Diogo Ferreira
Professor de Filosofia do Direito
Nota: Diogo me envia este texto muito bom sobre toda a recente questão envolvendo o Pe. Joãozinho, que estava sumido, pois calado pelo Prof. Orlando, depois resolveu falar, quando o professor morreu, depois se calou, pois calado pelos muitos defensores do prof. Orlando. Agora, até os posts sumiram, de forma que os links de seu blog que aparecem neste artigo já não estão ativos; deixo-os aqui como demonstração da covardia deste padre diminuto. Fora isto, o texto vale ser lido. Ah!, sim, padre, o Diogo é professor de Filosofia, como o senhor pode ver!
No dia 9 de Junho, quando da morte do professor Orlando Fedeli – então presidente da Associação Cultural Montfort – o Padre João Carlos Almeida (mais conhecido como Padre Joãozinho) colocou um pequeno “post” em seu blog em que pedia orações para o finado professor. Junto a este pedido expressou que o professor Fedeli teria dedicado boa parte da vida a “defender aquilo que entendia por ser a verdade”.
Logo após a postagem, inúmeros comentários pulularam nos blogs e sites que outrora haviam acompanhado a polêmica que tiveram em vida o referido Padre com o referido professor.
Grande parte desses comentários incidiu sobre a maneira como o Padre se expressou no pedido de orações, apresentando o professor como aquele que tinha defendido aquilo que considerava ser a verdade.
Em resposta, Padre Joãozinho somou ao blog um post em que explicava em suma que “Nossa compreensão da verdade é relativa” e que por isso sua prévia postagem era natural, sendo que os comentários em contrário mostrariam falta de humildade.
Pois bem... após essa exposição sumária dos fatos (puxa, como estou formal hoje...) gostaria de fazer alguns comentários sobre a celeuma. Antes, entretanto, quero deixar claro aos desavisados que não faço parte da Associação Cultural Montfort, tampouco da Renovação Carismática, menos ainda da Teologia da Libertação. Como aprendi com um saudoso professor, quero ser antes de tudo Católico, sem necessidade de adjetivos.
Já ouvi muitos dos CD`s do Padre Joãozinho (embora o tenha feito há um bom tempo atrás, confesso), também li alguns de seus artigos, noutra ponta acompanhei a totalidade dos textos da Associação Cultural Montfort e tive a alegria de ter conhecido pessoalmente o Professor Fedeli.
A primeira coisa de que me apercebi quando, passeando pela internet, vi a troca de farpas em questão foi que isso tudo me parece intempestivo... sinceramente, não era “a hora”.
Muitos, como eu, estavam ainda consternados pela morte do professor. O momento era mesmo de oração – como pediu o Padre Joãozinho – mas não de cutucões ou ferroadas – como fez o mesmo Padre Joãozinho. E digo que ele, no pedido de oração, incutiu ofensa indireta, um tanto camuflada.
Basta ver o contexto da afirmação: o Padre Joãozinho houvera em tempos atrás saído em defesa do Padre Fábio de Mello, quando este último tinha sido denunciado pelo professor Orlando por defender idéias heréticas acerca da Eucaristia (tivesse mal se expressado ou não, o fato é que a exposição “quase poética, mas bem romântica” do Padre Fábio se afastava da Doutrina da Igreja sobre o Santíssimo Sacramento... porque será que não me surpreendo com isso?). Depois disso a discussão encaminhou-se e por fim – já adentrando em outros temas (como o Concílio Vaticano II) – o professor Orlando apresentou em seu site um trabalho bem ácido e fulminante contra um confuso pensamento do Padre Joãozinho.
Bem... depois disso veio o “providencial”... “tempo de calar”.
Assim, todos sabiam de antemão que Padre Joãozinho e Professor Orlando não concordavam sobre temas importantes e que o último contato que tiveram entre si foi justamente nessa polêmica.
Diante disso e não muito tempo depois o professor veio a falecer, e o Padre Joãozinho então diz que ele defendia “aquilo que entendia por ser a verdade”...
Ora, ainda que não esteja explícito, o “cutucão” é inegável. E porque haveria de ser claro, se pode ser implícito? Gato escaldado prefere a “implicitude”, muito típica aos ecléticos.
Imaginem os leitores se Siger de Brabante deixasse escrito, por ocasião da morte de Santo Tomás de Aquino que deveríamos rezar pelo Aquinate, pois apesar das disputas, o dominicano tinha defendido “aquilo que entendia por ser a verdade”.
Transportemos agora a cena para tempos mais próximo e pensemos que Hans Kung tivesse feito essa afirmação no velório de Dom Lefrebve... qual seria o “fundo” da mensagem? O aporte velado das palavras?
Em frase mais longa seria o mesmo que dizer: tinha boa intenção, apesar de que estava errado... “tadinho”, de qualquer forma rezemos”. Ou ainda: defendia o que erradamente achava ser verdadeiro.
E não faço aqui um juízo sobre as intenções íntimas, mas apenas reconheço as intenções manifestas, ainda que veladas... mal absconditas.
Basta observar a pendenga como um todo... se degladiaram na polêmica, o Padre Joãozinho não anuiu ao que o Professor Fedeli demonstrou, preferiu “calar”... continuou defendendo o que antes defendera (embora não tenha prosseguido no debate), em oposição ao agora falecido que também manteve-se fiel em sua posição... logo, falar que o último “defendia aquilo que considerava ser verdade” (sendo que tal não era a mesma “verdade” do remetente) quer dizer que... concluam vocês, que falar o óbvio já está ficando chato.
