos ensinou que permanece nela a plenitude das verdades reveladas e dos meios de salvação instituídos por Jesus Cristo; mas essa convicção deve ser acolhida com humildade e no respeito às demais religiões ...” É-me impossível não lembrar novamente de Chesterton. Diz este escritor em sua obra-prima Ortodoxia: “O mundo moderno está repleto de antigas virtudes cristãs que enlouqueceram. Essas virtudes enlouqueceram porque ficaram isoladas umas das outras e vagueiam por aí sozinhas. (...) Acontece, porém, que a humildade está no lugar errado. A modéstia afastou-se do órgão da ambição e estabeleceu-se no órgão da convicção, onde nunca deveria estar. O homem podia duvidar de si, mas não duvidava da verdade. Agora se dá exatamente o contrário.” A convicção do Sr. Zamagna é humilde, pois ele relativiza a verdade, e sua ambição monstruosa: nada mais do que fundar a “Religião da Irmandade Universal”.

No final do artigo, o Sr. Zamagna declara sua concepção de catequese: “Daí a importância de, ao lado da exposição correta da fé cristã e católica, fazermos também verdadeira exposição sobre as outras religiões, sem caricaturas.” Note a expressão “fé cristã e católica”! Que significa isto? Há uma fé cristã e outra católica? Ora! se existe de início tal dúvida, como catequizar alguém? Além disso, o Sr. Zamagna está confundindo catecismo com estudo comparado de religiões.

Mas o articulista continua: “Essa mesma lealdade devemos esperar de quem não professa nenhuma crença ou segue uma religião diferente da nossa, o que não nos impede de valorizar os pontos de convergência doutrinária e ultrapassar as barreiras do preconceito para realizarmos a prática comum da justiça e do amor.” Este é um exemplo prático da humildade enlouquecida, da humildade localizada no “órgão da convicção”. A religião do Sr. Zamagna é aquela que é tão ampla que inclui, não só os inimigos declarados da Fé Católica, mas até os ateus. Inclui não só o deão da Catedral de São Paulo ou o Bispo de Birmingham, mas também H.G. Wells. Catequese para ele é a pregação do vale tudo doutrinário, do quem quiser pode entrar, do amor à criatura e não ao Criador.

1. Para fazer DOWNLOAD DO LIVRO com os primeiros 28 posts sobre a Missa de Paulo VI (e algumas coisas mais) clique aqui.

2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, Parte XXI, Parte XXII, Parte XXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI, Parte XXVII

quinta-feira, novembro 12, 2009

Lições das missas dominicais pós-Vaticano II - Parte XXVII

Comento aqui o artigo do Sr. Domingos Zamagna intitulado “A Renovação da Catequese”, n’O DOMINGO de 20/09/2009.

O Sr. Zamagna começa seu artigo atacando a “mera repetição” no ensino catequético: “Repetição nunca foi sinal ou prova de ortodoxia. Noutras palavras, quem quiser ser fiel à Igreja não precisa ficar o tempo todo repetindo frases da Bíblia, fórmulas dos concílios, expressões dos santos Padres, das autoridades, dos teólogos. O que representa conquista da teologia, da catequese, da liturgia, da história, da espiritualidade etc. merece ser conhecido, estudado, respeitado. Mas o que adianta mera repetição?

A fala do Sr. Zamagna, não sei se ele próprio sabe disto, vem diretamente do Sínodo dos Bispos de 1977. Este sínodo não só apoiou fortemente uma variedade de catecismos, em contraposição a um único e universal catecismo da Igreja, como também atacou fortemente o método tradicional de memorização das fórmulas da Fé.

Romano Amério diz o seguinte em Iota Unum.

“A forma de pergunta e resposta foi adotada pela Conferência Episcopal Alemã em seu catecismo, mas foi rejeitada pela maioria dos bispos no sínodo de 1977. Este método é bem adaptado à forma didática, ao invés de heurística, da catequese católica, que responde diretamente com a verdade, e não formula perguntas com a pressuposição metodológica que suas respostas possam ser duvidosas. Mesmo no método socrático, tão a gosto dos oponentes da tradição, é Sócrates quem conhece a verdade, e o discípulo o sujeito a quem ela é descrita.

