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sexta-feira, julho 22, 2011

Chesterton e as Cruzadas

Chesterton foi, em certo sentido, um cruzado moderno, lutando contra os infiéis, pagãos, hereges do seu tempo. Eis algumas poucas idéias suas sobre este movimento extraordinário da cristandade.

Leia a respeito do projeto do blog de lengendar mais vídeos de Chesterton. Veja aqui outros vídeos legendados.


quarta-feira, julho 20, 2011

Em breve, mais dois livros de Chesterton em português.

Assinei, semana passada, um contrato de tradução de dois livros de Chesterton. O que deve ser publicado primeiro é uma coletânea de ensaios escritos logo após a conversão do escritor, em 1922. O título provisório é "Aonde Levam Todos os Caminhos". Seguem dois pequenos trechos dele para o deleite dos leitores do blog.

"Quanto às razões fundamentais para um homem fazê-lo [se converter], há apenas duas que são realmente fundamentais. Uma é que ele acredite que a Igreja seja a verdade sólida e irremovível ― que é verdade, quer ele queira, quer ele não queira; a outra, que ele busque o perdão de seus pecados. Se houver um homem para quem estes não sejam os principais motivos, é ocioso investigar quais foram suas razões filosóficas, históricas ou emocionais para ingressar na antiga religião; pois ele nela não ingressou em absoluto."

"E, enquanto isso, qualquer camponês católico, ao segurar uma pequena conta do Rosário em seus dedos, pode estar consciente, não de uma eternidade, mas de um complexo, quase um conflito, de eternidades; como, por exemplo, nas relações de Nosso Senhor e Nossa Senhora, da paternidade e da infância de Deus, da maternidade e da infância de Maria. Pensamentos desse tipo têm, num sentido sobrenatural, algo análogo ao sexo; eles dão cria. São férteis e se multiplicam; e não há fim para eles."

O segundo é "A Coisa", que de acordo com Hilaire Belloc é um dos livros mais importantes de Chesterton. A tal Coisa é a Igreja que, por ser católica, tem relação com todas as outras coisas. Este livro será publicado ano que vem, segundo me informaram.

Peço a oração de todos, para o bom andamento do trabalho.

sexta-feira, julho 15, 2011

Chesterton e o Concílio Vaticano II

Leio e, até certo ponto, me divirto com uma afirmação de Andrew Greeley – na Introdução à nova edição de Gilbert Keith Chesterton, de Maise Ward, Rowman & Littlefield Publishers, Inc., 2006 – que diz: “G.K.C. teria amado as energias repletas de esperança geradas pelo Vaticano II, embora tivesse se chocado pelo irrefletido entusiasmo de alguns daqueles cuja imaturidade foi liberada por excessivos goles do inebriante vinho da mudança.” De certo, o Sr. Greely pensa que os problemas do Vaticano II estão na excessiva sede com que se foi ao pote. Aparentemente, não há problemas com o pote em si.

Concedo que Chesterton inicialmente pudesse ter ficado um pouco aturdido. Conheço três exemplos de proeminentes católicos que não conseguiram de pronto ter a dimensão do desastre. Michael Davies conta no Pope John’s Council, que ainda em 1972, “eu, como Dr. Von Hildebrand, mantinha a opinião de que os documentos do Concílio eram impecáveis e que o caos atual era o resultado de eles estarem sendo negados ou ignorados”. Davies candidamente admite que só depois de ter lido O Reno se lança no Tibre, isto em 1973, é que “um claro padrão começou a emergir” em sua mente. Ou seja, depois de quase 10 anos de promulgado o Concílio dois grandes católicos ainda estavam iludidos sobre o Concílio.

O terceiro exemplo é Gustavo Corção, que em Dois Amores, Duas Cidades, de 1967, diz: “Não creio, sinceramente, que o principal desse Concílio foi a renovação que trouxe, e que a Igreja sempre procura de tempos em tempos; creio antes que a magnífica, a principal mensagem do Concílio foi a da continuidade, da afirmação da identidade da Igreja consigo mesma, ou da maior consciência dessa identidade que resiste a todos os solavancos do século.”

Davies, von Hildebrand e Corção se recuperaram do torpor inicial e viram a verdadeira face do Concílio e o desastre que ele semeou na Igreja. Numa carta a Michael Davies, em 1976, von Hildebrand, por exemplo, já com as idéias no lugar diz: “Enfatizo sempre em minhas conferências e artigos que felizmente nenhuma palavra do Concílio – a menos que seja uma repetição de definições de fide anteriores – nos obriga de fide. Não precisamos aprovar – ao contrário, devemos desaprovar.”

Assim também Chesterton, se vivo fosse, talvez se enganasse inicialmente também. Mas depois ...

Fico pensando qual teria sido a reação de Chesterton, um tomista de quatro costados, com a atitude quase anti-metafísica e humanista do Concílio. Fico pensando o que o grande escritor inglês teria a dizer sobre as seguintes palavras:

“... A Igreja do Concílio [Vaticano II] se ocupou bastante do homem, do homem tal qual ele se apresenta em nossa época, o homem vivo, o homem todo ocupado consigo mesmo, o homem que se faz centro de tudo aquilo que o interessa, mas que ousa ser o princípio e a razão última de toda a realidade... O humanismo laico e profano, enfim, apareceu na sua terrível estatura, e, em certo sentido, desafiou o Concílio. A religião de Deus que se fez homem encontrou-se com a religião do homem que se fez Deus. Que aconteceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isso poderia ter acontecido, mas isso não aconteceu. A antiga história do samaritano foi o modelo da espiritualidade do Concílio. Uma imensa simpatia o [o Concílio] investiu inteiramente. A descoberta das necessidades humanas absorveu a atenção deste Concílio. Reconhecei-lhe ao menos este mérito, ó vós humanistas modernos, que haveis renunciado à transcendência das coisas supremas, que saibais reconhecer o nosso novo humanismo: também nós, Nós, mais que qualquer outro, nós temos o culto do homem.” (Paulo VI, Discurso de Encerramento do Vaticano II, 7 de Dezembro de 1965).

Fico pensando o que Chesterton diria e penso que sei o que ele teria dito exatamente; teria dito o que disse em seu ensaio Será o humanismo uma religião?, do livro “A Coisa”, que ele escreveu depois de sua conversão. Aqui ele diz: a questão “é se o que ele (Norman Foerster) chama de humanismo pode satisfazer a humanidade. (...) Temo que respondê-la seriamente deva significar respondê-la pessoalmente. A questão é realmente se o humanismo pode desempenhar todas as funções da religião; e não posso evitar considerá-la em relação à minha própria religião. (...) Todavia, minha primeira obrigação é responder à questão a mim colocada; e eu a devo responder negativamente.”

O que dizer da reação do escritor ao ato de devolução, aos turcos, das bandeiras gloriosamente conquistadas por combatentes católicos em Lepanto, sob a proteção de Nossa Senhora, invocada na oração do Rosário pelo grande Papa São Pio V. Lepanto, não por coincidência, é o título de um poema de Chesterton, que Belloc considerava um dos mais belos jamais escritos.

Entretenho ainda o pensamento do grande escritor tendo a notícia acerca da Teologia da Libertação, filha dileta do Vaticano II. Diriam a ele que hordas de bispos e padres consideravam Cristo um Marx avant la lettre; que finalmente havia um sistema político-econômico-religioso que implementava todas as virtudes pregadas por Cristo: era o comunismo tornado doutrina religiosa. Como ficaria o pequeno coração do imenso Chesterton? Como ele ficaria ao saber do famigerado acordo de Metz, em que Papa Paulo VI se comprometeu a não condenar o comunismo para que a União Soviética permitisse a presença, no Concílio, de uns poucos ortodoxos russos?

Lamento informar, mas não concordo nem um pouco com o Sr. Greely. Penso que Chesterton deploraria os acontecimentos, as energias e grande parte dos documentos do Vaticano II. Penso que ele escreveria um livro da espécie que Michael Davies escreveu: Apologia Pro Marcel Lefebvre. Penso que ele faria a mesma comparação que Michael Davies faz, no prefácio de seu Saint Athanasius: Defender of the Faith, entre Dom Lefebvre e Santo Atanásio: “Ambos, o santo e o arcebispo, agiram do lado de fora das estruturas hierárquicas normais a fim de sustentar o que afirmavam ser a tradição católica verdadeira, ambos encontraram apoio em fiéis leigos remanescentes, ambos fossem repudiados por quase todos os seus companheiros bispos, e ambos sofressem a agonia de terem sido excomungados pelo papa de seus dias.”

Penso que ele concordaria com a análise de von Hildebrand sobre o Concílio. Penso que ele concordaria com Marcel de Corte em seu “A Inteligência em Perigo de Morte”: “Jamais se poderão medir as conseqüências para a Igreja e a humanidade dessa catástrofe provocada por uma gangue de Padres conciliares que tinham uma inteligência sem bússola.”

Penso que ele concordaria com Gustavo Corção: “Bem sei que nesse período conturbado continua a existir, na terra, a Igreja Católica dita militante. Ora, minha sofrida e firme convicção, tantas vezes sustentada aqui, ali e acolá é que existe, entre a Religião Católica professada em todo o mundo católico até poucos anos atrás e a religião ostensivamente apresentada como "nova", "progressista", "evoluída", uma diferença de espécie ou diferença por alteridade. São portanto duas as Igrejas atualmente governadas e servidas pela mesma hierarquia: a Igreja Católica de sempre, e a Outra.”

Lembro, para finalizar, uma frase de Chesterton que mostra um aspecto às vezes oculto da crise da Igreja: “Muitos são os convertidos que chegaram a um estágio em que nenhuma palavra vinda de protestantes ou pagãos pode contê-los mais. Somente a palavra de um católico pode afastá-los do catolicismo. Uma única palavra estúpida vinda desde dentro pode causar mais dano do que centenas de milhares vindas desde fora.”