Em vista da mensagem, que cumulava o pedido de orações com um beliscãozinho na Montfort, muitos simpatizantes do professor Orlando e do grupo que compõe a Associação, se revoltaram. Não era de se esperar que o Padre Joãozinho concordasse com a posição da Montfort, por conta do advento da morte de seu presidente. Mas é de se estranhar que o “providencial” tempo de calar, tivesse “providencialmente” terminado quando da morte do professor... essa sincronia covarde pode ser percebida com a pronta resposta do Padre Joãozinho aos admiradores da Montfort (vide: http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2010/06/10/sr-fedeli-procurou-aquilo-que-entendia-ser-a-verdade/ ), bem como na discussão que o Padre manteve no blog do Angueth (vide os comentários ao artigo: http://angueth.blogspot.com/2010/06/samba-do-crioulo-doido-pe-joaozinho-e.html) e ainda mais um pouquinho aqui http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho/2010/06/14/a-visao-de-um-canonista-sobre-a-associacao-montfort/ .
De fato, parece definitivamente que “o tempo de calar” passou... bem no momento “oportuno”.
Quando recebeu comentários ríspidos contra “aquilo que entendia ser a verdade”, Padre Joãozinho tentou se justificar com citações da Encíclica Papal Caritas In Veritate e Deus Caritas Est, também de Santo Agostinho em Libero Arbitrio.
Depois de apresentar as citas ele conclui: Nós somos relativos. Nossa compreensão da verdade é relativa.
Mas será que as citações que ele aloca dão respaldo mesmo a essa conclusão?
Vejamos com atenção:
A verdade, que é dom tal como a caridade, é maior do que nós, conforme ensina Santo Agostinho. Também a verdade acerca de nós mesmos, da nossa consciência pessoal é-nos primariamente « dada »; com efeito, em qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela «não nasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano ».
E depois:
Santo Agostinho expõe, de maneira detalhada, este ensinamento no diálogo sobre o livre arbítrio (De libero arbitrio, II, 3, 8s.). Aponta para a existência de um « sentido interno » dentro da alma humana. Este sentido consiste num acto que se realiza fora das funções normais da razão, um acto não reflexo e quase instintivo, pelo qual a razão, ao dar-se conta da sua condição transitória e falível, admite acima de si mesma a existência de algo de eterno, absolutamente verdadeiro e certo. O nome, que Santo Agostinho dá a esta verdade interior, umas vezes é Deus (Confissões X, 24, 35; XII, 25, 35; De libero arbitrio, II, 3, 8, 27), outras e mais frequentemente é Cristo (De magistro 11, 38; Confissões VII, 18, 24; XI, 2, 4).
O que os textos elencados remetem é àquilo que se pode dizer de inesgotabilidade da Verdade, ou ainda, que nosso conhecimento da Verdade é limitado.
Mas isso é óbvio. Nossa contingência não é capaz de abarcar in totum A Verdade! Entretanto, podemos chegar a diversas verdades e de maneira bem precisa, como, por exemplo, desde o básico 2 + 2 são quatro, quanto a bem mais basilar lição nesse vale de lágrimas, de que devemos viver e morrer na Amizade Divina.
E ressalte-se que no primeiro texto citado, o Papa Bento XVI ataca de maneira breve, mas muito contundente, a mentalidade moderna com a brilhante observação: “com efeito, em qualquer processo cognoscitivo, a verdade não é produzida por nós, mas sempre encontrada ou, melhor, recebida. Tal como o amor, ela « não nasce da inteligência e da vontade, mas de certa forma impõe-se ao ser humano ».”
Ou seja, a verdade não é produzida pelo sujeito, não é subjetiva, mas se impõe a nós, é objetiva. Assim é que a verdade independe de nós, dos nossos gostos e das nossas intenções, ela encontra-se sob outra formalidade na própria coisa inteligida.
Atacando o subjetivismo, o Papa - como é de esperar - ataca por tabela o pai desse cacoete gnoseológico, que é exatamente o... (suspense!) relativismo.
O relativismo moderno preceitua o enfraquecimento da certeza... “tudo é relativo”, é o que se costuma ouvir.
Certa vez, lecionando numa universidade ouvi de uma aluna “ah professor! tudo é incerto, relativo”, ao que respondi-lhe com uma pergunta retórica “Você tem certeza?”.
Essa aporia da contradição intrínseca do não-cognitivismo, seja ele escrachado ou disfarçado, é invencível.
O Angueth se referiu a ela de passagem na resposta ao Padre Joãozinho:
“O que o padre não percebe é que dizendo que “Nossa compreensão da verdade é relativa”, ele se expõe à seguinte pergunta: O Sr. espera que minha compreensão deste seu juízo seja relativa ou absoluta?”
Com isso quero concluir que o uso da palavra “relativo” não é conveniente nesses tempos em que a teoria do conhecimento é tão maltratada pelos modernos/modernistas.
Um aluno que saiba que 3 + 4 são sete, pode não saber resolver equações de segundo grau, mas pode ter certeza da primeira “conta”. Os seres humanos podem não conhecer A Verdade face-a-face de maneira esgotada e completa, mas o quanto conhece dela pode ser liquidamente certeiro.
E o professor Orlando defendia muitas verdades eternas, muitas delas infelizmente relegadas a segundo plano por quem teria o ofício de ensina-las.
A constatação de que a Verdade nos ultrapassa não significa que não possamos chegar a um sem-número de verdades fundamentais seja com a razão natural, seja por Revelação Divina. E tais Verdades, por nutrirem-se e refletirem Aquele que é A Verdade, pode em nós viver, nutrindo e refletindo intensamente em nós a Imagem e Semelhança Daquele que a Sustenta, como Sustenta nossa limitada, mas apta, inteligência.
Vida longa à Montfort!
Recomendação de leitura: Verdade e Conhecimento, livro com tradução de parte importante da questão disputada sobre a Verdade, de Santo Tomás de Aquino. Tradução de Jean Lauand.