“A memorização é desprezada e desdenhada pelos teóricos modernos da educação como mera repetição sem sentido, quando ela é, na verdade, a fundação de toda cultura, como os antigos mostraram através de Minemósine (memória), a mãe das Musas [deusas do canto e da memória]. A memorização é muito adequada à catequese, desde que seja considerada como uma comunicação de conhecimento e não uma atividade social. Para um bispo do Equador, ‘catequese consiste não tanto no que é ouvido, mas no que é visto na pessoa que catequisa’. Isto faz a verdade percebida pelo intelecto menos importante que a experiência pessoal do discípulo, e vincula o entendimento do Evangelho à excelência de seu pregador em vez de aos seus próprios méritos”.

Assim, desprezar a memorização das verdades de fé e considerá-la “mera repetição” no ensino catequético foi um dos pilares do que Amério chama de “dissolução da catequese”.

Se na catequese as verdades em si ficam em segundo plano, aí o Sr. Zamagna tem razão em dizer: “A catequese, por isso, deve se renovar, alargar seu próprio conteúdo, descobrir novas metodologias, utilizar tecnologias contemporâneas, beneficiar-se dos avanços das ciências da comunicação, servir-se dos conceitos e imagens compreensíveis pelas crianças, pelos jovens e pelas famílias de hoje.”

O que vale são as metodologias, as tecnologias contemporâneas, em síntese, o show. Quando ao conteúdo, notem bem, quanto ao conteúdo catequético que é o fundamento da Fé, bem, este pode ser até “alargado”. Ou seja, para o Sr. Zamagna, não basta a Revelação. Ele quer alargá-la. Não basta o Antigo e o Novo testamentos e a Tradição da Igreja, deve haver um alargamento de conteúdo.

Fico imaginando se o Sr. Zamagna estará incluindo neste alargamento os “ensinamentos” do Pe. Fábio de Melo sobre a não-presença de Cristo na Eucaristia e sobre a impossibilidade da prova da existência de Deus. Quem sabe o Sr. Zamagna não está tentando alargar a Suma Teológica de Santo Tomás, ou o Catecismo Romano, do Concílio de Trento?

O Sr. Zamagna ainda nos fala do “aggiornare” do Papa João XXIII. Diz ele que, entre outras coisas, este verbo significa “tornar a mensagem cristã compreendida pelo homem moderno”. Lembro, a propósito, de uma crônica de Nelson Rodrigues em que ele comenta uma entrevista do então jovem ator Paulo José, sobre as inovações da Igreja, introduzidas pelo CVII. Ele falou tanta besteira que Nelson pergunta estupefato (cito de memória): “Será que este menino não tem algum amigo ou parente para ensiná-lo que a Igreja tem quase 2000 anos de idade, que ela não nasceu agora?” Esta é a pergunta que faço em relação ao Sr. Zamagna. Será que ele acha que a Igreja converteu o Império Romano falando uma linguagem que ninguém entendia? Será que ele acha que a Igreja converteu os bárbaros que invadiram o Império falando grego, literalmente? Será que ele pensa que nestes dois casos a Igreja deixou de ensinar as verdades de fé para adaptar-se ao mundo moderno de então? Para adaptar-se ao paganismo romano ou ao barbarismo dos povos invasores?

Uma coisa é falar de forma compreensível a cada época e lugar sobre as Verdades Eternas e outra, bem diferente, é falar sobre as mentiras e meias-verdades que cada época ou lugar deseja considerar como verdades.

Catequese não é show-business. Ensinar catequese não é conformar as Verdades Eternas às modas passageiras.

Termino aqui com um trecho da ACERBO NIMIS, do Papa São Pio X: “Esta afinal, e não outra, é a tarefa do catequista: tratar de uma verdade de fé ou de moral cristão e explicá-la em cada uma de suas partes; e porque o objetivo do ensinamento é sempre a reforma da vida, é necessário que ele faça um confronto entre o que de nós exige o Senhor e o que de fato se opera; então, por meio de exemplos oportunos, extraídos sapientemente das Sagradas Escrituras, da História eclesiástica ou das vidas dos santos, persuadir e com que aditar como se devam conformar os costumes; e concluir com exortação eficaz, a fim de que os ouvintes sejam levados a detestar e fugir do vício e a exercitar a virtude.”

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2. Para ver outros comentários sobre a Missa nova, clique: Parte XX, ParteXXI, ParteXXII, ParteXXIII, Parte XXIV, A dissolução da catequese: Romano Amério conta como foi, Parte XXV, Parte XXVI.