Não, Chesterton não cerraria fileiras com os modernistas!

sábado, julho 02, 2011

Chesterton e a Nova Teologia

Stanford Nutting (brincadeira fonética com "stand for nothing", ou seja, "apoiador de coisa nenhuma") compele Chesterton a falar sobre a Nova Teologia, aquela que nos impingiram depois do Concílio Vaticano II. Chesterton não deixa por menos: desaprova todas as novas teologias que pululam por aí!

Este vídeo faz parte de um projeto do Blog do Angueth.


quinta-feira, junho 16, 2011

Chesterton versus Blatchford: a irracionalidade do racionalismo

O debate que vai encenado abaixo jamais ocorreu face a face, mas se desenvolveu nas páginas do jornal Clarion, de Robert Blatchford, um comunista ateu muito influente em Londres no tempo de Chesterton. Chesterton escreveu quatro artigos, dos quais dois estão traduzidos neste blog (aqui e aqui), em resposta aos argumento de Blatchford. 

A essência dos argumentos de ambos os lados aparece na ótima encenação que legendamos abaixo. Divirtam-se!


terça-feira, junho 14, 2011

75 anos da morte de Chesterton

Hoje, há 75 anos, morria Chesterton. Maise Ward em seu Gilbert Keith Chesterton, conta-nos os últimos momentos. 

“Monsenhor Smith o ungiu (...) [Padre Vicente] foi levado ao quarto do doente e cantou sobre o moribundo a Salve Regina. Este hino a Nossa Senhora é cantado na Ordem Dominicana sobre todo frade moribundo e foi certamente apropriado ao biógrafo de Santo Tomás e um ardente devoto de Nossa Senhora: ‘Salve Regina, mater misericordiae, vita dulcedo e spes nostra salve (...) E Jesum bendictum fructum ventris tui nobis post hoc exsilium ostende (...)’ 

“A caneta de Gilbert jazia sobre a mesa ao lado de sua cama e padre Vicente a tomou e a beijou. 

“Era 14 de junho de 1936, o Domingo dentro da oitava de Corpus Christi, a Festa na qual ele fora recebido na Igreja, 14 anos antes.” 

O que se seguiu foi então uma manifestação mundial de pesar. Não só seus amigos íntimos, mas muitos desconhecidos se lamentaram nas ruas de Londres. Conta-se que um homem nos escritórios do Times teria exclamado, quando soube da morte de Chesterton: “Meu Deus! Mas este não é o nosso Chesterton, é?” Um policial, no seu funeral, teria confidenciado: “Todos nós teríamos vindo, se tivéssemos podido nos afastar de nossas obrigações. Ele era um grande homem.” 

Cardeal Pacelli (depois Pio XII) enviou telegrama ao Cardeal Hynsley, em nome de Pio XI: “Santo Padre profundamente contristado pela morte do Sr. Gilbert Keith Chesterton, devotado filho da Igreja, dotado defensor da Fé Católica. Sua Santidade oferece paternal simpatia ao povo da Inglaterra assegura orações para o querido falecido, concede Benção Apostólica.” 

Fiquemos aqui, para terminar esta singela homenagem que este blog presta ao grande escritor inglês, com o último parágrafo de sua Autobiografia, livro que ele terminou de escrever poucos meses antes de morrer. 

“Esta história, portanto, só pode terminar como qualquer história de detetive deve terminar, com suas questões particulares respondidas e com seu problema principal resolvido. Milhares de histórias totalmente diferentes, com problemas totalmente diferentes terminaram com seus problemas resolvidos. Mas para mim, meu fim é meu início, segundo citação de Mary Stuart feita por Maurice Baring, e esta irresistível convicção de que há uma chave que consegue abrir todas as portas me traz de volta à memória o primeiro vislumbre do glorioso dom dos sentidos; e a sensacional experiência da sensação. E levanta-se de súbito à minha frente, com a forma clara e definida de antigamente, a figura de um homem que atravessa uma ponte e leva uma chave; da mesma forma que o vi quando, pela primeira vez, olhei para o país das fadas através do visor do peep-show[1] de meu pai. Mas eu sei que aquele que é chamado Pontifex, o Construtor da Ponte, é também chamado Porteiro, o Portador da Chave; e que tais chaves lhe foram dadas para ligar e desligar quando ele era um pobre pescador de uma província distante, às margens de um mar quase secreto.”


[1] Caixinha cheia de figurinhas que são vistas através de um visor. (N. do T.)

domingo, maio 29, 2011

O AFASTAMENTO DA DOMESTICIDADE

Do livro A Coisa, 1929
G.K. Chesterton

Nota: Chesterton foi um grande defensor da instituição da família, contra os intelectuais seus contemporâneos que a desprezavam e ajudaram a construir o estado de coisas que vivemos hoje. Este texto é um dos muitos que ele escreveu sobre o assunto. O capítulo XIV de Hereges (Alguns escritores modernos e a instituição da família) e A EMANCIPAÇÃO DA DOMESTICIDADE são exemplos de tais textos. Em 1920, ele escreveu todo um livro sobre o tema:  A Supertição do Divórcio. Foi certamente uma grande provação o fato de o casal Chesterton não ter podido ter tido filhos.

Acerca da reforma das coisas, em vez de deformá-las, há um princípio claro e simples; um princípio que será provavelmente considerado um paradoxo. Existe em tal caso certa instituição ou lei; consideremos, por simplicidade, uma cerca ou portão que obstrui um caminho. O tipo mais moderno de reformador dele alegremente se aproxima e diz: “Não vejo objetivo nisto; vamos derrubá-lo.” A que um tipo mais inteligente de reformador fará bem em responder: “Se você não vê objetivo nele, eu certamente não o deixarei derrubá-lo. Vá embora e pense. Então, quando você voltar e me disser que vê nele um objetivo, posso permitir que o destrua.”

O paradoxo assenta-se no mais elementar senso comum. O portão ou a cerca não cresceu ali. Não foi construído por sonâmbulos que o fizeram enquanto dormiam. É altamente improvável que ele tenha sido posto lá por loucos fugidos que por alguma razão vagueavam pelas ruas. Alguém teve alguma razão para pensar que ele seria uma boa coisa. E até que saibamos qual foi a razão, nós realmente não devemos julgar se a razão foi razoável. É muito provável que tenhamos deixado de levar em conta todo um aspecto da questão, se algo construído por seres humanos como nós parece ser inteiramente absurdo e misterioso. Há reformadores que superam esta dificuldade supondo que todos os nossos pais tenham sido tolos; mas se for assim, podemos apenas dizer que a tolice parece ser uma doença hereditária. Mas a verdade é que ninguém tem razão em destruir uma instituição social até que a tenha realmente visto como uma instituição histórica. Se sabe como ela surgiu, e a que propósitos ela supostamente serviria, ele pode realmente ser capaz de dizer que aqueles foram propósitos maus, ou que eles se tornaram, desde então, propósitos maus, ou que são propósitos que já não são mais servidos. Mas se ele simplesmente fita a coisa como uma monstruosidade inconseqüente que de alguma forma tenha subitamente surgido em seu caminho, é ele e não o tradicionalista que está sofrendo de uma ilusão. Podemos mesmo dizer que ele está vendo coisas, como num pesadelo. Este princípio aplica-se a mil coisas, a instituições insignificantes, assim como a verdadeiras, à convenção assim como à convicção. São pessoas como Joana D’arc, que sabia por que as mulheres usavam saia, que mais tinha justificativa para não usá-las; são pessoas como São Francisco, que simpatizava com festas e com o aconchego do lar, que mais tinha direito de se tornar um mendigo nas ruas. E quando, na ampla emancipação da moderna sociedade, a Duquesa diz que não vê razão para que ela não brinque de pular carniça, ou o Deão declara que não vê nenhuma válida razão canônica para que ele não fique de cabeça para baixo, devemos dizer a essas pessoas, com uma paciente benevolência: “Adia, portanto, a operação que contemplas até que tenhas percebido, por meio de reflexão madura, que princípio ou preconceito violas. Então, brinca de pular carniça e ponha-se de ponta cabeça e que o Senhor esteja convosco.”

Dentre as instituições que estão sendo assim atacadas, não inteligentemente mas muito estupidamente, está a fundamental criação humana chamada Núcleo Familiar ou Lar. Esta é uma coisa típica que os homens atacam, não porque vêem seu significado, mas porque não a vêem em absoluto. Eles a golpeiam cegamente, de um modo inteiramente fortuito e oportunista; e muitos deles a poriam abaixo sem nem mesmo deterem-se para perguntar por que ela foi um dia posta de pé. É verdade que apenas poucos deles teriam confessado seu objetivo com tantas palavras. Isso apenas prova quão cegos e descuidados eles são. Mas eles caíram no hábito do mero distanciamento e gradual desapego da vida familiar; algo que é amiúde meramente acidental e desprovido de qualquer teoria definida. Mas embora seja acidental, ela é, não obstante, anárquica. E ela é ainda mais anárquica por não ser anarquista. Parece ser em grande medida instituída sobre a irritação individual; uma irritação que varia com o indivíduo. Conta-se meramente que neste ou naquele caso um temperamento particular foi atormentado por um ambiente particular; mas ninguém explica sequer como o mal surgiu, muito menos se pode-se evitar o mal. Conta-se que nesta o naquela família a vovó fala muita tolice – que, Deus sabe, é verdade –; ou que é muito difícil ter um relacionamento intelectual íntimo com Tio Gregório sem dizer-lhe que ele é um tolo, que é realmente o caso. Mas ninguém considera seriamente o remédio, ou mesmo a doença; ou se a dissolução individualista existente é realmente um remédio. Grande parte desse negócio começou com a influência de Ibsen, um poderosíssimo dramaturgo e um debilíssimo filósofo. Suponho que Nora, da Casa de Bonecas, estava destinada a ser uma pessoa inconseqüente; mas certamente sua ação mais inconseqüente foi sua última. Ela reclamava de não estar ainda preparada para cuidar de crianças, e então passou a apreender o máximo das crianças, de modo a estudá-las mais de perto.

Há um único e simples teste dessa negligência do pensamento científico e do senso de uma ordem social; a negligência que nos deixa agora sem nada, exceto uma confusão de exceções. Li milhares de vezes, em todos os romances e jornais de nossa época, certas frases sobre o justo direito do jovem à liberdade, sobre a injusta alegação dos mais velhos em controlar, sobre a concepção de que todas as almas devem ser livres ou todos os cidadãos iguais, sobre a absurdidade da autoridade ou a degradação da obediência. Não estou discutindo essas questões diretamente, no momento. Mas o que me estarrece, num sentido lógico, é que ninguém nesta miríade de romancistas e jornalistas parece sequer pensar em formular a próxima e mais óbvia questão. Parece nunca ocorrer-lhes indagar o que acontece com a obrigação oposta. Se a criança é livre de início para desconsiderar os pais, por que os pais não são livres para desconsiderar a criança? Se o Sr. Jones, pai, e o Sr. Jones, filho, são apenas dois cidadãos livres e iguais, por que deve um cidadão viver às custas de outro cidadão pelos primeiros quinze anos de sua vida? Por que o Sr. Jones mais velho deve alimentar, vestir e abrigar, de seu próprio bolso, outra pessoa que é inteiramente livre de qualquer obrigação para com ele? Se a brilhante e jovem coisa não pode ser solicitada a tolerar sua avó, que se tornou algo aborrecida, por que deveria a avó ou a mãe ter tolerado a brilhante e jovem coisa num período de sua vida em que ela não era, em absoluto, brilhante? Por que eles laboriosamente cuidaram dela num período em que suas contribuições à conversação eram raras vezes epigramáticas e nem sempre inteligíveis? Por que Jones, o pai, banca comida e bebida de graça a alguém tão desagradável quanto Jones, o filho, especialmente nas fases imaturas de sua existência? Por que ele não pode jogar o bebê pela janela; ou, de qualquer modo, expulsar o garoto de casa? É óbvio que estamos tratando de uma relação real, que pode ser igualdade, mas que não é certamente similaridade. 

Alguns reformadores sociais tentam esquivar-se dessa dificuldade, eu sei, por meio de vagas noções acerca do Estado ou de uma abstração chamada Educação, que eliminaria a função parental. Mas isto, como muitas noções de pessoas firmemente científicas, é uma louca ilusão, da natureza de um mero luar. Ela se fundamenta nessa estranha e nova superstição, a idéia de infinitos recursos de uma organização. É como se funcionários públicos crescessem como grama ou se reproduzissem como coelhos. Há, por suposto, um interminável suprimento de pessoas assalariadas, e de salários para elas; e elas responsabilizar-se-iam por tudo o que os seres humanos fazem por si mesmos; incluindo o cuidado com as crianças. Mas os homens não podem ter como meio de vida a criação dos filhos dos outros. Eles não podem proporcionar um tutor para cada cidadão; quem seria o tutor dos tutores? Os homens não podem ser educados por máquinas; e embora possa haver um robô pedreiro ou varredor, nunca haverá um robô diretor de escola ou professora. O efeito real dessa teoria é que uma pessoa assediada tem de cuidar de cem crianças, em vez de uma pessoa normal cuidar de um número razoável delas. Normalmente, aquela pessoa normal é impelida por uma força natural, que não custa nada e não exige salário; a força da afeição natural pela sua prole, que existe mesmo entre os animais. Se você suprime essa força natural, e a substitui por uma burocracia paga, você é como um idiota que tem de pagar para que girem a roda de seu moinho porque se recusa a usar o vento ou a água que ele pode conseguir de graça. Você é como o louco que rega cuidadosamente seu jardim com um regador, ao mesmo tempo em que segura um guarda-chuva para se proteger da chuva.

Tornou-se, agora, necessário recitar estes truísmos; pois somente fazendo isto, começamos a ter um vislumbre daquela razão da existência da família, pela qual comecei este ensaio a demandar. Eles eram todos familiares aos nossos pais, que acreditavam nos elos de parentesco e também nos elos da lógica. Hoje, nossa lógica consiste principalmente de elos perdidos; e nossa família predominantemente de membros ausentes. Mas, de qualquer modo, este é o fim correto no qual começar qualquer investigação deste tipo; e não no final ou nos restos de alguma trapalhada pessoal, pela qual Dick se tornou descontente ou Susan foi-se embora. Se Dick ou Susan desejam destruir a família porque não vêem utilidade nela, digo o que disse no início; se eles não vêem a utilidade dela, é melhor que eles a preservem. Eles não têm nada que, nem mesmo, pensar em destruí-la até que tenham visto a sua utilidade.

Mas ela tem outras utilidades, além o fato óbvio de significar um trabalho social necessário sendo feito por amor, quando não pode ser feito por dinheiro; e (é preciso quase ousar insinuar) presumivelmente ser retribuído com amor, na medida em que nunca pode ser retribuído com dinheiro. Deste simples lado da questão, a situação geral é fácil registrar. O existente e geral sistema da sociedade – sujeito, em nossa própria época e cultura industrial, a muitos abusos grosseiros e a problemas dolorosos – é, contudo, um sistema normal. É a idéia de que a comunidade é composta de diversos pequenos reinos, dos quais um homem e uma mulher se tornam o rei e a rainha e nos quais eles exercem uma razoável autoridade, sujeita ao senso comum da comunidade, até que aqueles sob seus cuidados cresçam e fundem reinos similares e exerçam autoridade similar. Esta é a estrutura social da humanidade, muito mais antiga do que todos os seus registros e mais universal do que quaisquer de suas religiões; e todas as tentativas de alterá-la são palavras ao vento e pura estupidez.

Mas a outra vantagem do grupo pequeno está não tanto negligenciada, mas não é simplesmente percebida. Temos aqui, novamente, alguns extraordinários delírios espalhados pela literatura e jornalismo de nosso tempo. Esses delírios existem agora em tal grau que podemos dizer, para todos os propósitos práticos, que quando uma coisa é afirmada mil vezes como uma verdade óbvia, ela é quase certamente uma falsidade. Tal tipo de afirmação pode ser especialmente percebida aqui. Há inegavelmente algo a ser dito contra a domesticidade e a favor do afastamento geral na direção da vida em hotéis, clubes, escolas, assentamentos comunitários, etc.; ou a favor da vida social organizada aos moldes do grande sistema comercial de nossa época. Mas a sugestão verdadeiramente extraordinária é amiúde feita de que essa fuga do lar é uma fuga para uma maior liberdade. A mudança é realmente apresentada como favorável à liberdade.

A qualquer um capaz de pensar, ela é, claro, o exato oposto. A divisão doméstica da sociedade humana não é perfeita, sendo humana. Ela não alcança uma completa liberdade; uma coisa algo difícil de ser feita ou mesmo definida. Mas é uma simples questão de aritmética que ela coloca um maior número de pessoas no controle supremo de algo, e capaz de moldá-lo segundo seu gosto pessoal, do que o fazem as vastas organizações que controlam externamente a sociedade; sejam estas sistemas legais, comerciais ou mesmo meramente sociais. Mesmo se considerarmos apenas os pais, é evidente que há mais pais que policiais, ou políticos, ou dirigentes de grandes companhias, ou proprietários de hotéis. Como sugerirei a seguir, o argumento realmente se aplica diretamente aos filhos assim como diretamente aos pais. Mas o principal é que o mundo exterior ao lar está agora sob uma rígida disciplina e rotina e é somente no lar que há lugar para a individualidade e liberdade. Qualquer um que ponha o pé para fora de casa é obrigado a entrar numa procissão, todos indo no mesmo caminho e, em grande parte, obrigados a usar o mesmo uniforme. Os negócios, especialmente os grandes, são agora organizados como um exército. É, como diria alguém, um tipo de militarismo moderado sem derramamento de sangue; como diria eu, um militarismo sem as virtudes militares. Mas, de qualquer forma, é óbvio que cem funcionários de um banco ou cem garçonetes de uma casa de chá estão mais organizados e sob controle do que os mesmos indivíduos quando voltam para suas moradias ou habitações, que portam seus quadros favoritos e as fragrâncias de seus cigarros vulgares favoritos. Mas isto, que é tão óbvio no caso comercial, não é menos verdade no caso social. Na prática, a busca do prazer é simplesmente a busca da moda. A busca da moda é simplesmente a busca da convenção; que é, neste caso, uma nova convenção. A dança de jazz, os passeios de carro, as grandes festas e entretenimentos em hotéis, não proporcionam nenhum prazer maior, para alguém de gosto realmente independente, do que o fizeram as modas do passado. Se uma rica jovem senhora deseja fazer o que todas as outras ricas jovens senhoras fazem, ela se divertirá muito, simplesmente porque a juventude é divertida e a sociedade é divertida. Ela deleitar-se-á em ser moderna exatamente como sua avó vitoriana se deleitou em ser vitoriana. E também pelo mesmo motivo; mas é o deleite da convenção, não o deleite da liberdade. É perfeitamente saudável para todos os jovens, de todos os períodos históricos, agruparem-se até certo ponto, e imitarem entusiasticamente uns aos outros. Mas nada há nisso de particularmente recente e, certamente, de particularmente livre. A garota que gosta de raspar a cabeça, maquiar seu nariz e usar saias curtas encontrará o mundo organizado para ela e marchará alegremente com a procissão. Mas a garota que acaso goste de ter seus cabelos batendo em seus calcanhares, ou de usar adornos bárbaros e vestidos que se arrastam pelo chão, ou (mais terrível de tudo) de deixar seu nariz no estado natural – ela será, não obstante, bem aconselhada a fazer tais coisas em sua própria casa. Se a duquesa deseja brincar de pular carniça, ela não deve começar de repente a pular como um sapo no salão do Hotel Babylon, quando ele estiver lotado de casais praticando profissionalmente o mais recente tipo de dança, para a instrução da sociedade. Será mais fácil a duquesa brincar de pular carniça, para a admiração de suas amigas íntimas, no velho hall recoberto de lambris de carvalho do Castelo Fitzdragon. Se o deão ficar de ponta cabeça, ele fará isso com maior facilidade e graça na calma atmosfera do Decanato, do que tentando interromper algum compromisso social já organizado com propósitos filantrópicos.

Se há essa rotina impessoal nas coisas comerciais e mesmo sociais, é ocioso dizer que ela deve existir nas coisas políticas e legais. Por exemplo, as punições do Estado devem ser generalizações abrangentes. São somente as punições da família que podem ser adaptadas ao caso individual. Se Joãozinho pega um dedal de uma caixa de costura, sua mãe pode agir muito diferentemente segundo ela saiba que ele fez isso de brincadeira, por maldade, para vender para alguém ou para causar problemas a alguém. Mas se Joãozinho pega um dedal numa loja, a lei não somente pode, mas deve puni-lo segundo a regra feita para todos os ladrões de loja ou de prata. É somente a disciplina doméstica que pode mostrar qualquer simpatia ou especialmente qualquer humor. Não digo que a família sempre faz isso: mas digo que o Estado nunca deve tentá-lo. Assim, mesmo se considerarmos somente os pais como príncipes independentes, e os filhos apenas como súditos, a liberdade relativa da família pode e amiúde trabalha a favor destes súditos. Mas desde que os filhos sejam crianças, eles serão sempre súditos de alguém. A questão é se eles deverão ser distribuídos naturalmente pelos seus príncipes naturais, como diz o velho ditado, que normalmente sentem por eles o que ninguém mais sente, uma afeição natural. Parece-me claro que essa distribuição normal proporciona a maior quantidade de liberdade a um maior número de pessoas.

Meu protesto contra o afastamento anti-doméstico é que ele é estúpido. As pessoas não sabem o que estão fazendo; porque não sabem o que estão desfazendo. Há uma multitude de manifestações modernas, das maiores às menores, que vão do divórcio a um piquenique. Mas cada uma é uma fuga ou evasão; e especialmente uma evasão da questão em tela. As pessoas têm de decidir de modo filosófico se desejam a ordem social tradicional ou não; ou se há qualquer particular alternativa a ser desejada. Nas atuais circunstâncias, elas tratam a questão pública meramente como uma mistura ou mescla de questões pessoais. Mesmo em sendo anti-domésticas, elas são demasiadamente domésticas em seu teste da domesticidade. Cada família considera apenas seu próprio caso e o resultado é meramente estreito e negativo. Cada caso é uma exceção a uma regra que não existe. A família, especialmente no estado moderno, necessita de considerável correção e reconstrução; muitas coisas necessitam, no estado moderno. Mas o palácio da família deve ser preservado, destruído ou reconstruído; não se deve deixá-lo cair aos pedaços, tijolo por tijolo, porque ninguém tem qualquer sentido histórico do objeto da alvenaria. Por exemplo, os arquitetos da reconstrução devem reconstruir a casa com portas amplas e fáceis de abrir, para a prática da antiga virtude da hospitalidade. Em outras palavras, a propriedade privada deve ser distribuída com suficiente e decente igualdade para permitir uma margem a relações festivas. Mas a hospitalidade de uma casa será sempre diferente da hospitalidade de um hotel. É perfeitamente correto que os jovens da família Brown e os da família Robinson se encontrem, se misturem, dancem, se exponham ao ridículo, segundo o plano de seu Criador. Mas haverá sempre alguma diferença entre a família Brown entretendo a família Robinson e a família Robinson entretendo a família Brown. E será uma diferença a favor da variedade, da pessoalidade, das potencialidades da mente do homem; ou, em outras palavras, da vida, da liberdade, e da busca da felicidade.

terça-feira, maio 17, 2011

Religião no mundo moderno

Um ex-seminarista dos anos 1970 nos explica o que é religião. Divirtam-se! Veja também este.


sábado, maio 07, 2011

Novo projeto do blog

O blog lança agora, sob a responsabilidade de meus filhos Henrique e Thiago (Sim! O blog agora é uma questão familiar!), um modesto projeto: o de legendar os vídeos acerca de Chesterton, do pessoal do Theater of the Word Incorporated. As legendas em português foram autorizadas pelos produtores dos vídeos. Postaremos, presumivelmente, um vídeo por semana, para os quais abrirei uma nova "tab" no blog. Vamos, então, ao primeiro vídeo. Divirtam-se.


quinta-feira, abril 28, 2011

Gustavo Corção, o Chesterton brasileiro

Nota do blog – O título deste post é, na verdade, o título de um post futuro, que ainda vou escrever. Quero mostrar num futuro próximo que nenhum escritor brasileiro, dos poucos que foram influenciados pelo autor inglês, foi tão chestertoniano quanto Gustavo Corção. Não examinarei Três alqueires e uma vaca, que é um livro escrito sobre Chesterton, de uma forma completamente chestertoniana; ou seja, um livro sobre Chesterton, mas não inteiramente biográfico. Um livro que o próprio autor admite ter escrito com Chesterton, a quatro mãos. Quero examinar, sobretudo, A descoberta do outro, o primeiro livro escrito por Corção. Mas quero agora apenas compartilhar com meus leitores este artigo de nosso Chesterton brasileiro sobre o Chesterton inglês. O título do artigo é simplesmente G.K. Chesterton. É um artigo que eu gostaria de ter escrito, tivesse eu a competência de um Corção, pois expressa muito de minha própria experiência com o gigante da rua Fleet.
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Graças à vigilância de Antônio Olinto, na sua “Porta de Livraria” de O Globo, chego ainda a tempo para saudar o centenário de G. K. Chesterton, o incomparável escritor inglês que mais indelevelmente me marcou a alma nos dias em que andei perdido pelo mundo a procurar uma luz, luz de João e Maria, luz de Casa, luz de acolhimento entre as trevas de meu triste exílio. Devo a Chesterton as primeiras alegrias católicas. No seu grande livro, Ortodoxy, onde esteve mais à vontade para atirar nos braços da cruz seu jogo de inebriantes paradoxos, entre outras descobertas maravilhosas do cristianismo, ele nos diz aquilo que Cristo de si mesmo nos escondeu: “There was some one thing that was too great for God to show us when He walked upon our earth; and I have sometimes fancied that it was His mirth.” Tentemos traduzir estas palavras de ouro com que Chesterton fecha sua obra-prima: “Uma coisa houve que era n’Ele grande demais para nos ser mostrada enquanto Ele andou por este mundo, e eu penso às vezes que foi sua alegria”. Ou seu riso. Ou seu júbilo. O termo mirth é aqui intraduzível. E ouso dizer que o grande poeta da língua fechou seu livro-jóia sabendo bem que só podia encerrar com um termo impróprio, tratando-se de coisa que esteve sempre presente e todavia escondida na vida de Jesus.

Outro notável inglês deixou-nos, sobre a poesia, uma definição inesquecível: “poetry is emotion recollected in tranquility”; donde nós tiramos uma definição de liturgia: “liturgy is passion recollected in tranquillity”, cujo teor paradoxal, próprio do Mistério da Fé, parece mostrar, sob as aparências do júbilo e da festa, a dor e o Sangue de nossa Redenção. Fiel a esse espírito, Chesterton não procurou nos seus tão admirados paradoxos fazer acrobacias verbais, e muito menos procurou jogos para agradar os jovens e os imaturos. Pascal, com seu timbre de abismos, não é mais trágico nem mais sério do que Gilbert Keith Chesterton, em cuja obra, como disse atrás, eu tive a felicidade de encontrar no caminho daquilo que Jesus nos escondeu, isto é, das mais puras e vivas alegrias católicas deste mundo. Com um extraordinário vigor do Dom da Ciência, que está na linha da Fé e da Esperança, isto é, das virtudes peregrinas, Chesterton viu que o mundo, e mais fortemente os dias deste século de corrida atrás do vento, está desconcertado, subvertido, de cabeça para baixo, e então, para poder descobrir melhor seus erros e suas malícias, punha-se ele mesmo freqüentemente de pernas para o ar. Sua obra de apologia, assim condicionada, fazia função de revulsivo, de purgativo, e operava inopinadas restaurações nos desconcertos do mundo. O personagem principal de O poeta e os loucos era ágil, nessa ginástica, e, em quase todos os contos dessa série, quem diz loucuras é o sábio, o sisudo, o poeta, o sério; e quem fazia as mais desvairadas loucuras era o homem pausado, equilibrado na representação diplomática dos desvarios do tempo.

Chesterton criou, depois de Edgar Poe e Conan Doyle, o tipo de novela policial em que o genial investigador, longe de ser o esmiuçador sagaz e raciocinante, era o Padre Brown, o Padre Vicente O.F.M., seu amado confessor, que tinha os olhos lavados pela Fé e pelo colírio das lágrimas e assim conseguia, mesmo cochilando, descobrir os meandros da malícia mais pela ingenuidade do que pela sagacidade. Em A Esfera e a Cruz, espécie de romance simbólico e apocalíptico, reaparece o personagem obsessivo de Chesterton, em luta implacável, mas por fim, cordialíssima, com o ateísmo desvairado da época. Na verdade, porém, não é o ateu Tornbull o adversário; não, em A Esfera e a Cruz, o espírito hediondo que Chesterton detesta, como detesta o Diabo, é o liberalismo que pretende evitar o confronto e a luta entre o Bem e o Mal. O personagem mais repugnante da sucessão de figuras que se levantam contra o Combate é o pacifista, contra o qual Chesterton não disfarça sua náusea extrema. Porque Chesterton foi sempre guerreiro. Em tempo e contratempo combateu o bom combate, e guardou a Fé até o momento supremo em que o Padre Vicente, depois de ministrar-lhe a extrema-unção, ajoelhou-se aos pés da cama do agonizante e com piedade profunda beijou a pena que estava à mesa-de-cabeceira, como que a descansá-la também, depois de ter escrito mais de oitenta volumes a serviço de seu Rei e de sua Dama.

Grande falta nos fazem hoje autores como Chesterton, que souberam desarmar, denunciar, desmascarar os ídolos, os ideais dos tempos modernos, que não passam das “antigas virtudes cristãs tornadas loucas” ou perversas.

Na falta dessa leitura saudável, tônica, fortificante, curativa, inebriante do melhor espírito, surgiu em seu lugar, a fazer um sucesso editorial que deveria ruborizar o planeta Terra e empalidecer o planeta Marte, surgiu o repulsivo impostor Teilhard de Chardin, que renega a Fé, abandona os mestres da Companhia de Jesus e da Igreja, para inventar uma gnose tola, de medíocre ciência ensopada com religião ainda pior, graças a cuja fétida composição consegue atrair os espíritos fracos.

Não me canso de agradecer a Deus o fato de ter encontrado Chesterton nos dias de desolação em que, sempre crendo em Deus-Todo-Poderoso, Criador do Céu e da Terra, das coisas visíveis e invisíveis, não conseguia, entretanto, encontrar a alameda e a porta de Sua Casa. A par de todos os defeitos e imperfeições, tenho a alma muito agradecida, porque desde cedo até tarde, na tarde da vida, deu-me Deus a ventura de sentir a dependência em que vivi, de minha mãe, de meus irmãos, de meus alunos, de meus professores, de todos os que neste longo trajeto que já se aproxima do marco assinalado pelo salmista para os vigorosos, sim, sempre tive a ventura de sentir muito melhor o bem que me fizeram e que especialmente reservo aos que me ajudaram na morte para o mundo. E entre esses reservo um especial lugar no altar que hoje adornei em meu velho coração para lembrar G. K. Chesterton.

O resto desta apologia e deste estudo está no livro Três alqueires e uma vaca, que escrevi quando, graças a Chesterton, entre tantos autores e amigos, consegui passar no vestibular da Casa do Pai, isto é, consegui voltar à Fé e à Igreja de meu batismo. Ave Maria! 

 O Globo 06/06/1974.
Do site Permanência.

segunda-feira, abril 25, 2011

QUEM SÃO OS CONSPIRADORES?

Do livro A Coisa, 1929
G.K. Chesterton

Deparei-me, outro dia, mais ou menos indiretamente, com uma senhora de maneiras educadas e até elegantes, do tipo que seus inimigos chamariam de extravagante e seus amigos de refinada, que por acaso mencionou certa pequena cidade da parte oeste do país, e aduziu, com uma voz sibilante, que ela continha “um ninho de católicos romanos”. Isto aparentemente se referia a uma família que casualmente eu conheço. A senhora então disse, com uma voz alterada de profundo fatalismo: “Só Deus sabe o que é dito e feito atrás daquelas portas fechadas.” 

Ao ouvir essa estimulante especulação, minha mente retrocedeu às minhas lembranças do lar em questão, que estão ligadas principalmente a biscoitos doces e a uma pequena menina que se persuadira firmemente de que eu era capaz de comer um número ilimitado deles. Mas quando eu contrastei essa memória com a visão daquela senhora, ficou repentina e surpreendentemente claro para mim o vasto abismo que ainda se estende entre nós e muitos de nossos compatriotas, e as extraordinárias idéias que sobre nós ainda entretêm pessoas que andam por aí, sem cuidadores ou camisas-de-força, e que aparentemente são, em todos os outros assuntos, sãos. É, sem dúvida, verdade, e teologicamente razoável, dizer que só Deus sabe o que acontece nas casas dos católicos; como o é dizer que só Deus sabe o que se passa na cabeça dos protestantes. Não sei por que as portas dos católicos deveriam estar mais fechadas que as portas dos outros; o hábito não é incomum em pessoas de todas as crenças filosóficas quando se recolhem à noite; e em outras ocasiões, dependendo do clima ou do gosto pessoal. Mas mesmo aqueles que acham difícil acreditar que um católico comum é tão excêntrico a ponto de se trancar na sala de estar, ou de fumar, assim que ele ponha o pé em casa, têm realmente uma idéia obsessiva de que é mais concebível isto de um católico do que de um metodista calvinista ou de um irmão Plymouth.[1] Permanece o sabor rançoso de um tipo de romance sensacionalista acerca de nós; como se fossemos todos nobres estrangeiros ou conspiradores. E o fato realmente interessante é que esse absurdo melodrama pode ser encontrado entre pessoas instruídas; embora, na atualidade, mais em indivíduos instruídos do que numa classe instruída. O mundo ainda nos faz esse elogio louco e imaginativo ao imaginar que somos muito menos comuns do que realmente somos. O argumento, claro, é aquele com o qual estamos exaustivamente acostumados, em milhares de outros aspectos; o argumento de que porque a evidência contra nós não pode ser encontrada, ela deve ser ocultada. É óbvio que os católicos romanos não gritam uns com os outros nas ruas os detalhes do massacre de São Bartolomeu;[2] e a única conclusão que qualquer homem razoável pode tirar é que eles o fazem a portas fechadas. O projeto de por fogo em Londres não é, exceto raramente, proclamado em letras grandes em pôsteres do Universo; então, que conclusão possível pode haver, senão que os sinais são dados em mesas de chá particulares, por meio de um alfabeto simbólico de biscoitos doces? Seria um exagero dizer que é meu hábito diário pular sobre velhos judeus na rua Fleet e arrancar seus dentes; então, dada minha admitida obsessão, resta apenas supor que minha casa é equipada como uma câmara de tortura para esse modo de odontologia medieval. Os crimes católicos não são maquinados em público, então é razoável supor que eles sejam maquinados em privado. Há realmente uma remota terceira alternativa; que eles não sejam maquinados absolutamente; mas é absurdo esperar que nossos compatriotas sugiram uma coisa tão extravagante. 

Ora, essa misteriosa ilusão, ainda muito mais comum do que muitos supõem, mesmo na Inglaterra, e que se estende a todo o interior dos EUA, é por acaso outro exemplo do que sugeri em um ensaio anterior; o fato de que aqueles que estão sempre bisbilhotando e procurando por coisas secretas sobre nós, nunca nem mesmo notaram as coisas mais evidentes sobre eles mesmos. Temos apenas de nos perguntar o que seria dito se realmente confessássemos alguma conspiração tão descaradamente como metade de nossos acusadores fez. O que seria dito, tanto nos EUA quanto na Europa, se realmente tivéssemos nos comportado como uma sociedade secreta, em lugares onde os grupos de nossos inimigos não podem nem mesmo negar que são, eles próprios, sociedades secretas? O que aconteceria se o Congresso Católico de Glasgow ou Leeds realmente consistissem inteiramente de delegados encapuzados de capa e capuz brancos, todos com suas faces cobertas e seus nomes desconhecidos, a observarem pelas frestas de suas apavorantes máscaras brancas? Contudo, esta era, até muito recentemente, a rígida rotina da grande organização americana empenhada em destruir o catolicismo; uma organização que recentemente ameaçou tomar o governo dos EUA. O que seria dito, se realmente houvesse uma coisa definida, reconhecida e inteiramente desconhecida, chamada de Sociedade Secreta dos Católicos; tal como tem havido, desde há muito tempo, uma reconhecida, mas desconhecida Sociedade Secreta dos Maçons? Ouso dizer que muito do que está envolvido em tais coisas é apenas tolice inofensiva. Mas se tivéssemos feito tais coisas, teriam nossos críticos dito que elas eram apenas tolices inofensivas? Suponha que começássemos a disseminar a Fé por meio de um movimento chamado “Know Nothing”[Nada conhecemos],[3] porque tivéssemos o hábito de balançar nossas cabeças, dar de ombros e jurar que nada conhecíamos da Fé que intencionávamos propagar. Suponha que nossa veneração pela dignidade de São Pedro fosse total e completamente uma veneração pela negação de São Pedro; e que a usássemos como um tipo de motto ou senha para o juramento de que não conhecíamos Cristo. Contudo, esta era reconhecidamente a política de todo um movimento político nos EUA, que objetivava destruir a cidadania dos católicos. Suponha que a Máfia e todas as associações secretas de assassinos do Continente estivessem trabalhando notoriamente para o lado católico, e não para o outro lado. Será que nos deixariam sossegados por isso? O mundo não ressoaria com denuncias indignadas acerca da desgraça de nossa conduta, e de uma traição que nunca deveria ser esquecida? Contudo, essas coisas são feitas constantemente, e a intervalos regulares, e inclusive nos dias que correm, por partidos anti-católicos; e nunca é considerado necessário lembrá-las, ou dizer uma palavra de desculpa, nos escritos de qualquer partidário anti-católico. É apenas nosso modo jesuítico que nos faz ousar olhar sobre as cercas, quando todo mundo está apenas roubando cavalos. 

Em resumo, o que eu disse recentemente sobre fanatismo é ainda mais verdadeiro sobre coisas secretas. Quanto a haver algo meramente antiquado acerca de certo tipo de estreiteza doutrinal, esta se encontra muito mais em Dayton, Tennesse,[4] do que em Louvain ou Roma. E da mesma forma, quanto a haver algo antiquado sobre todas essas farsas de máscaras e mantos, elas têm sido muito mais características da Ku Klux Klan do que dos Jesuítas. Em verdade, esse tipo de protestante é uma figura de melodrama ultrapassado, em duplo sentido e em duplo aspecto. É antiquado nos complôs que ele nos atribui e naqueles que ele próprio pratica.  

Em relação à sua prática, é provável que o mundo a descobrirá muito antes dele. O anticlerical continuará encenando solenemente as trapaças de Cagliostro,[5] como um médium ainda venda os olhos à luz do dia; e abrirá sua boca em palavras de mistério muito depois de todos no mundo estiverem completamente iluminados a respeito dos Illuminati.[6] E embora a comicidade quase imbecil daquela sociedade americana, que parece consistir inteiramente de começar tantas palavras quanto possível com KL, tenha sido atenuada por uma reação de sanidade relativa, não tenho dúvidas de que há ainda muitos nobres companheiros nórdicos saudando-se pelo feliz segredo de serem um Kláguia ou um Klimperador, muito tempo depois que todo mundo parou de se klinteressar por isso. Sob o aspecto político, o poder de tais conspirações foi praticamente desarticulado em ambos os Continentes; na Itália, pelos fascistas e nos EUA, por um conjunto de governadores razoáveis e de espírito público de ambos os partidos políticos. Mas a questão de interesse histórico permanece: a de que as mesmas pessoas que nos acusavam de mistificação e mistério é que envolveram todas as suas atividades secularizadas com mistérios e mistificações muito mais fantásticas; a de que eles nem sequer tiveram a hombridade de lutar contra um antigo ritual com a aparência de uma simplicidade republicana, mas se gabaram de ocultar tudo numa espécie de complexidade cômica; mesmo quando não havia nada a ocultar. Hoje, movimentos com a Ku Klux Klan têm muito pouco a ocultar ou que valha a pena ocultar; e é portanto provável que nossa curiosidade romântica sobre eles seja muito menor que a imperecível curiosidade romântica deles sobre nós. A senhora protestante continuará ressentindo-se do fato de que Deus não compartilhe com ela Seu conhecimento do extraordinário significado do chá com biscoitos doces no lar católico. Mas nós provavelmente sentiremos cada vez menos interesse por qualquer coisa que os Kláguias fazem a portas fechadas [closed doors] – ou talvez eu devesse dizer, portas klechadas (klosed doors).



[1] A Irmandade Plymouth era uma seita milenarista que surgiu em Plymouth, Inglaterra, nos anos 1830. (N. do T.)
[2] O massacre de São Bartolomeu foi o assassinato de protestantes, por católicos franceses, que começou no dia de São Bartolomeu do ano de 1572. (N. do T.)
[3] Partido Americano, ou Know Nothing, anti-católico e anti-imigração, formado apenas por homens protestantes.  Este partido floresceu em meados do século XIX, nos EUA, e se opunha fortemente à imigração de católicos irlandeses e alemães. (N. do T.)
[4] Cidade onde, em 1925, aconteceu o julgamento de um professor de biologia, John Scopes, acusado de infringir uma lei estadual que proibia o ensino da teoria da evolução. (N. do T.)
[5] Conde Alessandro Cagliostro (1743-1795) foi o nome assumido pelo siciliano Giuseppe Balsamo, que ganhou notoriedade como alquimista e vendedor de drogas e poções. (N. do T.)
[6] Seita secreta criada, em 1776, por Adam Weishaupt, um obscuro professor de filosofia da Universidade de Ingolstadt, na Bavária. Acredita-se que os Illuminati tiveram participação decisiva na Revolução Francesa e em todo o movimento hoje conhecido como iluminismo. Para isto, ver, por exemplo, Libido Dominandi – Sexual Liberation and Political Control, de E. Michael Jones, Editora Saint Augustine, 2000. (N. do T.)

quinta-feira, abril 07, 2011

quarta-feira, abril 06, 2011

Como Nossa Senhora converteu Chesterton

Nota do tradutor: Na volta de uma viagem à Terra Santa, Chesterton teve uma espécie de revelação, frente a uma imagem de Nossa Senhora, dois anos antes de sua conversão nominal ao catolicismo. Seu registro deste episódio é o pequeno trecho abaixo.

Os homens precisam de uma imagem, única, colorida e de claros contornos, uma imagem a ser trazida instantaneamente à imaginação, quando o que é católico precisa ser distinguido do que alega ser cristão ou mesmo do que é, em certo sentido, cristão. Dificilmente consigo lembrar uma ocasião em que a imagem de Nossa Senhora não se impusesse à minha imaginação de forma definitiva, à simples menção ou pensamento sobre essas coisas. Eu estava muito distante dessas coisas, e então com dúvidas sobre elas; e por isso, discutindo com o mundo sobre elas, e comigo mesmo contra elas; pois esta é a condição antes da conversão. Mas mesmo que a figura estivesse distante, ou fosse obscura e misteriosa, ou fosse um escândalo para meus contemporâneos, ou fosse um desafio para mim – nunca duvidei que esta figura fosse o símbolo da Fé; que ela incorporava, como um ser humano ainda somente humano, tudo o que A Coisa tinha a dizer para a humanidade. No momento em que me lembrava da Igreja Católica, lembrava-me dela; quando tentava esquecer a Igreja Católica, eu tentava esquecê-la; quando finalmente percebi que o que era mais nobre que meu destino, o mais livre e o mais difícil de meus atos de liberdade, foi em frente à pequena imagem dela, dourada e muito brilhante, no porto de Brindisi, que eu prometi a coisa que eu iria fazer, se eu retornasse ao meu próprio país.  

Aviso sobre a palestra de lançamento de Hereges

Para quem não pôde assistir a palestra de lançamento de Hereges, por mim proferida ontem (05/04), o editor do livro avisa que em breve disponibizará o vídeo no YouTube. Quando isto acontecer, avisarei a todos.

sexta-feira, março 25, 2011

Hereges à venda

O blog está fechando, com este lançamento, um ciclo. Não, o lançamento não é do blog, é da Editora Ecclesiae. Mas o blog começou com um texto, que é o último parágrafo da Introdução a Hereges. Isto foi em 12 de agosto de 2005. Com este pequeno trecho começou também meu interesse mais profundo por Chesterton, o que, em última análise, me levou a traduzir o grande escritor inglês. O trecho continua sendo para mim um dos que mais me impactaram em tudo que já li de Chesterton. “Então, gradualmente, hoje, amanhã, ou depois de amanhã, forma-se a convicção de que o monge estava certo, afinal, e que tudo depende de qual é a filosofia da Luz. Mas o que podíamos discutir sob a lâmpada a gás temos, agora, de discutir no escuro.” O monge estava certo; ele sempre esteve. É o espírito da Idade Média julgando os tempos modernos.

Hereges teve para mim mais impacto que Ortodoxia. O combate travado em Hereges é o nosso combate, o combate atual, o combate eterno que um católico terá de enfrentar. Hereges é a luta de um cruzado moderno contra as profanações da Terra Santa.

Estou feliz por fechar um ciclo de quase 6 anos do blog com tal lançamento. Agradeço à Editora Ecclesiae por ter se aventurado a publicar Chesterton no Brasil. Não deixem de comprar o livro. Ele é excepcional!

quarta-feira, dezembro 22, 2010

O ESPÍRITO DE NATAL

Do livro A Coisa, 1929

G.K. Chesterton

Aventurei-me muito imprudentemente a escrever sobre o Espírito de Natal; e o assunto apresenta uma dificuldade preliminar sobre a qual devo ser franco. É curioso ver atualmente as pessoas falarem sobre “o espírito” de uma coisa. Há, por exemplo, um tipo particular de pedante que está sempre nos dando lição de moral a respeito os espírito do verdadeiro cristianismo. Tanto quanto posso compreender, ele diz o exato oposto do que ele pretende. Ele explica que devemos usar os nomes “cristão”, “cristianismo”, etc., para algo que possui o espírito que especialmente não é cristão; algo que é um tipo de combinação de otimismo infundado de um ateu americano com pacifismo de um hindu moderado. Da mesma forma, lemos muito sobre o Espírito de Natal no moderno jornalismo e mercantilismo; mas isto é um oposto do mesmo tipo. Longe de preservar a essência sem a aparência, preserva-se a aparência onde não pode haver a essência. É algo similar a tomar duas substâncias materiais, como o pinheiro e as bolas de natal, e espalhá-los por todos os enormes e frios hotéis cosmopolitas ou em torno de colunas dóricas de clubes impessoais repletos de cansados, cínicos e velhos cavalheiros; ou em qualquer outro lugar onde o real espírito de Natal tem a menor chance de estar. Mas há também outro modo em que a complexidade comercial moderna devora o coração de uma coisa, enquanto preserva sua casca pintada. E este é o sistema assaz elaborado de dependência da compra e venda, e, assim, do barulho e confusão; e da real desatenção com as novas coisas que poderiam ser feitas ao modo dos antigos Natais.

Normalmente, se tudo fosse normal nos dias de hoje, seria um truísmo dizer que o Natal foi um festival familiar. Mas é agora possível (como tive a sorte ou má sorte de descobrir) ganhar a reputação de paradoxal por simplesmente afirmar que truísmos são verdadeiros. Neste caso, claro, a razão, a única razoável razão, foi religiosa. Tinha a ver com uma família feliz porque era consagrada à Sagrada Família. Mas é perfeitamente verdade que muitos homens viram o fato sem especialmente sentirem a razão. Quando dizemos que a raiz foi religiosa, não queremos dizer que Sam Weller estava concentrado em valores teológicos quando disse a Fat Boy para “por um pouco de Natal” em algum objeto, provavelmente comestível. Não queremos dizer que Fat Boy teve um êxtase de contemplação mística, como um monge ao ter uma visão. Não queremos dizer que Bob Cratchit defendia o ponche ao dizer que estava apenas observando o vinho quando este era amarelo; ou que Tiny Tim citou Timothy. Apenas queremos dizer que eles, incluindo o autor, teriam confessado humilde e entusiasticamente que havia alguém muito anterior ao Sr. Scrooge, que poderia ser considerado o Fundador da Festa. Mas, de qualquer forma, qualquer que seja a razão, todos teriam concordado sobre o resultado. A festa do Sr. Wardle centrava-se na família do Sr. Wardle; e, ainda assim, porque as românticas sombras do Sr. Winkle e do Sr. Snodgrass ameaçavam a dividi-la para a formação de outras famílias.[1]

O período natalino é doméstico; e por esta razão a maioria das pessoas se preparam para ele apertando-se em ônibus, esperando em filas, correndo pelos metrôs, comprimindo-se em casas de chá, e imaginando quando ou se vão chegar em casa algum dia. Não sei se alguns não desaparecem para sempre na seção de brinquedos ou simplesmente se deitam e morrem nas casas de chá; mas pelas suas aparências, isto é muito possível. Exatamente antes do grande festival do lar, toda a população parece ter se tornado desabrigada. É o supremo triunfo da civilização industrial que, nas enormes cidades que parecem ter casas em excesso, há uma desesperada falta de moradia. Muito tempo atrás, grande número de nossos pobres se tornaram nômades. Nós até confessamos o fato; pois falamos deles como árabes das ruas. Mas essa instituição doméstica, na sua presente fase irônica, foi além de tal anormalidade normal. A festa da família transformou tanto o rico quanto o pobre em vagabundos. Eles estão tão espalhados no confuso labirinto de nosso tráfego e de nosso comércio, que não podem, algumas vezes, sequer chegar a uma casa de chá; seria indelicado, claro, mencionar uma taverna. Eles têm dificuldade em se aglomerar em seus hotéis, quanto mais em se separar e chegar a suas casas. Tenho em mente o contrário da irreverência quando digo que o único ponto de semelhança entre eles e a família natalina arquetípica é que não há espaço para eles na estalagem.

Ora, o Natal é feito de um belo e intencional paradoxo; que o nascimento do desabrigado deve ser comemorado em todos os lares. Mas o outro tipo de paradoxo não é intencional e não é certamente belo. É mal o suficiente para que não possamos desnudar a tragédia da pobreza. É suficiente mal que o nascimento do desabrigado, celebrado no lar e no altar, deva às vezes coincidir com a morte de desabrigados em asilos e favelas. Mas não precisamos regozijar neste desassossego universal que atinge ricos e pobres igualmente; e me parece que nesta questão precisamos de uma reforma do moderno Natal.

Não emitirei outro brilho de paradoxo ao observar que o Natal ocorre no inverno.[2] Isto é, ele não é somente a festa dedicada à domesticidade, mas é colocada deliberadamente sob condições em que é muito mais desconfortável correr por aí do que ficar em casa. Mas sob as complicadas condições das modernas convenções e conveniências, surge este mais prático e mais desagradável tipo de paradoxo. As pessoas têm de correr para lá e para cá por umas poucas semanas, mesmo que seja para ficarem em casa por umas poucas horas. A velha e saudável idéia de tais festivais de inverno era esta: que as pessoas estando fechadas e sitiadas pelo clima se voltavam para seus próprios recursos; ou, em outras palavras, tinham a oportunidade de mostrar se havia algo em seu interior. Não é seguro que a reputação de nossos mais modernos e elegantes caça-prazeres sobreviveria ao teste. Algumas terríveis revelações seriam feitas de algumas figuras favoritas da sociedade, se elas fossem isoladas do poder da máquina e do dinheiro. Elas estão muito acostumadas a ter tudo nas mãos; e mesmo quando vão aos mais recentes bailes dançantes americanos, parece que só os músicos negros dançam. De qualquer forma, para a média da saudável humanidade acredito que este isolamento de todas estas conexões mecânicas seria um alento e um despertar. No presente, elas são sempre acusadas de meramente se divertirem; mas elas não estão fazendo algo tão nobre ou compatível à sua dignidade humana. Elas, em sua maioria, já não podem se divertir; estão acostumadas demais de que outros as divirtam.

O Natal deve ser criativo. Dizem-nos, mesmo os que o prezam mais, que ele é principalmente precioso para preservar antigos costumes e antiquados jogos. Ele é realmente valioso para ambos estes admiráveis propósitos. Mas no sentido a que estou me referindo, pode ser novamente possível torcer a verdade. Não é que o Natal real deva criar coisas antigas, mas coisas novas. Ele poderia, por exemplo, criar novos jogos, se as pessoas fossem realmente levadas a inventar seus próprios jogos. A maioria dos antigos jogos começava com o uso de ferramentas comuns ou peças do mobiliário. Assim, as próprias regras do tênis se baseiam na estrutura do antigo pátio de estalagem. Assim, acredita-se, as estacas do cricket foram originalmente somente as três pernas do tamborete de tirador de leite. Ora, poderíamos inventar novas coisas desse tipo, se lembrássemos quem é a mãe da invenção. Quão prazeroso seria começar um jogo em que marcássemos ponto por acertar o porta-guarda-chuva ou o carrinho porta-refeição, ou mesmo o hospedeiro ou a hospedeira; claro, com um projétil de material leve e macio. As crianças que têm sorte suficiente de ficarem sozinhas no berço inventam não somente jogos completos, mas dramas e histórias de vida completos; elas inventam línguas secretas; conduzem laboriosamente revistas de família. Este é o tipo de espírito criativo que queremos no mundo moderno; queremos tanto no sentido de desejar quanto no sentido de sentir a falta. Se o Natal pudesse se tornar mais doméstico, creio que haveria um vasto aumento do real espírito de Natal; do espírito da Criança. Mas entregando-nos a este sonho, devemos, uma vez mais, inverter a convenção corrente em uma espécie de paradoxo. É verdade, em certo sentido, que o Natal é o tempo em que as portas devam ser abertas. Mas eu mandaria fechar as portas no Natal, ou pelo menos um pouco antes do Natal; e então o mundo veria do que somos capazes.

Não posso deixar de lembrar, com um certo sorriso, que numa página anterior e mais controversa deste livro eu mencionei uma senhora que estremeceu com a idéia das coisas perpetradas por mim e pelos de minha religião por trás das portas. Mas minha memória está suavizada pela distância e pelo assunto presente, e sinto o oposto de uma controvérsia. Espero que aquela senhora, e todo o seu modo de pensar, tenha também a sabedoria de fechar suas portas; e, assim, que ela descubra que somente quando todas as portas estão fechadas é que a melhor coisa será encontrada lá dentro. Se eles forem puritanos, que professam uma religião baseada apenas na Bíblica, que eles sejam, uma vez, uma Família da Bíblia. Se eles forem pagãos, que não aceitam nada exceto a festa de inverno, que eles sejam, pelo menos, uma família em festa. A discordância ou desconforto de que os modernos críticos reclamam, não são devidos a que o fogo místico ainda queima, mas que ele já esfriou. É porque os frios fragmentos de uma coisa antigamente viva são desajeitadamente agrupados. Brinquedos de Natal estão dançando sem harmonia perante tios graves e pagãos que prefeririam estar jogando golfe. Mas isto não altera o fato de que eles poderiam se tornar mais brilhantes e mais inteligentes se soubessem como brincar com os brinquedos; e eles são muito aborrecidos com o golfe. Seu tédio é apenas o último produto mortal do processo mecânico dos esportes organizados e profissionais, naquele rígido mundo de rotina fora de casa. Quando eram crianças, por trás das portas da casa, é provável que quase nenhum deles tivesse sonhos acordados e dramas não escritos que pertencessem a eles como Hamlet pertenceu a Shakespeare ou Pickwick a Dickens. Quão mais excitante seria se Tio Henry, ao invés de descrever em detalhes todas as tacadas com que ele se livrou do banco de areia, dissesse francamente que ele estivera numa viagem ao fim do mundo e capturara a Grande Serpente do Mar. Quão mais intelectualmente verdadeira seria a conversa de Tio William se, ao invés de nos dizer de quanto ele reduziu seu handcap, ele pudesse ainda dizer com convicção que ele era o Rei das Ilhas Canguru, ou o Chefe dos Pele-Vermelhas. Essas coisas, saídas desde dentro, eram quase todas puro espírito humano; e não é normal que a inspiração delas deva ser tão completamente esmagada por coisas desde fora. Que não se suponha por um momento que eu também esteja dentre os tiranos da terra, que imporia meus próprios gostos, ou obrigaria todas as crianças a jogar meus próprios jogos. Não desrespeito o jogo de golfe; é um jogo admirável. Eu já o joguei; ou melhor, eu já brinquei com ele, o que é geralmente considerado o exato oposto de jogar. Deixemos evidentemente que os praticantes do golfe joguem golfe e mesmo os organizadores o organizem, se sua única concepção de um órgão é algo como um realejo.[3] Deixem-nos jogar golfe dia após dia; deixem-nos jogar golfe por trezentos e sessenta e quatro dias, e noites também, com bolas banhadas em tinta luminosa, a fim de serem vistas no escuro. Mas que exista uma noite que as coisas brilhem desde dentro: e um dia que os homens procurem por tudo que está enterrado em si mesmos, e descubram – no lugar onde ele está realmente escondido, por trás de portões trancados e janelas cerradas, por trás de portas três vezes trancadas e aferrolhadas – o espírito de liberdade.


[1] Sam Weller, Fat Boy, Wardle, Winkle e Snodgrass são personagens de Dickens nos Pickwicky Papers e Bob Cratchit, Tiny Tim e o Sr. Scrooge em Christmas Carol. (N. do T.)

[2] No hemisfério norte. (N. do T.)

[3] Barrel-organ em inglês. (N. do T.)

terça-feira, dezembro 14, 2010

Chesterton nas bancas do Brasil

Este blog tem a grande alegria de anunciar que a Editora Escala, por meio de sua revista Conhecimento Prático Literatura publicará, a partir de 2011 – edição sim, edição não –, um artigo de Chesterton traduzido por este blog. É uma notícia auspiciosa, pois o grande escritor inglês terá agora um público maior e mais diversificado. Serão artigos principalmente sobre literatura, mas nas mãos de Chesterton todo assunto ganha um matiz todo especial. A fonte principal serão seus artigos de jornal, principalmente os publicados no Illustrated London News.

Este blog teve como seu primeiro post, há longos cinco anos, O Espírito dos Tempos, que é o último parágrafo da introdução de Hereges, já traduzido pelo blog e em preparativos finais de publicação. É grande a satisfação do blogueiro ao encontrar, agora, uma revista semanal de literatura que se aventure a publicar Chesterton no Brasil, em bases permanentes.

Peço aos leitores que rezem para que esta colaboração com a Editora Escala possa render muitos frutos e formar muitos admiradores e leitores de Chesterton no nosso país.

quarta-feira, dezembro 08, 2010

Sobre darwinismo e mistério

Gilbert Keith Chesterton
Illustrated London News, 22/08/1920

Nota do blog: Chesterton e Belloc mantiveram anos de polêmica sobre darwinismo e evolução com muitos intelectuais seus contemporâneos, principalmente com H.G. Wells. Pretendo traduzir alguns de seus textos de jornal a este respeito. Começo com o que se segue.

O Sr. Edward Clodd,[1] o distinto estudante de folclore, perguntou-me sobre uma passagem que apareceu neste jornal. Ele escrevia sobre a questão mais ampla do darwinismo, à qual talvez eu trate mais amplamente em outra oportunidade. Mas como a frase que ele citou desta coluna situa-se de alguma forma em separado, talvez seja mais apropriado tratá-la separadamente. As palavras sobre as quais ele deseja maiores explicações são: “Mesmo o evolucionista está agora tímido ao explicar a evolução. Hoje, o temperamento científico é ... dúvida científica da ciência, não dúvida científica da religião.” Ele deseja especialmente saber o que quero dizer com a frase “dúvida científica da ciência”.

Bem, considero que minha afirmação negativa é pelo menos evidente o suficiente; quero dizer que as mais recentes e revolucionárias sugestões científicas não são capazes de levantar nenhuma dúvida sobre qualquer religião. O Livro do Gênesis não diz que Deus formou a substância do mundo a partir de átomos, e assim um cientista não pode ser censurado como um destruidor da Bíblia se ele diz que o mundo é formado não de átomos, mas de elétrons. O Concílio da Igreja que decretou a Co-eternidade do Pai e do Filho não decretou nenhum dogma sobre a Conservação da Energia. Assim, Mme. Curie não poderia ser queimada como herege mesmo se, como alguns afirmam, sua descoberta desestabilizasse nossas idéias sobre a Conservação da Energia. O credo atanasiano não diz que linhas retas paralelas nunca se encontram, assim ele não seria afetado pelo dizer do Professor Einstein, se é que ele o diz, de que elas não são paralelas ou mesmo retas. Os profetas não profetizaram que o homem nunca iria voar e não são, assim, desacreditados quando ele voa. Os santos certamente nunca disseram que não havia uma coisa como a comunicação sem palavras, e assim eles não têm de retratar-se se há uma coisa como a telegrafia sem fio. De muitas formas seria muito mais fácil sustentar que as modernas invenções ratificaram os antigos milagres. Bem, nesses exemplos técnicos e utilitários é ainda verdadeiro dizer que, se eles não desestabilizam doutrinas religiosas, eles também não desestabilizam doutrinas científicas. São as doutrinas sobre gravidade e energia, sobre átomos e éter, sobre a própria estrutura do universo puramente científico que têm sido afetadas ou ameaçadas pela pesquisa puramente científica.

Assim, fui levado a dizer que os homens científicos estão despedaçando seu próprio universo científico. Foi algo relacionado a isto que eu disse ao afirmar que eles não estão agora preocupados prioritariamente com dúvidas sobre religião. A frase (num sentido positivo e não relativo) refere-se, é claro, a várias idéias escriturais e teológicas que supõem-se, corretamente ou não, foram desestabilizadas pela fase anterior da ciência. Alguns parecem imaginar que estou aqui argumentando a favor daquelas doutrinas; mas isso é um equívoco completo. Das doutrinas pré-darwinianas do popular protestantismo inglês, há algumas em que acredito e algumas de que descreio firmemente; mas em nenhuma delas fundamentei minhas observações sobre o darwinismo. Estas são baseadas nas inconsistências e ilogicidades dos próprios darwinistas. Muitos críticos sinceros parecem achar difícil acreditar nisso. Um deles me perguntou, muito incisivamente, porque a asa do morcego não tinha sido divinamente projetada com penas, como a asa da coruja – quase como se eu tivesse voluntariamente recusado a cobrir o animal com uma plumagem própria. Isto é não perceber meu propósito nesta discussão particular. Se eu pessoalmente acredito no design inteligente, é por razões algo mais profundas, que nada têm a ver com asas de morcego; e certamente nunca sonhei em demonstrá-las por meio de asas de morcego. Nunca professei saber as causas de tais coisas. Eu não escrevi um livro intitulado “A Origem das Espécies”. Não conduzi detalhadas pesquisas ou proclamei conclusões dogmáticas. Não sei a verdadeira razão de um morcego não ter penas; apenas sei que Darwin apresentou uma razão falsa para ele ter asas. E quanto mais os darwinistas explicam, mais convencido me torno de que o darwinismo estava errado. Todas as suas explicações ignoram o fato de que o darwinismo supõe que uma característica animal surge inicialmente, não simplesmente num estágio incompleto, mas num estágio quase imperceptível. O membro de um tipo de rato, destinado a fundar a família morcego, diferia de seus irmãos por algum minúsculo traço de membrana; e por que isto o capacitaria a escapar de um massacre de ratos? Ou mesmo admitindo que tal diferença sirva a algum outro propósito, tal só poderia ocorrer por coincidência; e isto significa imaginar um milhão de coincidências para dar conta de cada criatura. Uma providência especial supervisionando os morcegos seria uma noção muito mais racionalista que tal cadeia de acontecimentos fortuitos.

Mas quanto a uma conclusão positiva a ser formulada, acato satisfeito a idéia do Sr. Clodd de “uma área ocupada pelo desconhecido” onde, segundo sua citação de George Eliot, “os homens tornam-se cegos, embora os anjos tudo conheçam”. Mas ainda penso que os darwinistas sendo homens, foram cegos liderando cegos. Deve ter havido uma grandeza real na ciência de Darwin, cuja acumulação detalhada não alego poder julgar. Havia certamente uma grandeza muito real na literatura de Huxley, que consigo julgar bem mais. Ninguém diz que eles não foram grandes homens, mas que cometeram um grande erro. E quanto ao que resta quando este erro é admitido, repito que me satisfaço com a frase do Sr. Clodd. Nem a minha teologia, nem a dos antigos puritanos, tampouco a biologia dos antigos darwinistas; o que resta é mistério – um mistério desconhecido e talvez insondável. O que resta depois de Darwin é exatamente o que existia antes de Darwin – uma escuridão que eu, por razões muito diferentes, acredito ser divina. Mas sendo ou não divina, ela é escura. O que é verdade real, o que realmente aconteceu na variação das criaturas, deve ter sido algo que ainda não se insinuou na imaginação do homem. Eu, por exemplo, ficaria muito mais surpreso se aquela verdade, quando descoberta, não contivesse um grande elemento de evolução. Mas mesmo esta surpresa é possível onde tudo é possível, exceto o que já foi provado ser impossível. E qualquer explicação por meio de uma completa evolução é no momento presente impossível.

Pela primeira vez, em resumo, os agnósticos se tornarão agnósticos. Esta é a minha resposta à questão do Sr. Clodd sobre a “dúvida científica da religião”. A dúvida hoje é uma dúvida real; antes ela era uma inferência de algum dogma, como o darwinismo. Os agnósticos vitorianos não eram realmente agnósticos. No fundo de suas mentes existia um universo materialista, ou pelo menos monista. Mas o universo monista está, por sua vez, se tornando místico, ou no mínimo misterioso. O próximo período de transição será provavelmente de um agnosticismo real, ou de uma ignorância mais ou menos empolgante. E o Sr. Clodd e eu podemos então concordar sobre a fronteira em que os homens são cegos e os anjos tudo conhecem, embora ele possa ficar mais satisfeito com a cegueira dos homens, e eu com o conhecimento dos anjos. Estou até agora do lado dos homens; da grande massa de reverentes e razoáveis seres humanos, que admitiriam mais facilmente estar cegos na escuridão do que nela sobrecarregados com antiquados óculos científicos, junto a um charlatão tentando convencê-los de que eles podem enxergar.



[1] Autor de vários livros sobre religiões, mitos, religião comparada, folclore e filosofia. Também escreveu diversos livros sobre ciência e evolução. (N. do T.)